Ao atacar ditador da Venezuela, Trump pode entrar em atoleiro
Por Valor Econômico
Embora Maduro tenha sido destituído do poder, ainda é cedo para declarar o fim do regime inaugurado por Hugo Chávez em 1999
Não há dúvidas de que Nicolás Maduro era um líder autoritário e corrupto, cuja violenta repressão provocou o êxodo de cerca de 20% da população venezuelana desde 2014. Porém, ao ordenar o ataque à Venezuela para capturar e sequestrar o ditador e sua esposa, Cilia Flores, o presidente dos EUA, Donald Trump, cometeu um crime de agressão sob o direito internacional — um país não pode atacar outro salvo em legítima defesa contra uma agressão sofrida ou por aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Mesmo sob a lei americana, Trump violou a constituição ao não buscar o aval do Congresso para a ação militar — se os EUA ainda fossem um país que levasse isso a sério, a ação poderia suscitar o impeachment do presidente. E em um drástico afastamento de sua bandeira contrária a intervenções no exterior, Trump declarou que os EUA iriam “governar” a Venezuela até uma “transição segura” de poder e que iriam controlar a produção de petróleo do país — arriscando ficar preso em um atoleiro traiçoeiro, assim como o russo Vladimir Putin está há quase quatro anos na Ucrânia.
Embora Maduro tenha sido destituído do poder, ainda é cedo para declarar o fim do regime inaugurado por Hugo Chávez em 1999. Seus aliados chavistas continuam no poder, com a vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumindo a presidência — reconhecida pelo governo brasileiro ainda no sábado. Também continuam na cúpula o poderoso ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, e o ministro do Interior, Diosdado Cabello, que comandam a força militar do regime. Esse futuro ainda é uma incógnita. Delcy adotou um tom desafiador no sábado, mas, segundo reportagem do New York Times, altos funcionários do governo Trump têm a expectativa de que ela possa ser uma solução temporária, que protegeria investimentos americanos no setor de energia na Venezuela.
Os venezuelanos na diáspora — mais de 8 milhões — podem ter comemorado a queda de Maduro, mas na capital, Caracas, a primeira reação foi estocar comida e combustível em meio à elevada incerteza. Uma cautela que reflete anos de tentativas fracassadas de transições democráticas e um clima de medo e repressão fomentado sob o governo de Maduro.
Até ontem, ainda não estava claro como Trump pretende “governar” a Venezuela, um país de 30 milhões de habitantes e com vastas reservas de petróleo. Não há um plano concreto de presença de tropas ou administradores americanos na Venezuela. Ao escantear a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, chamando-a de “boa moça”, mas que não está pronta para assumir o poder, Trump indicou que pretende controlar Delcy e o restante da cúpula chavista em vez de uma mudança completa de regime. Em entrevista ao New York Post, o presidente confirmou essa abordagem ao dizer que tropas americanas na Venezuela não seriam necessárias, desde que Delcy “faça o que queremos”. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, esclareceu ontem que os EUA vão usar o bloqueio ao petróleo venezuelano para forçar as mudanças desejadas no regime chavista.
Anabolizado pelas imagens de grandes explosões e a captura de Maduro sem nenhuma baixa do lado americano — segundo o New York Times, cerca de 80 militares e civis teriam morrido no ataque americano —, Trump sugeriu disposição de ampliar suas aventuras na América Latina. Ele insinuou que o México — que fornece quase todo o fentanil consumido nos EUA — estaria na mira porque os cartéis comandariam o país, e não a presidente esquerdista, Claudia Sheinbaum. Também alertou Gustavo Petro, da Colômbia — maior produtora de coca do mundo —, para “tomar cuidado”.
Mas essa nova missão de Trump de “tornar a Venezuela grande novamente” e de retomar a dominância dos EUA nas Américas pode ser difícil de engolir para parte de sua base de apoiadores. A congressista Marjorie Taylor Greene, ex-aliada de Trump que rompeu com o presidente após acusá-lo de abandonar sua base política, condenou prontamente as ações na Venezuela, dizendo que muitos no movimento Maga (Make America Great Again) votaram em Trump pensando que estavam acabando com o engajamento dos EUA em guerras estrangeiras. Outro deputado republicano declarou que os EUA deveriam “governar” apenas os EUA.
