segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ao atacar ditador da Venezuela, Trump pode entrar em atoleiro

Por Valor Econômico

Embora Maduro tenha sido destituído do poder, ainda é cedo para declarar o fim do regime inaugurado por Hugo Chávez em 1999

Não há dúvidas de que Nicolás Maduro era um líder autoritário e corrupto, cuja violenta repressão provocou o êxodo de cerca de 20% da população venezuelana desde 2014. Porém, ao ordenar o ataque à Venezuela para capturar e sequestrar o ditador e sua esposa, Cilia Flores, o presidente dos EUA, Donald Trump, cometeu um crime de agressão sob o direito internacional — um país não pode atacar outro salvo em legítima defesa contra uma agressão sofrida ou por aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Mesmo sob a lei americana, Trump violou a constituição ao não buscar o aval do Congresso para a ação militar — se os EUA ainda fossem um país que levasse isso a sério, a ação poderia suscitar o impeachment do presidente. E em um drástico afastamento de sua bandeira contrária a intervenções no exterior, Trump declarou que os EUA iriam “governar” a Venezuela até uma “transição segura” de poder e que iriam controlar a produção de petróleo do país — arriscando ficar preso em um atoleiro traiçoeiro, assim como o russo Vladimir Putin está há quase quatro anos na Ucrânia.

Embora Maduro tenha sido destituído do poder, ainda é cedo para declarar o fim do regime inaugurado por Hugo Chávez em 1999. Seus aliados chavistas continuam no poder, com a vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumindo a presidência — reconhecida pelo governo brasileiro ainda no sábado. Também continuam na cúpula o poderoso ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, e o ministro do Interior, Diosdado Cabello, que comandam a força militar do regime. Esse futuro ainda é uma incógnita. Delcy adotou um tom desafiador no sábado, mas, segundo reportagem do New York Times, altos funcionários do governo Trump têm a expectativa de que ela possa ser uma solução temporária, que protegeria investimentos americanos no setor de energia na Venezuela.

Os venezuelanos na diáspora — mais de 8 milhões — podem ter comemorado a queda de Maduro, mas na capital, Caracas, a primeira reação foi estocar comida e combustível em meio à elevada incerteza. Uma cautela que reflete anos de tentativas fracassadas de transições democráticas e um clima de medo e repressão fomentado sob o governo de Maduro.

Até ontem, ainda não estava claro como Trump pretende “governar” a Venezuela, um país de 30 milhões de habitantes e com vastas reservas de petróleo. Não há um plano concreto de presença de tropas ou administradores americanos na Venezuela. Ao escantear a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, chamando-a de “boa moça”, mas que não está pronta para assumir o poder, Trump indicou que pretende controlar Delcy e o restante da cúpula chavista em vez de uma mudança completa de regime. Em entrevista ao New York Post, o presidente confirmou essa abordagem ao dizer que tropas americanas na Venezuela não seriam necessárias, desde que Delcy “faça o que queremos”. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, esclareceu ontem que os EUA vão usar o bloqueio ao petróleo venezuelano para forçar as mudanças desejadas no regime chavista.

Anabolizado pelas imagens de grandes explosões e a captura de Maduro sem nenhuma baixa do lado americano — segundo o New York Times, cerca de 80 militares e civis teriam morrido no ataque americano —, Trump sugeriu disposição de ampliar suas aventuras na América Latina. Ele insinuou que o México — que fornece quase todo o fentanil consumido nos EUA — estaria na mira porque os cartéis comandariam o país, e não a presidente esquerdista, Claudia Sheinbaum. Também alertou Gustavo Petro, da Colômbia — maior produtora de coca do mundo —, para “tomar cuidado”.

Mas essa nova missão de Trump de “tornar a Venezuela grande novamente” e de retomar a dominância dos EUA nas Américas pode ser difícil de engolir para parte de sua base de apoiadores. A congressista Marjorie Taylor Greene, ex-aliada de Trump que rompeu com o presidente após acusá-lo de abandonar sua base política, condenou prontamente as ações na Venezuela, dizendo que muitos no movimento Maga (Make America Great Again) votaram em Trump pensando que estavam acabando com o engajamento dos EUA em guerras estrangeiras. Outro deputado republicano declarou que os EUA deveriam “governar” apenas os EUA.

