Tiago Angelo e Giullia Colombo / Valor Econômico
Para presidente do Supremo, punição aos
envolvidos nos ataques aos Poderes reafirma que governantes e governados estão
“sujeitos às regras do jogo democrático”
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, disse ao Valor que “o 8 de janeiro deve permanecer como advertência histórica” e que a atuação da Corte para punir envolvidos nos ataques aos Poderes reafirma que governantes e governados estão “sujeitos às regras do jogo democrático”. Fachin preparou para esta quinta-feira (8), data em que os atos golpistas completam três anos, um evento para relembrar a invasão das sedes da Corte, do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto.
“O ataque às instituições brasileiras
ocorrido em 8 de janeiro de 2023 representou uma das mais graves afrontas ao
Estado Democrático de Direito desde a redemocratização do país. Não se tratou
de manifestação política, mas de uma tentativa organizada de ruptura, que
visava desacreditar o resultado legítimo das eleições e intimidar os Poderes da
República”, disse o ministro.
“Diante desse cenário, o Supremo Tribunal
Federal cumpriu seu papel de guardião da Constituição. A atuação da Corte
reafirmou que a democracia brasileira se sustenta pelo vigor das instituições e
pela submissão de todos - governantes e governados - às regras do jogo
democrático”, prosseguiu.
O presidente do STF destacou o papel do
ministro Alexandre de Moraes, relator dos processos contra participantes dos
atos de 8 de janeiro e das ações da trama golpista, em que Jair Bolsonaro e
aliados do ex-presidente foram condenados e presos. Também, dos comandantes das
Forças Armadas que “se mantiveram fiéis à Constituição” e não aderiram à
tentativa de golpe.
“Os responsáveis foram identificados e
responsabilizados dentro do devido processo legal. A democracia não é frágil
quando suas instituições são fortes. E o 8 de janeiro demonstrou, de forma
inequívoca, que o Brasil possui instituições capazes de resistir, reagir e se
recompor diante de ameaças autoritárias”, disse.
A programação do evento na quinta, que será
aberto ao público, contará com a abertura de uma exposição intitulada “8 de
janeiro: mãos da reconstrução”. Também haverá a exibição do documentário
“Democracia inabalada: mãos da reconstrução”.
Depois, será realizada uma roda de conversa
com jornalistas que acompanham o STF. Por fim, haverá uma mesa-redonda
intitulada “Um dia para não esquecer”. Entre os palestrantes que foram
convidados está o historiador Carlos Fico, uma das maiores referências sobre
estudos que tratam de golpe de Estado no país.
“O 8 de janeiro é mais que recordar um
episódio da nossa história recente, é a rigor reafirmar um compromisso que
transcende gerações: o compromisso com a democracia, com as instituições da
república e com a civilidade política. Feridas históricas deixam marcas
duradouras e continuam moldando a sociedade, o que nos lembra que reconhecer e
respeitar a história e as instituições é essencial para preservar a
democracia”, prosseguiu Fachin.
Para ele, a invasão das sedes dos três
Poderes “foi o ponto mais sensível de um processo de desgaste deliberado da
institucionalidade”. “Defender as instituições não é um ato ideológico, é um
dever cívico”, afirmou.
O ministro disse ainda que movimentos
sociais, entidades representativas, imprensa, academia, organizações da
sociedade e cidadãos comuns “ergueram-se em defesa da democracia, das
liberdades e da legalidade, formando um amplo pacto cívico que impediu o avanço
de uma ameaça autoritária e reafirmou que a democracia brasileira se sustenta
na força de suas instituições e na consciência democrática de seu povo”. “O 8
de janeiro deve permanecer como advertência histórica”, concluiu o presidente
do STF.
Até 16 de dezembro, a Primeira Turma da Corte
analisou 1.734 ações penais relacionadas aos atos de 8 de janeiro. Iniciadas a
partir da investigação da Polícia Federal (PF) e de denúncias da
Procuradoria-Geral da República (PGR), o colegiado analisou um conjunto de
ações que resultou na condenação de 810 pessoas, sendo 395 por crimes mais
graves, como organização criminosa, tentativa de golpe de Estado e crimes
contra o Estado Democrático de Direito; e 415 por crimes menos severos,
relacionados principalmente aos delitos de incitação e associação criminosa.
De todas as ações penais, 564 réus
denunciados por crimes menos graves firmaram acordos de não persecução penal
(ANPP). Nesses casos, os envolvidos podem confessar a prática dos crimes e, se
cumprirem condições legais ajustadas com a PGR, o fim do processo é decretado.
Segundo dados do STF, os acordos resultaram
no ressarcimento de mais de R$ 3 milhões aos cofres públicos, que foram
destinados à reparação dos danos materiais causados pelos ataques às sedes dos
Três Poderes.
Há ainda 346 ações penais em tramitação,
sendo 98 denúncias já oferecidas, em sua maioria relacionadas ao grupo de
financiadores das ações.
O STF também concluiu o julgamento de quatro núcleos da trama golpista. Além de Bolsonaro, outras 28 pessoas foram condenadas. O ex-presidente e militares aliados que integram o chamado “núcleo crucial” começaram a cumprir pena em novembro do ano passado.

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