Até agora, o sistema de freios e contrapesos da democracia americana falhou em conter as escancaradas violações de Trump, com uma Suprema Corte lotada de indicados pelo presidente e um Congresso sob controle de um Partido Republicano que poderia se chamar Partido Trump. Assim como no caso das tarifas, é a dura realidade que pode impor alguma restrição ao presidente. A insatisfação dos americanos com a crise no custo de vida fez Trump rever muitos dos aumentos tarifários, incluindo a sobretaxa de 40% às importações de produtos brasileiros. Trump encerrou 2025 com os piores índices de sua Presidência, com 56% de desaprovação, segundo pesquisa Economist/YouGov. Para 51% dos entrevistados a economia está piorando, o que pode custar o controle republicano do Congresso nas eleições de novembro. A pressão política e econômica pode ter levado Trump a buscar sua própria guerra externa para desviar da baixa aprovação interna. Mas as intervenções americanas no Iraque, Afeganistão e Líbia não são um bom presságio para o líder americano.
Por O Globo
Divisão equânime depois da separação supera responsabilidade exclusiva da mãe pelos filhos
O avanço da guarda compartilhada dos filhos de pais separados é reflexo de uma transformação da sociedade brasileira na direção da modernidade e da igualdade de gênero. Pela primeira vez, segundo o IBGE, mais casais escolhem dividir a responsabilidade de cuidar dos filhos depois da separação do que deixá-la apenas a cargo da mãe. No período de dez anos entre 2014 e 2024, a proporção de casos de guarda dividida entre pai e mãe passou de 7,5% das separações judiciais para 44,5%, enquanto as situações com responsabilidade exclusivamente materna retrocederam de 85% das separações a 42,6%. A realidade mostra que hoje a guarda compartilhada se tornou o modelo predominante e, pela tendência, só deverá aumentar.
Fundamental para a transformação foi a Lei da
Guarda Compartilhada, aprovada pelo Congresso em 2014, diz Klívia Brayner,
gerente de pesquisa do IBGE. O Parlamento alterou o Código Civil para
estabelecer como prioridade a divisão de responsabilidades na guarda dos
filhos. “A guarda compartilhada passou a ser a regra e a unilateral, a exceção.
Hoje, só é possível afastar esse modelo quando há abandono, risco concreto à
criança ou situações excepcionais”, afirma Vanessa Paiva, advogada que atua em
varas de família.
Ao privilegiar separações com divisão
equânime na guarda dos filhos, a lei respondeu a uma transformação cultural
pela qual a sociedade passava. O movimento de divisão de responsabilidades foi
anterior à mudança legislativa. “Os pais passaram a assumir papel ativo na rotina
dos filhos. Isso tornou a guarda compartilhada o modelo mais natural e mais
desejável, porque ele contribui para fortalecer o vínculo com ambos os
genitores e diminui a desigualdade parental”, afirma a advogada de Direito de
Família Adriana Cabral. A guarda compartilhada, segundo ela, obriga o pai a
assumir responsabilidades e a deixar de tratar os filhos apenas como “visitas”.
A evolução também é resultado de uma luta dos
movimentos feministas e, para as mulheres, representa uma vitória. Acordos na
separação evitam brigas e dissabores futuros, em benefício dos próprios filhos.
Karolaine Carvalho, moradora de São Gonçalo (RJ), relatou
à reportagem do GLOBO que ela e o ex-marido dividem tudo,
horários, passeios. “Quando um dos dois precisa levar as crianças a algum
lugar, estipulamos uma data. Nos aniversários, sempre procuramos fazer uma
festinha em que esteja todo mundo junto”, diz. Há, ainda, a questão financeira.
Karolaine lembra que cogitou pedir a guarda total dos filhos, mas fez as contas
“na ponta do lápis” e constatou que a pensão não cobriria todos os gastos.
As estatísticas do IBGE mostram que a guarda
compartilhada cresceu em todos os estados, destacando Amazonas, Mato Grosso e
Distrito Federal, onde 60% dos casais em processo de separação têm optado pela
divisão equânime de responsabilidades. O maior crescimento no período de dez
anos se deu em Sergipe (alta de quase 990%), Espírito Santo (723%) e Minas
Gerais (705,8%). O modelo se espalha por todo o país. Os filhos agradecem.