Até agora, o sistema de freios e contrapesos da democracia americana falhou em conter as escancaradas violações de Trump, com uma Suprema Corte lotada de indicados pelo presidente e um Congresso sob controle de um Partido Republicano que poderia se chamar Partido Trump. Assim como no caso das tarifas, é a dura realidade que pode impor alguma restrição ao presidente. A insatisfação dos americanos com a crise no custo de vida fez Trump rever muitos dos aumentos tarifários, incluindo a sobretaxa de 40% às importações de produtos brasileiros. Trump encerrou 2025 com os piores índices de sua Presidência, com 56% de desaprovação, segundo pesquisa Economist/YouGov. Para 51% dos entrevistados a economia está piorando, o que pode custar o controle republicano do Congresso nas eleições de novembro. A pressão política e econômica pode ter levado Trump a buscar sua própria guerra externa para desviar da baixa aprovação interna. Mas as intervenções americanas no Iraque, Afeganistão e Líbia não são um bom presságio para o líder americano.

Brasil evolui com adoção de guarda compartilhada

Por O Globo

Divisão equânime depois da separação supera responsabilidade exclusiva da mãe pelos filhos

O avanço da guarda compartilhada dos filhos de pais separados é reflexo de uma transformação da sociedade brasileira na direção da modernidade e da igualdade de gênero. Pela primeira vez, segundo o IBGE, mais casais escolhem dividir a responsabilidade de cuidar dos filhos depois da separação do que deixá-la apenas a cargo da mãe. No período de dez anos entre 2014 e 2024, a proporção de casos de guarda dividida entre pai e mãe passou de 7,5% das separações judiciais para 44,5%, enquanto as situações com responsabilidade exclusivamente materna retrocederam de 85% das separações a 42,6%. A realidade mostra que hoje a guarda compartilhada se tornou o modelo predominante e, pela tendência, só deverá aumentar.

Fundamental para a transformação foi a Lei da Guarda Compartilhada, aprovada pelo Congresso em 2014, diz Klívia Brayner, gerente de pesquisa do IBGE. O Parlamento alterou o Código Civil para estabelecer como prioridade a divisão de responsabilidades na guarda dos filhos. “A guarda compartilhada passou a ser a regra e a unilateral, a exceção. Hoje, só é possível afastar esse modelo quando há abandono, risco concreto à criança ou situações excepcionais”, afirma Vanessa Paiva, advogada que atua em varas de família.

Ao privilegiar separações com divisão equânime na guarda dos filhos, a lei respondeu a uma transformação cultural pela qual a sociedade passava. O movimento de divisão de responsabilidades foi anterior à mudança legislativa. “Os pais passaram a assumir papel ativo na rotina dos filhos. Isso tornou a guarda compartilhada o modelo mais natural e mais desejável, porque ele contribui para fortalecer o vínculo com ambos os genitores e diminui a desigualdade parental”, afirma a advogada de Direito de Família Adriana Cabral. A guarda compartilhada, segundo ela, obriga o pai a assumir responsabilidades e a deixar de tratar os filhos apenas como “visitas”.

A evolução também é resultado de uma luta dos movimentos feministas e, para as mulheres, representa uma vitória. Acordos na separação evitam brigas e dissabores futuros, em benefício dos próprios filhos. Karolaine Carvalho, moradora de São Gonçalo (RJ), relatou à reportagem do GLOBO que ela e o ex-marido dividem tudo, horários, passeios. “Quando um dos dois precisa levar as crianças a algum lugar, estipulamos uma data. Nos aniversários, sempre procuramos fazer uma festinha em que esteja todo mundo junto”, diz. Há, ainda, a questão financeira. Karolaine lembra que cogitou pedir a guarda total dos filhos, mas fez as contas “na ponta do lápis” e constatou que a pensão não cobriria todos os gastos.

