O Globo
Governo Trump leva à queda do dólar e venda de T-Bonds. Economista explica os movimentos contraditórios da economia
A economia tem dado sinais de um mundo em transição. Os indicadores apontam para direções diferentes. A administração Trump eleva a incerteza econômica, uma das razões da queda do dólar. A bolsa americana está em alta, e o ouro também sobe. A bolsa em alta pode ser confiança nas empresas, mas o ouro é um ativo típico de períodos de crise. Há sinais de que diversos países, como a China, têm diversificado suas reservas, reduzindo a quantidade de dólar. Mas o volume de investimentos em Treasury Bonds é tão alto que os países que quiserem abandonar esses títulos não têm para onde levar tanto dinheiro.
Os fatos acima foram arrolados pelo
economista Márcio Garcia, professor da PUC do Rio, numa conversa sobre economia
internacional. Os sinais são contraditórios. Não se pode dizer que um movimento
é bom, mesmo quando o efeito é positivo no curto prazo. A bolsa brasileira tem
subido pela entrada de capital estrangeiro. Só em janeiro entrou mais dólar do
que em todo o ano passado. Isso tem acontecido com outros países. O real se
valorizou em relação à moeda norte-americana. Outras também.
— O governo Trump tem tomado medidas que
deveriam impactar a economia negativamente, mas a bolsa americana continua
subindo. Só que o ouro também. O dólar vem se enfraquecendo de forma
continuada. Há evidências curiosas: investidores aplicam no mercado acionário
americano, apostando na inteligência artificial e em outros setores, mas fazem
hedge contra o dólar no mercado futuro. Acreditam nos fundamentos das empresas,
mas não confiam totalmente na moeda. Em geral, moeda e fundamentos caminham
juntos. Com Trump, as duas coisas parecem estar em direções opostas — explica
Márcio Garcia.
O governo chinês deu ordem para que os bancos
reduzam sua exposição aos títulos do Tesouro americano. Mas o Financial Times
afirmou que não se pode confiar nos números de venda, porque os bancos negociam
Treasury Bonds e aplicam em fundos que podem manter esses mesmos papéis em
carteira.
— O tamanho total da demanda por Treasury
Bonds é de mais de US$ 30 trilhões. Mesmo quem queira tirar dinheiro de lá não
tem onde colocar tanto trilhão. Entraram alguns bilhões no Brasil e isso já fez
preço.
A China quer que o renminbi substitua o
dólar, lembra o economista. O problema é a falta de confiança do mundo em
relação à governança chinesa. O país é uma ditadura, com dados opacos, como
sempre ocorre em governos autocratas.
Por outro lado, o mundo se faz perguntas
agora que nunca havia feito antes, como sobre que tipo de autonomia terá o
Federal Reserve, com Donald Trump em
conflito com a diretora Lisa Cook e o presidente Jerome Powell. O economista
Kevin Warsh foi anunciado para a presidência e, mesmo que seja qualificado para
o cargo, Trump tem deixado claro que o escolheu para reduzir juros.
A situação é tão anômala que Lisa Cook
precisou contratar segurança particular, que ela paga do próprio bolso. Ela
também acumula gastos elevados com advogados, mas a lei permite a criação de um
fundo para receber contribuições de terceiros. O que a Suprema Corte vai
decidir sobre o caso de Lisa Cook na acusação de suposta fraude hipotecária?
Ela tem mandato até 2038.
O Federal Open Market Committee (Fomc), o
Copom deles, tem 12 votantes, sete são governadores do Fed. Powell deixará o
comando, mas continuará governador até 31 de janeiro de 2028. A decisão de quem
presidirá o Fomc é tomada pelo próprio Comitê. Não é necessariamente o
presidente do Fed. Warsh pode chegar como presidente do Fed e não ser eleito
para a presidência do Fomc. Se isso acontecer, ele será desautorizado na
entrada.
– Na história, a perda de hegemonia de uma
moeda está ligada à perda de hegemonia política e econômica de um país. É algo
que acontece, mas lentamente. Pela paridade de poder de compra, o PIB chinês já
é maior do que o dos Estados Unidos,
e pode ultrapassá-lo em alguns anos. Mas para o renminbi ser moeda de reserva,
a China precisaria abrir seu mercado de capitais. Muita gente diz: não posso
colocar meu dinheiro no mercado chinês porque não sei se poderei sair. Enfim,
aquela é uma sociedade que não é uma democracia e não há sinal de que venha a
ser.
Para usar a expressão da moda, “no fim do
dia” é a política que define. Por mais que Trump a ataque, a democracia
continua vigorosa como acaba de mostrar a decisão da Suprema Corte contra as
tarifas.

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