Rio tem potencial para criar 676 mil novos
empregos em dez anos
Por O Globo
Mas estado precisa resolver questões como
segurança e infraestrutura para favorecer desenvolvimento, diz estudo
Governos do Rio, parlamentares e futuros
candidatos nas eleições de 2026 deveriam se debruçar sobre o estudo produzido
pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) apontando vocações e
potencialidades do estado e sugerindo novas fronteiras para impulsionar a
economia fluminense nos próximos dez anos. Entre as fronteiras estão transição
energética, economia circular e de baixo carbono; turismo, cultura e economia
criativa; complexo de saúde, biotecnologia, química e farmacêutica; complexo
aeroespacial, tecnologia, IA e data centers. Segundo o estudo, essas
estratégias poderiam levar as indústrias do estado a aumentar sua participação
no PIB industrial nacional de 17% para 23% e à criação de 676 mil novos
empregos em dez anos.
O estudo divide as vocações em dois grandes
grupos: o setor estruturante, que reúne áreas de petróleo e gás,
infraestrutura, metal-mecânica e construção, com possibilidade de gerar 438 mil
empregos. E o de consumo, que abrange alimentos e bebidas; audiovisual;
tecnologias de informação e comunicação; produtos químicos e farmacêuticos;
moda, têxtil e confecções; papel e gráfico, com potencial para gerar mais 238
mil postos de trabalho. Com estímulos a essas vocações, diz a Firjan, o PIB industrial
fluminense poderia crescer R$ 489 bilhões em uma década, ante R$ 279 bilhões de
hoje.
Ao mesmo tempo, o estudo elenca problemas
estruturais que podem dificultar o crescimento. O mais óbvio é a segurança
pública. O levantamento mostra que duas em três indústrias dizem que suas
decisões de investimento sofrem impacto da violência. É inegável que esse é um
problema que o estado precisa resolver. Grandes áreas dominadas por
organizações criminosas, roubos de carga, concorrência predatória de produtos
pirateados e contrabandeados conspiram contra qualquer projeto de
desenvolvimento.
A segurança não é o único entrave. O estudo
cita também a necessidade de energia estável e previsível — em 2024, as perdas
energéticas custaram R$ 1,7 bilhão. A malha viária fragmentada e a baixa
integração entre os portos são outros obstáculos. Para solucionar esses problemas,
os empresários reivindicam a construção de uma logística integrada, com
aeroportos, portos e ferrovias funcionando de forma articulada. Defendem ainda
previsibilidade regulatória e competitividade tributária para viabilizar
investimentos de longo prazo. “O poder público tem papel importante”, diz
Jonathas Goulart, gerente de Estudos Econômicos da Firjan.
O estudo é um guia robusto para orientar o crescimento do Rio na próxima década com base em suas vocações e oportunidades, mas é também um recado realista de que o estado precisa resolver problemas crônicos se quiser alçar voos mais ambiciosos. Nenhum incentivo faz sentido se não houver um bom ambiente de negócios para quem escolheu o Rio para produzir. Governos, legisladores e candidatos têm um material consistente para elaborar seus planos e estratégias de governo. Se vierem a frustrar a população, não será por falta de subsídios.
Crise orçamentária está à vista de todos
Por Folha de S. Paulo
Análises reforçam que política de gastos de
Lula manterá dívida alta e drenará verbas para investimentos
Neste 2026, os programas dirão se os
presidenciáveis vão ser responsáveis e contar ao eleitorado que o governo
precisa de refundação
Mantida a política de gastos do governo Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT), a dívida
pública brasileira deve crescer sem limite ao longo da próxima década,
nas projeções da Instituição Fiscal Independente (IFI), entidade autônoma
ligada ao Senado, responsável pela análise das contas do Tesouro.
O indicador, que atingiu já alarmantes 79% do
Produto Interno Bruto em novembro, chegaria a 97,1% do PIB em
2030, ao final do próximo mandato presidencial.