As estatísticas do IBGE mostram que a guarda compartilhada cresceu em todos os estados, destacando Amazonas, Mato Grosso e Distrito Federal, onde 60% dos casais em processo de separação têm optado pela divisão equânime de responsabilidades. O maior crescimento no período de dez anos se deu em Sergipe (alta de quase 990%), Espírito Santo (723%) e Minas Gerais (705,8%). O modelo se espalha por todo o país. Os filhos agradecem.

Rio tem potencial para criar 676 mil novos empregos em dez anos

Por O Globo

Mas estado precisa resolver questões como segurança e infraestrutura para favorecer desenvolvimento, diz estudo

Governos do Rio, parlamentares e futuros candidatos nas eleições de 2026 deveriam se debruçar sobre o estudo produzido pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) apontando vocações e potencialidades do estado e sugerindo novas fronteiras para impulsionar a economia fluminense nos próximos dez anos. Entre as fronteiras estão transição energética, economia circular e de baixo carbono; turismo, cultura e economia criativa; complexo de saúde, biotecnologia, química e farmacêutica; complexo aeroespacial, tecnologia, IA e data centers. Segundo o estudo, essas estratégias poderiam levar as indústrias do estado a aumentar sua participação no PIB industrial nacional de 17% para 23% e à criação de 676 mil novos empregos em dez anos.

O estudo divide as vocações em dois grandes grupos: o setor estruturante, que reúne áreas de petróleo e gás, infraestrutura, metal-mecânica e construção, com possibilidade de gerar 438 mil empregos. E o de consumo, que abrange alimentos e bebidas; audiovisual; tecnologias de informação e comunicação; produtos químicos e farmacêuticos; moda, têxtil e confecções; papel e gráfico, com potencial para gerar mais 238 mil postos de trabalho. Com estímulos a essas vocações, diz a Firjan, o PIB industrial fluminense poderia crescer R$ 489 bilhões em uma década, ante R$ 279 bilhões de hoje.

Ao mesmo tempo, o estudo elenca problemas estruturais que podem dificultar o crescimento. O mais óbvio é a segurança pública. O levantamento mostra que duas em três indústrias dizem que suas decisões de investimento sofrem impacto da violência. É inegável que esse é um problema que o estado precisa resolver. Grandes áreas dominadas por organizações criminosas, roubos de carga, concorrência predatória de produtos pirateados e contrabandeados conspiram contra qualquer projeto de desenvolvimento.

A segurança não é o único entrave. O estudo cita também a necessidade de energia estável e previsível — em 2024, as perdas energéticas custaram R$ 1,7 bilhão. A malha viária fragmentada e a baixa integração entre os portos são outros obstáculos. Para solucionar esses problemas, os empresários reivindicam a construção de uma logística integrada, com aeroportos, portos e ferrovias funcionando de forma articulada. Defendem ainda previsibilidade regulatória e competitividade tributária para viabilizar investimentos de longo prazo. “O poder público tem papel importante”, diz Jonathas Goulart, gerente de Estudos Econômicos da Firjan.

O estudo é um guia robusto para orientar o crescimento do Rio na próxima década com base em suas vocações e oportunidades, mas é também um recado realista de que o estado precisa resolver problemas crônicos se quiser alçar voos mais ambiciosos. Nenhum incentivo faz sentido se não houver um bom ambiente de negócios para quem escolheu o Rio para produzir. Governos, legisladores e candidatos têm um material consistente para elaborar seus planos e estratégias de governo. Se vierem a frustrar a população, não será por falta de subsídios.

Crise orçamentária está à vista de todos

Por Folha de S. Paulo

Análises reforçam que política de gastos de Lula manterá dívida alta e drenará verbas para investimentos

Neste 2026, os programas dirão se os presidenciáveis vão ser responsáveis e contar ao eleitorado que o governo precisa de refundação

Mantida a política de gastos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a dívida pública brasileira deve crescer sem limite ao longo da próxima década, nas projeções da Instituição Fiscal Independente (IFI), entidade autônoma ligada ao Senado, responsável pela análise das contas do Tesouro.

O indicador, que atingiu já alarmantes 79% do Produto Interno Bruto em novembro, chegaria a 97,1% do PIB em 2030, ao final do próximo mandato presidencial.

