segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Editorial do NYT critica operação para capturar Maduro e questiona presidente Trump

Por O Globo

Publicação americana reconhece caráter autoritário de Maduro, mas afirma que captura do presidente venezuelano viola a Constituição dos EUA, o direito internacional e repete erros históricos

O New York Times criticou a escalada militar dos EUA contra a Venezuela e a captura do líder chavista, Nicolás Maduro, em um contundente editorial publicado neste sábado. Embora reconheça o caráter autoritário e repressivo do regime venezuelano, a publicação afirma que a operação anunciada pelo presidente americano, Donald Trump, é ilegal à luz da Constituição dos EUA e do direito internacional, e alerta que a iniciativa repete erros históricos da política externa do país, arriscando aprofundar ainda mais a instabilidade na região.

O editorial descreve a mobilização militar no Caribe nos últimos meses como "impressionante" — com menção ao envio do porta-aviões USS Gerald R. Ford, navios de guerra, dezenas de aeronaves e cerca de 15 mil soldados —, dentro do escopo da operação contra embarcações supostamente usadas para o tráfico internacional de drogas. A captura de Maduro, classificada pelo governo como parte de "um ataque em grande escala", representaria uma escalada relevante na região.

"Poucas pessoas vão sentir simpatia pelo sr. Maduro. Ele é antidemocrático e repressivo e, nos últimos anos, desestabilizou o Hemisfério Ocidental", diz o editorial, apontando também que relatórios da ONU detalham mais de uma década de assassinatos, torturas, violência sexual e prisões arbitrárias" contra opositores políticos de Maduro, cometidas "por seus capangas".

O jornal americano também afirma que Maduro "roubou a eleição presidencial de 2024" e que suas ações provocaram "disrupção econômica e política em toda a região", forçando "o êxodo de quase oito milhões de migrantes", em referência à diáspora venezuelana. Ainda assim, o texto argumentativo pondera que a experiência histórica americana demonstra que intervenções militares raramente produzem os resultados desejados.

"Se há uma lição predominante da política externa americana no último século, é que tentar derrubar até o regime mais deplorável pode piorar as coisas", diz o texto.

Como exemplos, o New York Times cita os 20 anos de guerra no Afeganistão, a fragmentação da Líbia após a queda de Muammar Gaddafi e as "trágicas consequências" da invasão do Iraque em 2003. O editorial acrescenta que os EUA "desestabilizaram de forma intermitente países da América Latina, como Chile, Cuba, Guatemala e Nicarágua", ao tentar derrubar governos pelo uso da força.

Críticas às justificativas de Trump

A publicação também afirma que Trump "ainda não ofereceu uma explicação coerente" para suas ações na Venezuela, e acusa o presidente de empurrar o país para "uma crise internacional sem razões válidas". Segundo o editorial, caso o governo queira sustentar a legalidade da ofensiva, a Constituição deixa claro o que ele deve fazer: recorrer ao Congresso". Sem isso, diz o texto, "suas ações violam a lei americana".

A justificativa oficial de combate a narcoterroristas também é duramente questionada no texto.

"Ao longo da história, governos rotularam líderes de nações rivais como terroristas para justificar incursões militares como se fossem operações policiais", escreve o Times, acrescentando que, no caso venezuelano, o argumento seria "particularmente absurdo", já que o país não é um produtor significativo de fentanil nem de outras drogas centrais na recente epidemia de overdoses nos EUA, enquanto a maior parte da cocaína produzida na região tem como destino a Europa.

O editorial também destacou contradições da atual política externa americana, lembrando que enquanto Trump mandava atacar embarcações no Caribe e no Pacífico, concedeu perdão a Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras condenado por comandar uma vasta operação de narcotráfico durante seu mandato.

Para o NYT, uma explicação mais plausível para a ofensiva aparece na nova Estratégia de Segurança Nacional divulgada pelo governo Trump. O documento reivindica a retomada da Doutrina Monroe e afirma que os Estados Unidos irão "reafirmar e fazer cumprir" sua preeminência no Hemisfério Ocidental. No chamado "Corolário Trump", a administração promete redirecionar forças militares para a região, deter traficantes em alto-mar, usar força letal contra migrantes e narcotraficantes e ampliar a presença de bases americanas.

"A Venezuela parece ter se tornado o primeiro país submetido a esse imperialismo de nova estirpe", afirma o editorial, ao classificar a abordagem como "perigosa e ilegal. O jornal alerta que, ao avançar "sem qualquer aparência de legitimidade internacional, autoridade legal válida ou apoio interno", Trump corre o risco de fortalecer líderes autoritários "na China, na Rússia e em outros lugares" e de repetir a arrogância americana que levou à invasão do Iraque em 2003".

Aventureirismo militar de Trump

O NYT destaca a importância do debate no Congresso como instrumento democrático para conter o aventureirismo militar. "Eles freiam o aventureirismo militar ao obrigar um presidente a justificar seus planos de ataque ao público", afirma o texto. O editorial sugere que Trump evita buscar autorização legislativa porque sabe que enfrenta resistência inclusive entre republicanos, citando parlamentares que apoiam medidas para limitar ações contra a Venezuela.

Além da legalidade interna, o jornal afirma que os ataques violam o direito internacional. Ao destruir embarcações suspeitas, argumenta o texto, os EUA teriam matado pessoas "baseando-se apenas na suspeita de que cometeram um crime", sem chance de defesa, o que corresponderia a execuções extrajudiciais proibidas pelas Convenções de Genebra e por tratados de direitos humanos.

"O que separa a guerra do assassinato é a lei", escreve o jornal, citando um ex-advogado do Exército americano.

Por fim, o editorial afirma que a ofensiva não atende aos interesses de segurança nacional dos EUA. Embora cite a invasão do Panamá, em 1989, sob o governo de George H. W. Bush, como precedente frequentemente lembrado, o NYT ressalta que a Venezuela apresenta riscos muito maiores, com potencial de violência interna, atuação de grupos armados, impacto nos mercados globais de energia e aumento do fluxo migratório.

"Não há respostas fáceis, conclui o jornal, alegando que o resultado do aventureirismo militar de Trump pode ser "mais sofrimento para os venezuelanos, maior instabilidade regional e danos duradouros aos interesses dos EUA no mundo todo".

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