É fácil perceber o motivo. No cenário mais
otimista da IFI, apresentado no último relatório de 2025, a União terá
déficits, mesmo sem contar despesas com juros,
até 2033. A fim de estabilizar de pronto a relação entre dívida e PIB, seria
necessário um superávit de 2,3% do PIB, considerando crescimento de 2,2% da
economia e queda dos juros. Hoje há déficit de 0,3% do produto.
A dívida pública era de 71,7% quando começou
o terceiro mandato de Lula. Antes de criar o tal arcabouço fiscal, o presidente
da República promoveu grande aumento de despesa. Retomou os reajustes do
salário mínimo acima da inflação,
o que multiplica pagamentos previdenciários e assistenciais, e restabeleceu a
vinculação dos gastos em saúde e educação à alta da receita.
É um sistema marcado para explodir. Desde o
final de 2022, o aumento real da despesa foi de R$ 316,5 bilhões para R$ 2,4
trilhões anuais. O incremento se deveu a mais gastos incomprimíveis com
Previdência Social, saúde, educação, BPC e Bolsa Família.
A despesa obrigatória, inflada ainda por
emendas parlamentares, limita cada vez mais o dispêndio discricionário, que era
de 13,8% do total em 2014 e está perto de 8% hoje, segundo dados da mais
recente Carta de Conjuntura do Ipea, instituto federal de pesquisa econômica.
Além de dispor de cada vez menos dinheiro
para investir em infraestrutura ou pesquisa, o governo pode ficar sem recursos
até para manter a máquina pública.
A prodigalidade ineficiente também estimulou
além da conta a atividade econômica, pressionando a inflação. Uma dívida
ilimitada leva descrédito ao governo e mantém
nas alturas as taxas de juros. Déficits e juros se realimentam, em
círculo vicioso, e degradam a
atividade econômica —investimento, inovação, criação de
empresas, previsibilidade.
Assim o país terminou 2025, com diagnóstico
de mal grave, que não será remediado sem revisão profunda das regras atuais.
Não se trata de teorias da conspiração ou de
discursos oposicionistas. As análises constam de relatórios de entidades
ligadas ao setor público e se amparam em dados oficiais. As próprias áreas
técnicas dos ministérios da Fazenda e do Planejamento já fizeram diagnósticos
semelhantes.
Neste 2026, os programas dirão se os
presidenciáveis vão ignorar o risco de desastre, se vão propor algum paliativo
medíocre ou se terão a responsabilidade de contar ao eleitorado que o governo
precisa de refundação.
Protestos expõem fragilidade da teocracia no
Irã
Por Folha de S. Paulo
Manifestações contra situação econômica
retomam movimento de insatisfação em momento instável do regime
País fechou o ano com uma inflação de 42,5%;
Trump, que já atacou a Venezuela, sugere intervenção militar em favor dos
descontentes
Na última sexta-feira (2), véspera do ataque
americano que capturou o ditador Nicolás Maduro em Caracas, o presidente Donald Trump sugeriu que
poderia intervir mais uma vez no Irã, país que
bombardeou em 2025.
O motivo, desta vez, seria o apoio à onda de
protestos contra a teocracia instalada em 1979. O republicano
disse que agiria caso a repressão com mortes continuasse. Se parecia mera
bravata, os fatos do sábado (3) e a inconstância usual do presidente podem
insinuar algo mais.
Desde a semana passada, milhares de
manifestantes têm ido às ruas iranianas, uma rotina na última década, sendo
atacados pela polícia. A razão mais imediata é a anomia econômica vigente. Sob
efeito de sanções internacionais, o país viu sua moeda derreter para metade do
valorem relação ao dólar em 2025.
Os preços dispararam, e o ano fechou com
inflação de 42,5%. Moradores de diversas cidades resolveram se queixar, e a
reação oficial, inicialmente de diálogo, descambou para a repressão, com
diversas mortes relatadas.
É a maior
agitação popular em três anos. O regime vem perdendo o controle
social progressivamente, resultado do fastio com as políticas restritivas nos
costumes, motivo da onda anterior de protestos, e com a gestão do país.
Ao endurecer contra os manifestantes, Teerã
passa recibo de sua própria fragilidade. Ela foi acentuada após o
desmoronamento de duas décadas de política externa, baseada em prepostos
regionais para enfrentar os interesses americanos e israelenses no Oriente Médio.
