quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Trump, um ideólogo sem convicções. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Presidente americano prefere se acertar com chavistas a entregar poder à oposição venezuelana

Precedentes do Iraque e da Líbia fazem com que ele relute em alijar quem controla polícia e exército

Donald Trump é um caso a ser estudado por cientistas políticos, psicólogos e neurologistas. Representante máximo da extrema direita planetária, ele próprio apresenta pouco ou nenhum apego a cartilhas ideológicas. Faz o que acha que lhe renderá dividendos. Se suas ações estiverem em consonância com as posições da direita, tanto melhor, já que arrancará mais facilmente os aplausos de sua base.

Mas ele também sabe que seus apoiadores lhe perdoam quase tudo, o que lhe dá espaço para, de vez em quando, ignorar ou contrariar convicções arraigadas de seu campo político.

Ele está fazendo isso na Venezuela. Abandonou María Corina Machado e a oposição à própria sorte e se acertou com representantes do regime bolivariano para que continuem administrando o país, desde que de acordo com os interesses de Washington. É a continuidade do chavismo e talvez até da ditadura, mas sem Nicolás Maduro. Trumpistas americanos talvez não se incomodem com o arranjo, mas a direita latino-americana deve estar se sentindo traída.

Curiosamente, essa foi a menos imprudente das decisões de Trump. O risco maior de intervenções externas em ditaduras é precipitar o país numa guerra civil. O fracasso das intervenções no Iraque e na Líbia foi imediatamente lembrado por analistas. O acerto com os chavistas reduz ao menos por ora esse perigo. Isso significa que não haverá redemocratização na Venezuela? Difícil dizer. O que dá para afirmar é que Trump, ao contrário de presidentes liberais, não tem fetiche por democracias, mas até ele deve reconhecer que estas tendem a ser mais estáveis do que regimes impostos.

Os precedentes do Iraque e da Líbia são um alerta, mas não destino. Instituições têm memória. É mais fácil fazer com que um país que já foi democrático volte a sê-lo do que tentar implantar esse tipo de regime onde ele nunca existiu. E, nos anos 1960, 1970 e 1980, enquanto a maioria dos países da América do Sul passava por ditaduras, a Venezuela permanecia teimosamente democrática. Isso faz diferença.

 

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