Por O Globo
Publicação americana reconhece caráter autoritário de Maduro, mas afirma que captura do presidente venezuelano viola a Constituição dos EUA, o direito internacional e repete erros históricos
O New York Times criticou a escalada militar dos EUA contra a Venezuela e a captura do líder chavista, Nicolás Maduro, em um contundente editorial publicado neste sábado. Embora reconheça o caráter autoritário e repressivo do regime venezuelano, a publicação afirma que a operação anunciada pelo presidente americano, Donald Trump, é ilegal à luz da Constituição dos EUA e do direito internacional, e alerta que a iniciativa repete erros históricos da política externa do país, arriscando aprofundar ainda mais a instabilidade na região.
O editorial descreve a mobilização militar no
Caribe nos últimos meses como "impressionante" — com menção
ao envio do porta-aviões USS Gerald R. Ford, navios de guerra, dezenas
de aeronaves e cerca de 15 mil soldados —, dentro do escopo da operação contra
embarcações supostamente usadas para o tráfico internacional de drogas. A
captura de Maduro, classificada pelo governo como parte de "um ataque em
grande escala", representaria uma escalada relevante na região.
"Poucas pessoas vão sentir simpatia pelo
sr. Maduro. Ele é antidemocrático e repressivo e, nos últimos anos,
desestabilizou o Hemisfério Ocidental", diz o editorial, apontando também
que relatórios da ONU detalham mais de uma década de assassinatos, torturas,
violência sexual e prisões arbitrárias" contra opositores políticos de
Maduro, cometidas "por seus capangas".
O jornal americano também afirma que Maduro
"roubou a eleição presidencial de 2024" e que suas ações provocaram
"disrupção econômica e política em toda a região", forçando "o
êxodo de quase oito milhões de migrantes", em referência à diáspora
venezuelana. Ainda assim, o texto argumentativo pondera que a experiência
histórica americana demonstra que intervenções militares raramente produzem os
resultados desejados.
"Se há uma lição predominante da
política externa americana no último século, é que tentar derrubar até o regime
mais deplorável pode piorar as coisas", diz o texto.
Como exemplos, o New York Times cita os 20
anos de guerra no Afeganistão, a fragmentação da Líbia após a queda de Muammar
Gaddafi e as "trágicas consequências" da invasão do Iraque em 2003. O
editorial acrescenta que os EUA "desestabilizaram de forma intermitente
países da América Latina, como Chile, Cuba, Guatemala e Nicarágua", ao
tentar derrubar governos pelo uso da força.
Críticas às justificativas de Trump
A publicação também afirma que Trump
"ainda não ofereceu uma explicação coerente" para suas ações na
Venezuela, e acusa o presidente de empurrar o país para "uma crise
internacional sem razões válidas". Segundo o editorial, caso o governo
queira sustentar a legalidade da ofensiva, a Constituição deixa claro o que ele
deve fazer: recorrer ao Congresso". Sem isso, diz o texto, "suas
ações violam a lei americana".
A justificativa oficial de combate a
narcoterroristas também é duramente questionada no texto.
"Ao longo da história, governos
rotularam líderes de nações rivais como terroristas para justificar incursões
militares como se fossem operações policiais", escreve o Times,
acrescentando que, no caso venezuelano, o argumento seria "particularmente
absurdo", já que o país não é um produtor significativo de fentanil nem de
outras drogas centrais na recente epidemia de overdoses nos EUA, enquanto a
maior parte da cocaína produzida na região tem como destino a Europa.
O editorial também destacou contradições da
atual política externa americana, lembrando que enquanto Trump mandava
atacar embarcações no Caribe e no Pacífico, concedeu perdão a Juan
Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras condenado por comandar uma
vasta operação de narcotráfico durante seu mandato.
Para o NYT, uma explicação mais plausível
para a ofensiva aparece na nova
Estratégia de Segurança Nacional divulgada pelo governo Trump. O documento
reivindica a retomada da Doutrina Monroe e afirma que os Estados Unidos irão
"reafirmar e fazer cumprir" sua preeminência no Hemisfério Ocidental.
No chamado "Corolário Trump", a administração promete redirecionar
forças militares para a região, deter traficantes em alto-mar, usar força letal
contra migrantes e narcotraficantes e ampliar a presença de bases americanas.
"A Venezuela parece ter se tornado o
primeiro país submetido a esse imperialismo de nova estirpe", afirma o
editorial, ao classificar a abordagem como "perigosa e ilegal. O jornal
alerta que, ao avançar "sem qualquer aparência de legitimidade
internacional, autoridade legal válida ou apoio interno", Trump corre
o risco de fortalecer líderes autoritários "na China, na Rússia e em
outros lugares" e de repetir a arrogância americana que levou à
invasão do Iraque em 2003".
Aventureirismo militar de Trump
O NYT destaca a importância do debate no
Congresso como instrumento democrático para conter o aventureirismo militar.
"Eles freiam o aventureirismo militar ao obrigar um presidente a
justificar seus planos de ataque ao público", afirma o texto. O editorial
sugere que Trump evita buscar autorização legislativa porque sabe que enfrenta
resistência inclusive entre republicanos, citando parlamentares que apoiam
medidas para limitar ações contra a Venezuela.
Além da legalidade interna, o jornal afirma
que os ataques violam o direito internacional. Ao destruir embarcações
suspeitas, argumenta o texto, os EUA teriam matado pessoas "baseando-se
apenas na suspeita de que cometeram um crime", sem chance de defesa, o que
corresponderia a execuções extrajudiciais proibidas pelas Convenções de Genebra
e por tratados de direitos humanos.
"O que separa a guerra do assassinato é
a lei", escreve o jornal, citando um ex-advogado do Exército americano.
Por fim, o editorial afirma que a ofensiva
não atende aos interesses de segurança nacional dos EUA. Embora cite a invasão
do Panamá, em 1989, sob o governo de George H. W. Bush, como precedente
frequentemente lembrado, o NYT ressalta que a Venezuela apresenta riscos muito
maiores, com potencial de violência interna, atuação de grupos armados, impacto
nos mercados globais de energia e aumento do fluxo migratório.
"Não há respostas fáceis, conclui o jornal, alegando que o resultado do aventureirismo militar de Trump pode ser "mais sofrimento para os venezuelanos, maior instabilidade regional e danos duradouros aos interesses dos EUA no mundo todo".

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