O ataque de um deles, o Hamas palestino,
ao Estado judeu em 2023 disparou uma reação brutal, que degradou toda a rede
iraniana na região. Os aiatolás também foram humilhados com diversos
assassinatos em seu solo, inclusive o do líder do Hamas, executado na capital
iraniana em 2024. Mesmo a morte do presidente linha-dura Ebrahim Raisi, num
acidente de helicóptero no mesmo ano, é envolta em mistério.
Após troca de fogo com Israel em
duas ocasiões, os rivais se enfrentaram em uma guerra de 12 dias, encerrada
após intervenção dos Estados
Unidos, que bombardearam instalações nucleares do país.
Tudo isso reduziu a habilidade do líder
supremo, aiatolá Ali Khamenei, de manter o controle. Aos 86 anos e com a saúde
debilitada, ele tinha em Raisi um sucessor, e agora o cenário é incerto.
Os casos venezuelano e iraniano são bem díspares, mas a disposição renovada de Trump de contradizer o não intervencionismo de sua base soma imprevisibilidade à situação.
O melancólico fim da gestão Haddad
Por O Estado de S. Paulo
Ministro concebeu uma âncora fiscal que só
existia como propaganda e passou os últimos três anos reafirmando um
compromisso de equilíbrio das contas que Lula desmoralizou diariamente
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse
que deixará o cargo em fevereiro para colaborar com a campanha à reeleição do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A rigor, o ministro Haddad colabora com a
campanha de Lula desde o primeiro dia em que assumiu o cargo, pois desdobrou-se
para conseguir maneiras de aumentar a arrecadação e, assim, satisfazer a ânsia
perdulária do chefe para aumentar seu capital eleitoral.
Haddad não teve a capacidade de ser, no
terceiro mandato presidencial de Lula, o que Antonio Palocci foi no primeiro. É
certo que Haddad e Palocci são igualmente petistas, mas Palocci, ainda na
campanha que Lula venceria, conseguiu convencer o chefe a firmar o compromisso
de que preservaria o superávit fiscal – que, junto com o câmbio flutuante e as
metas de inflação, compunha o tripé macroeconômico herdado do governo de
Fernando Henrique Cardoso. Pior: sua equipe econômica cometeu a heresia de
propor, em 2005, que o governo perseguisse o déficit nominal zero, isto é, que
o gasto do governo, incluindo os juros, deixasse de superar a arrecadação. Era
uma meta ousada, que melhoraria drasticamente o conceito do Brasil no mercado
e, com isso, permitiria a redução acentuada dos juros. Mas a ideia não foi
adiante, porque era demais para os padrões petistas. Na época, em entrevista
ao Estadão, a
então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, classificou o plano de
“rudimentar”.
Haddad, que não chega a ser uma Dilma, mas
jamais será um Palocci, não fez nada remotamente parecido com isso. Ao
contrário: ajudou a conceber uma âncora fiscal que só existia para efeito de
propaganda e passou os últimos três anos tentando dourar a pílula do déficit,
reafirmando um compromisso de equilíbrio das contas públicas que Lula e os
números tratavam de desmoralizar diariamente. Se o Lula do primeiro mandato
ainda se preocupava com passar para o mercado e os investidores a imagem de que
trataria as contas públicas com seriedade, o Lula do terceiro mandato pisou no
acelerador dos gastos sem qualquer pudor. Recorde-se que, no mês passado, Lula
saiu-se com esta: “Não tem macroeconomia, não tem câmbio: se tiver dinheiro na
mão do povo, está resolvido o nosso problema”.
Sob certos aspectos, portanto, Haddad
encerrará sua gestão como o ministro da Fazenda possível dentro de uma gestão
petista com essas características. Reconheça-se seu esforço pela aprovação da
reforma tributária sobre o consumo, idealizada por seu ex-secretário Bernard
Appy e parada no Congresso havia quase 40 anos. Com a proposta, o País plantou
a semente para o fim de distorções que contêm a produtividade e o crescimento
da economia.