É fácil perceber o motivo. No cenário mais otimista da IFI, apresentado no último relatório de 2025, a União terá déficits, mesmo sem contar despesas com juros, até 2033. A fim de estabilizar de pronto a relação entre dívida e PIB, seria necessário um superávit de 2,3% do PIB, considerando crescimento de 2,2% da economia e queda dos juros. Hoje há déficit de 0,3% do produto.

A dívida pública era de 71,7% quando começou o terceiro mandato de Lula. Antes de criar o tal arcabouço fiscal, o presidente da República promoveu grande aumento de despesa. Retomou os reajustes do salário mínimo acima da inflação, o que multiplica pagamentos previdenciários e assistenciais, e restabeleceu a vinculação dos gastos em saúde e educação à alta da receita.

É um sistema marcado para explodir. Desde o final de 2022, o aumento real da despesa foi de R$ 316,5 bilhões para R$ 2,4 trilhões anuais. O incremento se deveu a mais gastos incomprimíveis com Previdência Social, saúde, educação, BPC e Bolsa Família.

A despesa obrigatória, inflada ainda por emendas parlamentares, limita cada vez mais o dispêndio discricionário, que era de 13,8% do total em 2014 e está perto de 8% hoje, segundo dados da mais recente Carta de Conjuntura do Ipea, instituto federal de pesquisa econômica.

Além de dispor de cada vez menos dinheiro para investir em infraestrutura ou pesquisa, o governo pode ficar sem recursos até para manter a máquina pública.

A prodigalidade ineficiente também estimulou além da conta a atividade econômica, pressionando a inflação. Uma dívida ilimitada leva descrédito ao governo e mantém nas alturas as taxas de juros. Déficits e juros se realimentam, em círculo vicioso, e degradam a atividade econômica —investimento, inovação, criação de empresas, previsibilidade.

Assim o país terminou 2025, com diagnóstico de mal grave, que não será remediado sem revisão profunda das regras atuais.

Não se trata de teorias da conspiração ou de discursos oposicionistas. As análises constam de relatórios de entidades ligadas ao setor público e se amparam em dados oficiais. As próprias áreas técnicas dos ministérios da Fazenda e do Planejamento já fizeram diagnósticos semelhantes.

Neste 2026, os programas dirão se os presidenciáveis vão ignorar o risco de desastre, se vão propor algum paliativo medíocre ou se terão a responsabilidade de contar ao eleitorado que o governo precisa de refundação.

Protestos expõem fragilidade da teocracia no Irã

Por Folha de S. Paulo

Manifestações contra situação econômica retomam movimento de insatisfação em momento instável do regime

País fechou o ano com uma inflação de 42,5%; Trump, que já atacou a Venezuela, sugere intervenção militar em favor dos descontentes

Na última sexta-feira (2), véspera do ataque americano que capturou o ditador Nicolás Maduro em Caracas, o presidente Donald Trump sugeriu que poderia intervir mais uma vez no Irã, país que bombardeou em 2025.

O motivo, desta vez, seria o apoio à onda de protestos contra a teocracia instalada em 1979. O republicano disse que agiria caso a repressão com mortes continuasse. Se parecia mera bravata, os fatos do sábado (3) e a inconstância usual do presidente podem insinuar algo mais.

Desde a semana passada, milhares de manifestantes têm ido às ruas iranianas, uma rotina na última década, sendo atacados pela polícia. A razão mais imediata é a anomia econômica vigente. Sob efeito de sanções internacionais, o país viu sua moeda derreter para metade do valorem relação ao dólar em 2025.

Os preços dispararam, e o ano fechou com inflação de 42,5%. Moradores de diversas cidades resolveram se queixar, e a reação oficial, inicialmente de diálogo, descambou para a repressão, com diversas mortes relatadas.

É a maior agitação popular em três anos. O regime vem perdendo o controle social progressivamente, resultado do fastio com as políticas restritivas nos costumes, motivo da onda anterior de protestos, e com a gestão do país.

