Financial Time / Valor Econômico
Em termos de operações militares, o sequestro de Nicolás Maduro pelos EUA foi impecável. Mas a história de Donald Trump com a Venezuela está apenas começando. Tendo deposto seu líder, Trump agora assume com entusiasmo as consequências. “Vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”, disse ele algumas horas depois. Em outras palavras, Trump se converteu à mudança de regime. O que acontecer na Venezuela daqui para frente será de sua responsabilidade.
Trump vinha anunciando a captura de Maduro há
meses. O choque reside em sua disposição de “governar” um país soberano de
quase 30 milhões de pessoas. A última vez que os EUA tentaram isso foi após a
invasão do Iraque em 2003. E isso se transformou em um atoleiro semelhante ao
do Vietnã. Desde então, Trump tem se aproveitado bastante da promessa de nunca
repetir as guerras intermináveis de George W. Bush no Iraque, Afeganistão e
outros lugares. Até agora, ele manteve essa linha, que é popular entre a
maioria dos americanos, não apenas entre sua base Maga [acrônimo de Make
America Great Again, lema da facção mais radical entre os partidários de
Trump].
Mas, à medida que o segundo mandato de Trump
avança, ele está adquirindo um gosto por operações de estilo mais imperial. O
ataque aéreo de sábado de madrugada em Caracas ocorreu apenas uma semana depois
de ataques dos EUA no noroeste da Nigéria, em uma operação natalina que Trump
disse ser para proteger os cristãos do país. Também ocorreu após o bombardeio
americano, há meses, das instalações nucleares subterrâneas do Irã. Trump
ameaçou novamente esta semana atacar o Irã para resgatar pessoas que
protestavam contra o regime. “Estamos prontos para atacar e prontos para ir”,
publicou Trump às 2h58 da manhã de sexta-feira.
Mas a mudança de regime é uma mudança de
rumo. Assim como no caso do Iraque, os motivos de Trump para assumir o controle
da Venezuela são múltiplos e mutáveis. Sobre o Iraque, Bush falou ora sobre a
apreensão das armas de destruição em massa de Saddam Hussein, ora sobre suas
supostas ligações com a Al-Qaeda, ora sobre a disseminação da democracia no
Oriente Médio e ora sobre o eixo do mal. Sobre a Venezuela, Trump falou sobre
uma guerra contra o narcoterrorismo, o combate à violência de gangues nas ruas
americanas e a recuperação do que ele descreve como território e petróleo
americanos. A Venezuela nacionalizou suas operações petrolíferas no exterior no
início deste século. A essas causas pode-se acrescentar a animosidade de seu secretário
de Estado, Marco Rubio, em relação ao regime comunista de Cuba. Cuba obtém
grande parte de seu petróleo da Venezuela. Com mais de 300 bilhões de barris, a
Venezuela possui as maiores reservas do mundo. Para o regime cubano, este
momento pode ser existencial.
Duas perguntas se destacam. A primeira é se o
apetite de Trump por aventureirismo militar continuará a se espalhar. Ele
anunciou planos para o Canadá, Panamá, Groenlândia e a Faixa de Gaza. No
sábado, ele insinuou que o México também estava em sua mira. “Ela é uma boa
mulher”, disse Trump sobre a presidente do México, Claudia Sheinbaum. “Mas os
cartéis estão comandando o México. Ela não está comandando o México... Algo
terá de ser feito com o México.” O México, e não a Venezuela, fornece quase todo
o fentanil dos EUA. No sábado, Trump também alertou Gustavo Petro, presidente
de esquerda da Colômbia, para “tomar cuidado”. A Colômbia, e não a Venezuela,
fornece a maior parte da cocaína dos EUA.
A segunda questão é como Trump planeja
governar a Venezuela. Se ele estiver falando sério sobre governar o país, a
presença militar americana em solo venezuelano será essencial. Mesmo que Trump
pense que pode governar o país remotamente, a realidade se imporá. O país está
repleto de armas, milícias e apoiadores do “chavismo”, a vertente do socialismo
venezuelano violento que leva o nome do antecessor de Maduro. Se a Rússia, a
China ou outro adversário quiserem atolar Trump em seu próprio lamaçal, terão
uma chance.
Em sua entrevista coletiva em Mar-a-Lago, no
sábado, Trump não demonstrou nenhuma preocupação com a escala e a complexidade
da tarefa que se impôs. A prioridade, insistiu ele, seria restaurar a
infraestrutura da Venezuela para que o país pudesse começar a bombear petróleo
em todo o seu potencial. O aumento do fluxo de receitas do petróleo seria usado
para compensar as empresas petrolíferas americanas e financiar a reconstrução
da Venezuela. Trump não especificou como as empresas petrolíferas americanas
poderiam realizar isso sem forte proteção militar dos EUA.
De qualquer forma, os líderes do Hemisfério
Ocidental e de outros lugares dormirão menos tranquilos daqui para frente.
Trump está se sentindo cada vez mais à vontade com o poderio bélico
impressionante que tem à sua disposição. As consequências de seu desrespeito
tanto pelo direito internacional quanto pela Constituição dos EUA levarão tempo
para se manifestar. O mesmo ocorrerá com a natureza precisa de como ele planeja
governar a Venezuela.
Seja qual for o resultado, a nova ordem
mundial de Trump agora é uma realidade. Ela não possui regras claras, não
respeita aliados, celebra a selva e quase sempre gira em torno de dinheiro. Há
muita riqueza sob o solo venezuelano. Trump agora está empenhado em extraí-la.

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