Ao mesmo tempo, porém, foi incapaz de
defender a segunda parte da reforma, que alteraria o Imposto de Renda (IR),
sucumbindo aos imperativos populistas de Lula e protagonizando o constrangedor
pronunciamento em rede de rádio e TV no qual foi obrigado a anunciar o plano
eleitoreiro do presidente de isentar de IR quem ganha até R$ 5 mil. Foi talvez
o ponto mais baixo de sua trajetória como ministro da Fazenda.
Por fim, um de seus principais objetivos não
foi alcançado: a recuperação do grau de investimento conquistado em 2008 e
perdido em 2015, dias após o governo Dilma Rousseff enviar ao Congresso uma
proposta de Orçamento prevendo um inédito déficit primário e ter contratado uma
inflação de dois dígitos e uma recessão para aquele ano e o seguinte.
A despeito da boa vontade das agências de
classificação de risco, não havia como ignorar o fato de que a trajetória da
dívida pública na proporção do PIB continua longe da prometida estabilidade. Ao
fim do terceiro mandato de Lula, o endividamento terá crescido cerca de 10
pontos porcentuais na proporção do PIB.
Nesse contexto, dizer que a arquitetura do
arcabouço pode ser mantida e que basta discutir seus parâmetros em 2027, como
fez Haddad, é insultar a inteligência alheia. Do mesmo modo, é ofensivo dizer
que Lula herdou um “inferno no campo fiscal” dos governos que o antecederam. Ao
fazê-lo, Haddad mostra que nunca deixará de ser um petista.
O básico que nunca chega
Por O Estado de S. Paulo
Menos de 3% dos municípios estão perto da
universalização do saneamento, fruto da negligência histórica que atravessa
governos e ideologias. Um atraso que o País insiste em tratar como normal
O Brasil aprendeu a conviver com o
inaceitável. Num país que conseguiu universalizar a energia elétrica, expandir
rapidamente as telecomunicações e construir um dos maiores sistemas bancários
digitais do mundo, milhões de pessoas ainda vivem sem acesso regular à água
tratada e à coleta e ao tratamento de esgoto. Não se trata de um desafio
recente nem de um problema técnico insolúvel. É, antes de tudo, a expressão
mais crua de uma negligência histórica que atravessa governos, ideologias e
ciclos econômicos sem jamais se tornar prioridade efetiva do Estado.
Os dados mais recentes ajudam a dimensionar a
gravidade do atraso. Segundo a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e
Ambiental (Abes), menos de 3% dos municípios brasileiros estão próximos de
alcançar a universalização do saneamento básico nos termos definidos pela
legislação vigente. No universo analisado pelo Ranking do Saneamento da
entidade, apenas algumas dezenas de cidades apresentam indicadores compatíveis
com as metas de acesso a água, coleta e tratamento de esgoto. A imensa maioria
permanece em estágios iniciais ou intermediários, muito distante do patamar
mínimo esperado para 2033.
O recorte regional torna o quadro ainda mais
constrangedor. Praticamente todos os municípios mais bem posicionados
concentram-se nas Regiões Sudeste e Sul. A Região Norte não tem uma única
cidade entre aquelas consideradas próximas da universalização. O saneamento,
que deveria ser uma política de redução de desigualdades, acabou se tornando
mais um fator de aprofundamento das assimetrias regionais brasileiras.
Esses números não emergem do acaso. O Brasil
ocupa posições modestas em rankings internacionais de acesso à água potável e,
sobretudo, de coleta e tratamento de esgoto. Em muitos municípios, mesmo quando
há coleta, o esgoto não é tratado, mas despejado diretamente em rios, córregos
e no solo. O resultado é um círculo vicioso de degradação ambiental, doenças
evitáveis e desperdício de recursos públicos, já que o custo do saneamento
negligenciado reaparece, multiplicado, no sistema de saúde.
A aprovação do novo Marco Legal do
Saneamento, em 2020, reconheceu explicitamente esse fracasso. Ao impor metas
objetivas, exigir contratos regulares e ampliar a segurança jurídica, buscou-se
romper com décadas de improvisação e aparelhamento político. Cinco anos depois,
porém, o ritmo de avanço permanece insuficiente. Os investimentos cresceram,
mas seguem aquém do necessário, e a universalização continua ameaçada de se
tornar promessa adiada.
