Valor Econômico
O ataque americano reafirma um padrão de
comportamento de Trump de ignorar leis, acordos e normas internacionais, o que
em outros presidentes era uma exceção
O principal argumento em favor da captura de Nicolás Maduro é que, ainda que os EUA tenham violado a carta da ONU com a agressão militar, tanto a Venezuela como a região estarão melhor com uma mudança de regime e uma eventual redemocratização do país. Os fins justificariam os meios.
Seria algo semelhante ao que ocorreu no Panamá em 1989, quando uma invasão dos EUA derrubou a ditadura de Manuel Noriega. O Panamá desde então tem sido uma democracia e um dos países que mais crescem no continente.
O regime de Maduro transformou a Venezuela
numa ditadura, fraudou eleições, destruiu a economia do país, levou milhões de
pessoas a emigrarem e é responsável pela tortura e pelo assassinato de
opositores. Ele merece ser punido pelos seus crimes.
Então a sua captura é boa para a Venezuela e
para a região? Pode vir a ser, mas a questão é complexa e há riscos
significativos. Sobretudo, porém, o ataque americano reafirma um padrão de
comportamento de Trump de ignorar leis, acordos e normas internacionais. O que
em outros presidentes era uma exceção, com Trump passou a ser a regra. Isso é
ruim para todo o mundo.
Recuperar a Venezuela dos 27 anos de desastre
econômico do chavismo será um desafio hercúleo. Não está claro ainda se os EUA
estão dispostos ou preparados para mobilizar o pessoal e os recursos
necessários para isso.
Também não está claro se os EUA controlam
e/ou colaboram com o novo governo da Venezuela, liderado pela vice-presidente
de Maduro, Delcy Rodríguez.
Trump disse que os EUA governarão a Venezuela
por um período de transição. Mas como? Por quanto tempo? Quem assumirá em
seguida? Ele não explicou. Nem garantiu que o opositor Edmundo González, que
aparentemente venceu as fraudadas eleições de 2024, assumirá. No caso do
Panamá, o vencedor da eleição de 1989, anulada por Noriega, foi logo empossado.
O presidente americano afirmou que os EUA
controlarão o petróleo, principal recurso venezuelano. Após a invasão do
Panamá, não houve uma captura de recursos locais. Pelo contrário. Washington
respeitou o acordo de devolução do Canal do Panamá (algo que Trump quer agora
desfazer) e retirou tropas e bases militares do país. Um governo democrático na
Venezuela deveria poder gerir seus recursos. Não se deve esquecer que, na
gênese do chavismo, está a distribuição desigual da receita do petróleo ao
longo da história venezuelana.
Assim, sobre a evolução política e econômica
da Venezuela, há ainda muitas incertezas.
A operação militar reitera, porém, a
disposição de Trump de impor a lei do mais forte. É o que o seu governo fez nos
ataques ilegais a barcos suspeitos de narcotráfico, no tarifaço que violou
regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e acordos com aliados, na
pressão pela eleição de um direitista em Honduras (num processo eleitoral sob suspeita),
na reiterada reivindicação sobre a Groenlândia (apesar dos protestos da
Dinamarca), na sinalização de que Washington recuperará a hegemonia e
autoridade no continente americano.
O ataque à Venezuela legitima, ao menos no
curto prazo, a invasão da Ucrânia pela Rússia. E abre o caminho para a China
invadir Taiwan. O argumento mais forte contra uma invasão chinesa sempre foi
que uma eventual reunificação com Taiwan não deveria ser feita pela força.
Como, então, condenar Pequim se os EUA usam a força na Venezuela?
Trump não quer questionamentos, limitações ou
freios de organizações internacionais à sua liberdade de ação. Por isso
abandonou o acordo climático de Paris (assinado pelos EUA), a OMS, a Unesco e
mantém a OMC paralisada. Quer atuar livremente em benefício político próprio e
em benefício econômico das empresas americanos e dos EUA.
Sua política econômica mercantilista consiste
em drenar riqueza de outros países e regiões para enriquecer os EUA, já um dos
países mais ricos do mundo. Isso se dá por meio da imposição de tarifas, da
negociação (sob coação) de investimentos nos EUA e de privilégios para empresas
americanas no exterior (como parece que acontecerá com o petróleo na
Venezuela).
O mundo sempre foi dominado pelos mais
fortes. Mas, desde a 2ª Guerra, houve uma tentativa importante de regular,
ainda que de modo imperfeito, as relações internacionais. Trump quer fazer a
história recuar. Um mundo sem lei é essencialmente mais inseguro e menos
próspero.

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