quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Ataque de Trump à Venezuela foi um 'Piratas do Caribe' com menos graça. Por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Entramos num mundo muito mais perigoso, e toda a gente vai ter de se adaptar

Cenário faz com que não haja atividade mais humilhante no mundo do que a de quem tenta justificar o americano

Em tempos houve uma distinção entre piratas e corsários. Os piratas atacavam barcos e cidades costeiras, roubavam, pilhavam e faziam mil malfeitorias, ilegalmente, e portanto eram feios, porcos e maus. Os corsários faziam tudo isso, mas com uma carta outorgada por um soberano, e portanto eram belos, bravos e legais.

O que aconteceu esta semana na Venezuela é como se no século 17 um desses monarcas tivesse decidido acabar com o fingimento dizendo: "Pessoal, não há diferença entre piratas e corsários, é tudo a mesma coisa. Os soberanos já não precisam fingir fazer o bem, podem pilhar como se fossem piratas, e admiti-lo."

Os argumentos de Vladimir Putin já eram tacitamente esses. Ele não precisava convencer ninguém de que estava do lado do bem, bastava insinuar que todos os líderes eram igualmente maus. E Donald Trump fez agora o mesmo no Caribe, só que foi ainda mais ostensivo.

Este estado de coisas faz com que não haja atividade mais humilhante no mundo do que a de quem tenta justificar Trump. O próprio presidente dos EUA acaba sempre por aparecer, um par de horas depois, dizendo em voz alta tudo aquilo que supunha-se estar encoberto por um manto diáfano de mentiras e pretextos.

Os justificadores de Trump ainda procuram fazer como antes e encontrar boas razões para maus atos (a democracia, os direitos humanos, o combate às drogas etc.) para logo serem desmentidos pelo próprio homem assumindo que o negócio dele é mesmo o petróleo e o exercício nu e cru do poder.

Para alguns observadores pode até parecer que a situação atual é preferível, porque caiu a máscara da hipocrisia. Mas não é. Entramos num mundo muito mais perigoso, e toda a gente vai ter de se adaptar.

O mundo ficou mais perigoso porque a hipocrisia é, afinal, o entendimento comum de que as justificações para os nossos atos têm de ter um quadro moral que, no caso presente, é o do direito internacional.

Se neste novo mundo o que vale é apenas o que o líder mais forte, mais tirânico, mais armado e mais desavergonhado quer, então ninguém está propriamente a salvo, a não ser que esteja armado até aos dentes, de preferência com armas nucleares. Imagino que muitos países, incluindo talvez o Brasil, estejam agora a pensar nisso mesmo.

E o mundo ficou mais perigoso ainda porque, como é hábito acontecer nestas situações, as nossas sociedades vão estar divididas entre os inconformados de um lado e os apaziguadores, oportunistas e traidores do outro. E essa reorganização vai esvaziar a política de sentido e inverter sua moral, ficando apenas a ideia de que realismo é aceitar a todo o momento aquilo que os chefes do mundo quiserem, mesmo que queiram a cada momento coisas diferentes. Que o mundo, no fundo, é só o mando de quem pode mandar e a obediência de todos os outros.

Na "Guerra dos Mundos", de H. G. Wells, há a figura de um oportunista que vende a sua rendição aos marcianos como realismo, não como traição. Assim vai ser agora, só que Trump no lugar do marciano que quer subjugar a Terra. Contra os que acharem que a capitulação é o caminho, afirmemos que a dignidade é neste momento o supremo realismo.

 

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