Folha de S. Paulo
Entramos num mundo muito mais perigoso, e
toda a gente vai ter de se adaptar
Cenário faz com que não haja atividade mais
humilhante no mundo do que a de quem tenta justificar o americano
Em tempos houve uma distinção entre piratas e
corsários. Os piratas atacavam barcos e cidades costeiras, roubavam, pilhavam e
faziam mil malfeitorias, ilegalmente, e portanto eram feios, porcos e maus. Os
corsários faziam tudo isso, mas com uma carta outorgada por um soberano, e
portanto eram belos, bravos e legais.
O que aconteceu esta semana na Venezuela é como se no século 17 um desses monarcas tivesse decidido acabar com o fingimento dizendo: "Pessoal, não há diferença entre piratas e corsários, é tudo a mesma coisa. Os soberanos já não precisam fingir fazer o bem, podem pilhar como se fossem piratas, e admiti-lo."
Os argumentos de Vladimir Putin já
eram tacitamente esses. Ele não precisava convencer ninguém de que estava do
lado do bem, bastava insinuar que todos os líderes eram igualmente maus.
E Donald
Trump fez agora o mesmo no Caribe, só que foi
ainda mais ostensivo.
Este estado de coisas faz com que não haja
atividade mais humilhante no mundo do que a
de quem tenta justificar Trump. O próprio presidente dos EUA acaba sempre
por aparecer, um par de horas depois, dizendo em voz alta tudo
aquilo que supunha-se estar encoberto por um manto diáfano de mentiras
e pretextos.
Os justificadores de Trump ainda procuram
fazer como antes e encontrar
boas razões para maus atos (a democracia, os direitos humanos, o combate
às drogas etc.) para logo serem desmentidos pelo próprio homem assumindo que
o negócio
dele é mesmo o petróleo e o exercício nu e cru do poder.
Para alguns observadores pode até parecer que
a situação atual é preferível, porque caiu
a máscara da hipocrisia. Mas não é. Entramos num mundo muito mais perigoso,
e toda a gente vai ter de se adaptar.
O mundo ficou mais perigoso porque a
hipocrisia é, afinal, o entendimento comum de que as justificações para os
nossos atos têm de ter um quadro moral que, no caso presente, é o do direito
internacional.
Se neste novo mundo o que vale é apenas o que
o líder mais forte, mais tirânico, mais armado e mais desavergonhado quer,
então ninguém
está propriamente a salvo, a não ser que esteja armado até aos
dentes, de
preferência com armas nucleares. Imagino que muitos países, incluindo
talvez o Brasil, estejam agora a pensar nisso mesmo.
E o mundo ficou mais perigoso ainda porque,
como é hábito acontecer nestas situações, as nossas sociedades vão estar divididas
entre os inconformados de um lado e os apaziguadores, oportunistas e
traidores do outro. E essa reorganização vai esvaziar a política de sentido e
inverter sua moral, ficando apenas a ideia de que realismo é aceitar a todo o
momento aquilo
que os chefes do mundo quiserem, mesmo que queiram a cada momento coisas
diferentes. Que o mundo, no fundo, é só o mando de quem pode mandar e a
obediência de todos os outros.
Na "Guerra dos Mundos", de H. G.
Wells, há a figura de um oportunista que vende a sua rendição aos marcianos
como realismo, não como traição. Assim vai ser agora, só que Trump
no lugar do marciano que quer subjugar a Terra. Contra os que acharem
que a capitulação é o caminho, afirmemos que a dignidade é neste momento o
supremo realismo.

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