Parte da explicação está na própria lógica
que rege a política pública no País. O saneamento é uma agenda estrutural por
excelência: exige obras caras, coordenação federativa, capacidade técnica e
visão de longo prazo. Não produz resultados imediatos, não rende inaugurações vistosas
nem dividendos eleitorais rápidos. Em contrapartida, cobra continuidade
administrativa, disciplina regulatória e cobrança por resultados.
Some-se a isso a fragilidade de muitos
municípios, que carecem de capacidade técnica e financeira para estruturar
projetos, fiscalizar contratos e planejar a expansão dos serviços. O resultado
é a tolerância com contratos precários, prorrogações indefinidas e discursos
que relativizam prazos e metas, como se o acesso à água limpa e ao esgoto
pudesse ser tratado como aspiração, e não como obrigação legal.
O custo dessa leniência é alto e amplamente
conhecido. A falta de saneamento impacta diretamente a saúde pública, aumenta
internações por doenças evitáveis, reduz a produtividade do trabalho e
compromete o desenvolvimento urbano e ambiental. Segundo estimativas
recorrentes do setor, cada real não investido em saneamento gera múltiplos
reais de despesa futura para o poder público. Ainda assim, o País insiste em
avançar lentamente, como se pudesse dar-se ao luxo de adiar indefinidamente o
básico.
Garantir água tratada e esgoto é uma
obrigação legal e moral do Estado brasileiro. Ao tolerar o avanço a passos lentos
no saneamento, o País faz uma escolha consciente: aceita que milhões de
brasileiros sigam expostos a doenças evitáveis, degradação ambiental e
condições indignas de vida. Nenhuma nação que aspire ao desenvolvimento pode
considerar isso aceitável.
Nova tecnologia, velhos riscos
Por O Estado de S. Paulo
Jaci põe o País na vanguarda da previsão
climática, mas tecnologia sozinha não salva vidas
O Brasil dá um passo importante ao incorporar
o supercomputador Jaci ao sistema nacional de monitoramento meteorológico e
climático. Instalado na unidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(Inpe) de Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo, o novo equipamento
eleva em 24 vezes a capacidade de processamento de dados em relação ao Tupã,
que será substituído após anos de serviço. Trata-se de um salto tecnológico que
posiciona o País entre os mais bem aparelhados do mundo para produzir previsões
mais rápidas, detalhadas e confiáveis.
Com o Jaci em operação, prevista para o
primeiro trimestre de 2026, o País passará a operar plenamente o novo modelo
nacional de previsão climática e oceânica (Monan), capaz de integrar cerca de
40 bilhões de informações – da umidade do solo à velocidade dos ventos, da cobertura
vegetal à formação de nuvens. Em termos práticos, isso significa expressivos
ganhos de produtividade em áreas estratégicas como agricultura, defesa civil,
planejamento territorial e estudos de mudança do clima. Num país continental
como o Brasil, marcado por grande diversidade ambiental e crescente exposição a
eventos extremos, um equipamento como o Jaci é uma necessidade básica.
O busílis é que, aqui, o progresso científico
frequentemente convive com políticas públicas frágeis, desarticuladas ou simplesmente
inexistentes. Vale dizer, de pouco adiantará dispor de previsões climáticas
cada vez mais precisas, se Estados e municípios continuarem incapazes de agir
com base nos achados científicos. Boletins e alertas, por si sós, não salvam
vidas.
Os exemplos estão à vista de todos. Nos
últimos anos, ondas de calor mais intensas, chuvas torrenciais e outros eventos
climáticos extremos se sucedem com inquietante regularidade. A tragédia que
devastou o Rio Grande do Sul em maio de 2024, assim como tornados no Paraná e
enchentes recorrentes em grandes cidades, sobretudo na região serrana do Rio de
Janeiro e no litoral de São Paulo, não podem ser tratados como fatalidades
naturais. Em grande medida, são desastres anunciados, agravados por décadas de
ocupação desordenada do solo, impermeabilização urbana, moradias em encostas,
desmatamento e ausência de planejamento.
A ciência pode indicar onde e quando o risco
se materializa. Mas cabe ao poder público, nas três esferas da administração,
decidir como esses dados serão usados para prevenir danos, principalmente à
integridade física dos cidadãos mais diretamente afetados. Isso implica
investir em uma defesa civil estruturada, em planos diretores responsáveis, em
habitação digna fora de áreas de risco, em infraestrutura de drenagem e em
políticas ambientais modernas.