Ao endurecer contra os manifestantes, Teerã passa recibo de sua própria fragilidade. Ela foi acentuada após o desmoronamento de duas décadas de política externa, baseada em prepostos regionais para enfrentar os interesses americanos e israelenses no Oriente Médio.

O ataque de um deles, o Hamas palestino, ao Estado judeu em 2023 disparou uma reação brutal, que degradou toda a rede iraniana na região. Os aiatolás também foram humilhados com diversos assassinatos em seu solo, inclusive o do líder do Hamas, executado na capital iraniana em 2024. Mesmo a morte do presidente linha-dura Ebrahim Raisi, num acidente de helicóptero no mesmo ano, é envolta em mistério.

Após troca de fogo com Israel em duas ocasiões, os rivais se enfrentaram em uma guerra de 12 dias, encerrada após intervenção dos Estados Unidos, que bombardearam instalações nucleares do país.

Tudo isso reduziu a habilidade do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, de manter o controle. Aos 86 anos e com a saúde debilitada, ele tinha em Raisi um sucessor, e agora o cenário é incerto.

Os casos venezuelano e iraniano são bem díspares, mas a disposição renovada de Trump de contradizer o não intervencionismo de sua base soma imprevisibilidade à situação.

O melancólico fim da gestão Haddad

Por O Estado de S. Paulo

Ministro concebeu uma âncora fiscal que só existia como propaganda e passou os últimos três anos reafirmando um compromisso de equilíbrio das contas que Lula desmoralizou diariamente

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que deixará o cargo em fevereiro para colaborar com a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A rigor, o ministro Haddad colabora com a campanha de Lula desde o primeiro dia em que assumiu o cargo, pois desdobrou-se para conseguir maneiras de aumentar a arrecadação e, assim, satisfazer a ânsia perdulária do chefe para aumentar seu capital eleitoral.

Haddad não teve a capacidade de ser, no terceiro mandato presidencial de Lula, o que Antonio Palocci foi no primeiro. É certo que Haddad e Palocci são igualmente petistas, mas Palocci, ainda na campanha que Lula venceria, conseguiu convencer o chefe a firmar o compromisso de que preservaria o superávit fiscal – que, junto com o câmbio flutuante e as metas de inflação, compunha o tripé macroeconômico herdado do governo de Fernando Henrique Cardoso. Pior: sua equipe econômica cometeu a heresia de propor, em 2005, que o governo perseguisse o déficit nominal zero, isto é, que o gasto do governo, incluindo os juros, deixasse de superar a arrecadação. Era uma meta ousada, que melhoraria drasticamente o conceito do Brasil no mercado e, com isso, permitiria a redução acentuada dos juros. Mas a ideia não foi adiante, porque era demais para os padrões petistas. Na época, em entrevista ao Estadão, a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, classificou o plano de “rudimentar”.

Haddad, que não chega a ser uma Dilma, mas jamais será um Palocci, não fez nada remotamente parecido com isso. Ao contrário: ajudou a conceber uma âncora fiscal que só existia para efeito de propaganda e passou os últimos três anos tentando dourar a pílula do déficit, reafirmando um compromisso de equilíbrio das contas públicas que Lula e os números tratavam de desmoralizar diariamente. Se o Lula do primeiro mandato ainda se preocupava com passar para o mercado e os investidores a imagem de que trataria as contas públicas com seriedade, o Lula do terceiro mandato pisou no acelerador dos gastos sem qualquer pudor. Recorde-se que, no mês passado, Lula saiu-se com esta: “Não tem macroeconomia, não tem câmbio: se tiver dinheiro na mão do povo, está resolvido o nosso problema”.

Sob certos aspectos, portanto, Haddad encerrará sua gestão como o ministro da Fazenda possível dentro de uma gestão petista com essas características. Reconheça-se seu esforço pela aprovação da reforma tributária sobre o consumo, idealizada por seu ex-secretário Bernard Appy e parada no Congresso havia quase 40 anos. Com a proposta, o País plantou a semente para o fim de distorções que contêm a produtividade e o crescimento da economia.

