domingo, 22 de fevereiro de 2026

Três tempos, por Dorrit Harazim

O Globo

O futuro palestino se anuncia pior que o passado; e, do presente, poucos querem se lembrar

Passado, presente, futuro — a história de Gaza e da Palestina anda revolta em três tempos, simultaneamente. São tempos interligados, que têm em comum o apagamento da pegada histórica, física e cultural de todo um povo. Na mesma semana em que o venerando Museu Britânico removeu o termo “Palestina” de parte de seu acervo permanente sobre o Oriente Médio, a menção à situação em Gaza despencou para 1,5% do noticiário nas mídias dos Estados Unidos, e Donald Trump estreou em Washington seu Comitê de Paz para tornar o enclave mais desfrutável (e rentável) no futuro.

Começando pelo passado. A coleção permanente do museu londrino dedicada à história, arte e cultura das civilizações é uma das maiores do mundo — conta com mais de 8 milhões de peças que documentam os passos da Humanidade, dos primórdios até hoje. Os textos, painéis informativos e mapas alterados na semana passada encontram-se na ala destinada à História do Oriente Médio, que inclui os territórios do antigo Levante e do Egito antes da Era Cristã. Nessa seção, a costa leste do Mediterrâneo era identificada como “Palestina”, e os povos que lá viviam como “de ascendência palestina”. Em seu lugar, agora são referidos como “Canaã” e “de ascendência cananeia”.

Canaã costuma ser empregado por historiadores para a região que englobava o que é hoje Palestina, Israel, Síria e Jordânia. O termo foi criado em referência aos primeiros habitantes de Jericó, que hoje integra a Cisjordânia ocupada por Israel. No Velho Testamento, Canaã também é referida como a terra prometida por Deus ao povo judeu. Ou seja, encrenca milenar.

A troca na nomenclatura foi comemorada pelo grupo de advogados UK Lawyers for Israel (UKLFI), que exercera pressão forte para a mudança argumentado, entre outros motivos, que o nome “Palestina” poderia minimizar a existência dos antigos reinos israelitas. A reação contrária veio de pronto, com abaixo-assinado pela reversão da medida, firmado por milhares de integrantes do próprio museu.

— É ridículo o Museu Britânico remover a palavra “Palestina” quando ela tem antiguidade maior que a palavra “Britânico” — escreveu o historiador de arte escocês William Dalrymple, que situa a primeira referência ao termo a um monumento egípcio de 1186 a.C.

Dificilmente se verá reversão, pois o próprio museu considera que o termo deixou de ser “historicamente neutro”. Ou seja, tornou-se tóxico. A Palestina não está a salvo nem no seu passado milenar.

No presente, 4 mil anos depois, o apagamento se agrava desde outubro de 2025, quando Trump anunciou um cessar-fogo que já matou mais de 600 civis palestinos.

— A guerra em Gaza acabou — decretou o presidente.

A imprensa dos Estados Unidos parece ter acreditado, pois, segundo dados do instituto Fairness & Accuracy In Reporting (Fair), o noticiário sobre o lento morrer no enclave encolheu brutalmente. Chegou a ocupar 4,5% do espaço; hoje mal alcança 1,3%. O fato de o governo Benjamin Netanyahu proibir acesso ao que resta de Gaza a toda e qualquer mídia estrangeira independente apenas acentua o esquecimento e o silêncio mundial. Em paralelo, o Comitê de Proteção a Jornalistas documentou a detenção por Israel de 94 repórteres palestinos (32 em Gaza, 60 na Cisjordânia ocupada e dois em Israel) e expôs as condições prisionais degradantes a que são submetidos. Eram deles as únicas vozes ainda ativas no infernal cotidiano da vida palestina presente.

— É fácil manifestar cinismo ou desesperança sobre o estado das artes do jornalismo — escreveu a crítica de mídia Margaret Sullivan — quando nos sentimos frustrados, atolados em desinformação e em dúvida sobre o sentido da profissão. Mas é por meio do jornalismo que o viver de um povo é contado, que o poder é desafiado, a História é registrada, mudanças são empurradas.

O general Dwight Eisenhower disse mais ou menos a mesma coisa em abril de 1945, apenas em tom de urgência necessária à ocasião — as tropas sob seu comando haviam libertado o campo de concentração nazista de Ohrdruf, pouco antes:

— Registrem tudo agora. Filmem tudo. Chamem as testemunhas. Pois, em algum ponto do fio da História, algum canalha se erguerá e dirá que isso jamais aconteceu.

No tempo futuro, será inevitável a obliteração das raízes de Gaza caso a “reconstrução” do enclave siga a distopia planejada por Trump. O que até outubro de 2023 era a Cidade Velha, lar da Grande Mesquita de Omari, foi redesenhado para se tornar um “complexo industrial”; 180 torres turísticas à beira-mar devem cortar o acesso à orla para a população local; as outrora férteis terras agrícolas e dois imensos campos de refugiados serão ocupados por centros de dados, sem ligação com as comunidades originais; as 400 mil novas moradias prometidas na semana passada — designadas como “comunidades seguras alternativas” — serão fortemente vigiadas, com os moradores submetidos a monitoramento biométrico e verificação por parte de Israel — escreveu Muhammad Shehada, pesquisador do European Council on Foreign Relations.

Nessa toada, o futuro palestino se anuncia pior que o passado; e, do presente, poucos querem se lembrar.

 

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