O Jaci é a materialização de um Brasil capaz de produzir conhecimento de ponta. Falta assegurar que esse conhecimento não se perca no labirinto da inépcia administrativa e da miopia política, não raro acometida pela chamada “síndrome do céu azul”. Sem governança, coordenação e responsabilidade, a alta tecnologia corre o risco de servir apenas para prever, com precisão cada vez maior, as tragédias que o Estado insiste em não evitar.
A escalada da crise na Venezuela
Por O Povo (CE)
A opção do governo de Donald Trump ignora
pontos importantes da soberania da Venezuela, independente das dúvidas justificadas
que se tenha hoje quanto à democracia que ali é praticada. O mundo entra numa
fase perigosa do equilíbrio geopolítico global quando instrumentos
multilaterais criados para viabilizá-lo são ignorados pelos países, valendo-se
das forças econômicas ou do poderio militar
É muito grave o que aconteceu nas primeiras
horas do último sábado na Venezuela. Por mais que o quadro no país
sul-americano seja preocupante já há algum tempo, diante de uma instabilidade
política que afeta a vida em geral das pessoas, especialmente na economia,
apresenta-se preocupante o caminho pelo qual optou o governo dos Estados
Unidos, invadindo e lançando um ataque contra várias instalações venezuelanas
para capturar Nicolás Maduro, o presidente constitucionalmente habilitado para
o cargo.
A crise na Venezuela, é preciso dizer,
prolonga-se muito além do que parece suportável para qualquer país. Fruto,
basicamente, do comportamento de um grupo que, liderado hoje por Maduro,
sucessor de Hugo Chávez, decidiu se perpetuar no poder e resiste à convivência
com o que há de mais saudável numa democracia, que é a alternância de poder.
A comunidade internacional, em geral, age de
maneira acertada diante do problema ao priorizar instrumentos diplomáticos e
econômicos para pressionar o governo venezuelano a ajustar seu processo
democrático. É evidente que o problema exige pressa devido ao sofrimento que
tem sido imposto a uma população que hoje enfrenta um quadro de diáspora, com
estimativas de que 7,7 milhões de venezuelanos tenham deixado o país nos
últimos anos.
A opção do governo de Donald Trump ignora
pontos importantes da soberania da Venezuela, independente das dúvidas
justificadas que se tenha hoje quanto à democracia que ali é praticada. O mundo
entra numa fase perigosa do equilíbrio geopolítico global quando instrumentos
multilaterais criados para viabilizá-lo, sendo mais evidente no caso a
Organização das Nações Unidas (ONU), são ignorados pelos países, valendo-se das
forças econômicas ou do poderio militar, para ações multilaterais que não
respeitam fronteiras ou limites.
O quadro justifica plenamente a tensão que
toma de conta do mundo desde quando a notícia passou a circular. Ainda mais
depois que o presidente Trump, ao detalhar a operação e deixar clara a intenção
motivadora objetiva de assumir o controle da área de petróleo venezuelana,
através de empresas dos Estados Unidos, e, numa etapa inicial que previu durar
pelo menos um ano, fazer uma espécie de intervenção no governo de Caracas. Num
contexto em que, na verdade, há razões para colocar em xeque a legalidade da
própria prisão do presidente de um outro país, na maneira como ocorreu.
Um cenário delicado que exige do Brasil um
posicionamento cuidadoso, considerando que se trata de um país vizinho, com o
qual mantemos uma fronteira extensa e não há razão para trazermos a tensão para
dentro do nosso território. As manifestações de até agora, inclusive do
presidente Lula, apresentam esse cuidado e colocam os elementos democráticos e
institucionais entre as preocupações que devem ser consideradas no esforço de
encontrar uma saída para a crise.
Há dias difíceis pela frente e o comportamento dos governantes será fundamental para encontrarmos um meio de acalmar a comunidade internacional, proteger o interesse do Brasil e, no que é fundamental, devolver a tranquilidade ao povo venezuelano, que já sofreu o suficiente pelos efeitos da incapacidade global de fazer o diálogo prevalecer.

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