Ao mesmo tempo, porém, foi incapaz de defender a segunda parte da reforma, que alteraria o Imposto de Renda (IR), sucumbindo aos imperativos populistas de Lula e protagonizando o constrangedor pronunciamento em rede de rádio e TV no qual foi obrigado a anunciar o plano eleitoreiro do presidente de isentar de IR quem ganha até R$ 5 mil. Foi talvez o ponto mais baixo de sua trajetória como ministro da Fazenda.

Por fim, um de seus principais objetivos não foi alcançado: a recuperação do grau de investimento conquistado em 2008 e perdido em 2015, dias após o governo Dilma Rousseff enviar ao Congresso uma proposta de Orçamento prevendo um inédito déficit primário e ter contratado uma inflação de dois dígitos e uma recessão para aquele ano e o seguinte.

A despeito da boa vontade das agências de classificação de risco, não havia como ignorar o fato de que a trajetória da dívida pública na proporção do PIB continua longe da prometida estabilidade. Ao fim do terceiro mandato de Lula, o endividamento terá crescido cerca de 10 pontos porcentuais na proporção do PIB.

Nesse contexto, dizer que a arquitetura do arcabouço pode ser mantida e que basta discutir seus parâmetros em 2027, como fez Haddad, é insultar a inteligência alheia. Do mesmo modo, é ofensivo dizer que Lula herdou um “inferno no campo fiscal” dos governos que o antecederam. Ao fazê-lo, Haddad mostra que nunca deixará de ser um petista.

O básico que nunca chega

Por O Estado de S. Paulo

Menos de 3% dos municípios estão perto da universalização do saneamento, fruto da negligência histórica que atravessa governos e ideologias. Um atraso que o País insiste em tratar como normal

O Brasil aprendeu a conviver com o inaceitável. Num país que conseguiu universalizar a energia elétrica, expandir rapidamente as telecomunicações e construir um dos maiores sistemas bancários digitais do mundo, milhões de pessoas ainda vivem sem acesso regular à água tratada e à coleta e ao tratamento de esgoto. Não se trata de um desafio recente nem de um problema técnico insolúvel. É, antes de tudo, a expressão mais crua de uma negligência histórica que atravessa governos, ideologias e ciclos econômicos sem jamais se tornar prioridade efetiva do Estado.

Os dados mais recentes ajudam a dimensionar a gravidade do atraso. Segundo a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), menos de 3% dos municípios brasileiros estão próximos de alcançar a universalização do saneamento básico nos termos definidos pela legislação vigente. No universo analisado pelo Ranking do Saneamento da entidade, apenas algumas dezenas de cidades apresentam indicadores compatíveis com as metas de acesso a água, coleta e tratamento de esgoto. A imensa maioria permanece em estágios iniciais ou intermediários, muito distante do patamar mínimo esperado para 2033.

O recorte regional torna o quadro ainda mais constrangedor. Praticamente todos os municípios mais bem posicionados concentram-se nas Regiões Sudeste e Sul. A Região Norte não tem uma única cidade entre aquelas consideradas próximas da universalização. O saneamento, que deveria ser uma política de redução de desigualdades, acabou se tornando mais um fator de aprofundamento das assimetrias regionais brasileiras.

Esses números não emergem do acaso. O Brasil ocupa posições modestas em rankings internacionais de acesso à água potável e, sobretudo, de coleta e tratamento de esgoto. Em muitos municípios, mesmo quando há coleta, o esgoto não é tratado, mas despejado diretamente em rios, córregos e no solo. O resultado é um círculo vicioso de degradação ambiental, doenças evitáveis e desperdício de recursos públicos, já que o custo do saneamento negligenciado reaparece, multiplicado, no sistema de saúde.

A aprovação do novo Marco Legal do Saneamento, em 2020, reconheceu explicitamente esse fracasso. Ao impor metas objetivas, exigir contratos regulares e ampliar a segurança jurídica, buscou-se romper com décadas de improvisação e aparelhamento político. Cinco anos depois, porém, o ritmo de avanço permanece insuficiente. Os investimentos cresceram, mas seguem aquém do necessário, e a universalização continua ameaçada de se tornar promessa adiada.

Parte da explicação está na própria lógica que rege a política pública no País. O saneamento é uma agenda estrutural por excelência: exige obras caras, coordenação federativa, capacidade técnica e visão de longo prazo. Não produz resultados imediatos, não rende inaugurações vistosas nem dividendos eleitorais rápidos. Em contrapartida, cobra continuidade administrativa, disciplina regulatória e cobrança por resultados.

Some-se a isso a fragilidade de muitos municípios, que carecem de capacidade técnica e financeira para estruturar projetos, fiscalizar contratos e planejar a expansão dos serviços. O resultado é a tolerância com contratos precários, prorrogações indefinidas e discursos que relativizam prazos e metas, como se o acesso à água limpa e ao esgoto pudesse ser tratado como aspiração, e não como obrigação legal.

O custo dessa leniência é alto e amplamente conhecido. A falta de saneamento impacta diretamente a saúde pública, aumenta internações por doenças evitáveis, reduz a produtividade do trabalho e compromete o desenvolvimento urbano e ambiental. Segundo estimativas recorrentes do setor, cada real não investido em saneamento gera múltiplos reais de despesa futura para o poder público. Ainda assim, o País insiste em avançar lentamente, como se pudesse dar-se ao luxo de adiar indefinidamente o básico.

Garantir água tratada e esgoto é uma obrigação legal e moral do Estado brasileiro. Ao tolerar o avanço a passos lentos no saneamento, o País faz uma escolha consciente: aceita que milhões de brasileiros sigam expostos a doenças evitáveis, degradação ambiental e condições indignas de vida. Nenhuma nação que aspire ao desenvolvimento pode considerar isso aceitável.

Nova tecnologia, velhos riscos

Por O Estado de S. Paulo

Jaci põe o País na vanguarda da previsão climática, mas tecnologia sozinha não salva vidas

O Brasil dá um passo importante ao incorporar o supercomputador Jaci ao sistema nacional de monitoramento meteorológico e climático. Instalado na unidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo, o novo equipamento eleva em 24 vezes a capacidade de processamento de dados em relação ao Tupã, que será substituído após anos de serviço. Trata-se de um salto tecnológico que posiciona o País entre os mais bem aparelhados do mundo para produzir previsões mais rápidas, detalhadas e confiáveis.

Com o Jaci em operação, prevista para o primeiro trimestre de 2026, o País passará a operar plenamente o novo modelo nacional de previsão climática e oceânica (Monan), capaz de integrar cerca de 40 bilhões de informações – da umidade do solo à velocidade dos ventos, da cobertura vegetal à formação de nuvens. Em termos práticos, isso significa expressivos ganhos de produtividade em áreas estratégicas como agricultura, defesa civil, planejamento territorial e estudos de mudança do clima. Num país continental como o Brasil, marcado por grande diversidade ambiental e crescente exposição a eventos extremos, um equipamento como o Jaci é uma necessidade básica.

O busílis é que, aqui, o progresso científico frequentemente convive com políticas públicas frágeis, desarticuladas ou simplesmente inexistentes. Vale dizer, de pouco adiantará dispor de previsões climáticas cada vez mais precisas, se Estados e municípios continuarem incapazes de agir com base nos achados científicos. Boletins e alertas, por si sós, não salvam vidas.

Os exemplos estão à vista de todos. Nos últimos anos, ondas de calor mais intensas, chuvas torrenciais e outros eventos climáticos extremos se sucedem com inquietante regularidade. A tragédia que devastou o Rio Grande do Sul em maio de 2024, assim como tornados no Paraná e enchentes recorrentes em grandes cidades, sobretudo na região serrana do Rio de Janeiro e no litoral de São Paulo, não podem ser tratados como fatalidades naturais. Em grande medida, são desastres anunciados, agravados por décadas de ocupação desordenada do solo, impermeabilização urbana, moradias em encostas, desmatamento e ausência de planejamento.

A ciência pode indicar onde e quando o risco se materializa. Mas cabe ao poder público, nas três esferas da administração, decidir como esses dados serão usados para prevenir danos, principalmente à integridade física dos cidadãos mais diretamente afetados. Isso implica investir em uma defesa civil estruturada, em planos diretores responsáveis, em habitação digna fora de áreas de risco, em infraestrutura de drenagem e em políticas ambientais modernas.

O Jaci é a materialização de um Brasil capaz de produzir conhecimento de ponta. Falta assegurar que esse conhecimento não se perca no labirinto da inépcia administrativa e da miopia política, não raro acometida pela chamada “síndrome do céu azul”. Sem governança, coordenação e responsabilidade, a alta tecnologia corre o risco de servir apenas para prever, com precisão cada vez maior, as tragédias que o Estado insiste em não evitar.

A escalada da crise na Venezuela

Por O Povo (CE)

A opção do governo de Donald Trump ignora pontos importantes da soberania da Venezuela, independente das dúvidas justificadas que se tenha hoje quanto à democracia que ali é praticada. O mundo entra numa fase perigosa do equilíbrio geopolítico global quando instrumentos multilaterais criados para viabilizá-lo são ignorados pelos países, valendo-se das forças econômicas ou do poderio militar

É muito grave o que aconteceu nas primeiras horas do último sábado na Venezuela. Por mais que o quadro no país sul-americano seja preocupante já há algum tempo, diante de uma instabilidade política que afeta a vida em geral das pessoas, especialmente na economia, apresenta-se preocupante o caminho pelo qual optou o governo dos Estados Unidos, invadindo e lançando um ataque contra várias instalações venezuelanas para capturar Nicolás Maduro, o presidente constitucionalmente habilitado para o cargo.

A crise na Venezuela, é preciso dizer, prolonga-se muito além do que parece suportável para qualquer país. Fruto, basicamente, do comportamento de um grupo que, liderado hoje por Maduro, sucessor de Hugo Chávez, decidiu se perpetuar no poder e resiste à convivência com o que há de mais saudável numa democracia, que é a alternância de poder.

A comunidade internacional, em geral, age de maneira acertada diante do problema ao priorizar instrumentos diplomáticos e econômicos para pressionar o governo venezuelano a ajustar seu processo democrático. É evidente que o problema exige pressa devido ao sofrimento que tem sido imposto a uma população que hoje enfrenta um quadro de diáspora, com estimativas de que 7,7 milhões de venezuelanos tenham deixado o país nos últimos anos.

A opção do governo de Donald Trump ignora pontos importantes da soberania da Venezuela, independente das dúvidas justificadas que se tenha hoje quanto à democracia que ali é praticada. O mundo entra numa fase perigosa do equilíbrio geopolítico global quando instrumentos multilaterais criados para viabilizá-lo, sendo mais evidente no caso a Organização das Nações Unidas (ONU), são ignorados pelos países, valendo-se das forças econômicas ou do poderio militar, para ações multilaterais que não respeitam fronteiras ou limites.

O quadro justifica plenamente a tensão que toma de conta do mundo desde quando a notícia passou a circular. Ainda mais depois que o presidente Trump, ao detalhar a operação e deixar clara a intenção motivadora objetiva de assumir o controle da área de petróleo venezuelana, através de empresas dos Estados Unidos, e, numa etapa inicial que previu durar pelo menos um ano, fazer uma espécie de intervenção no governo de Caracas. Num contexto em que, na verdade, há razões para colocar em xeque a legalidade da própria prisão do presidente de um outro país, na maneira como ocorreu.

Um cenário delicado que exige do Brasil um posicionamento cuidadoso, considerando que se trata de um país vizinho, com o qual mantemos uma fronteira extensa e não há razão para trazermos a tensão para dentro do nosso território. As manifestações de até agora, inclusive do presidente Lula, apresentam esse cuidado e colocam os elementos democráticos e institucionais entre as preocupações que devem ser consideradas no esforço de encontrar uma saída para a crise.

Há dias difíceis pela frente e o comportamento dos governantes será fundamental para encontrarmos um meio de acalmar a comunidade internacional, proteger o interesse do Brasil e, no que é fundamental, devolver a tranquilidade ao povo venezuelano, que já sofreu o suficiente pelos efeitos da incapacidade global de fazer o diálogo prevalecer.  


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