O Globo
Lula terá de se opor àqueles que querem ver o
Brasil se tornar satélite de uma potência estrangeira, por qualquer razão que
seja
Estamos diante de uma nova era na América
Latina. Renasce a Doutrina Monroe, principal fundamento da hegemonia
norte-americana sobre o Hemisfério, agora somada ao Corolário Trump, que
manifesta o desejo do atual governo de controlar os fluxos de pessoas, drogas e
ativos estratégicos.
Esse movimento é sintoma de uma transformação global mais profunda. Voltamos à geopolítica do século XIX. O mundo, hoje, é partilhado entre três grandes potências: Estados Unidos, China e Rússia, cada qual buscando assegurar controle sobre vastas esferas de influência, muitas vezes com a conivência cínica dos demais.
As Américas regridem a um momento da História
em que eram jocosamente chamadas de “quintal” norte-americano. Da Venezuela à Groenlândia, os
Estados Unidos vêm deixando claro que pretendem exercer controle absoluto sobre
os recursos, a infraestrutura e até mesmo os povos da região, num misto de
duras políticas migratórias, chantagens econômicas e ameaças militares.
Horas depois da captura de Maduro, o
presidente Donald Trump declarou que os Estados Unidos assumirão o controle da
Venezuela, sem perspectiva clara de eleições, transição de poder ou
reconstrução institucional. Só se sabe que as gigantes petrolíferas americanas
já se preparam para explorar a vasta reserva sul-americana em poucos meses. A
democracia venezuelana, por sua vez, segue muito distante.
Em vez de produzir estabilidade e
prosperidade, a estratégia dos Estados Unidos para a região será fonte
permanente de incertezas e tensões. O unilateralismo do governo Trump produz
diversas fraturas políticas no Hemisfério, algumas inéditas.
Comecemos pela própria política
norte-americana. A oposição democrata encontra-se bestializada diante do
atropelamento do já fragilizado equilíbrio entre Poderes. Mas a contestação
mais relevante vem de dentro do próprio trumpismo. Se Trump ganha popularidade
junto a algumas comunidades latinas, sobretudo venezuelanas e cubanas,
fragiliza o flanco mais ideológico de sua base, que não quer um governo
envolvido em tentativas de mudança de regime ou em guerras além-mar. Vencendo a
visão imperialista de setores da Casa Branca, o futuro das relações entre Estados
Unidos e América Latina ficará ainda mais perigoso e incerto, atrelado a
interesses econômicos e eleitorais de curto prazo.
Outra fratura começa a ser observada na
própria Venezuela. Ao escantear a aliada María Corina Machado e estabelecer um
tênue diálogo com a presidente interina, Delcy Rodríguez, a Casa Branca deixa
claro que o pragmatismo geopolítico supera qualquer expectativa de transição
imediata de poder. Ainda há o risco de, dentro e fora do regime, haver disputa
de facções pelo poder. Isso poderá agravar ainda mais a crise humanitária do
país e contaminar, por tabela, a já polarizada política regional.
Não podemos deixar de observar, por fim, uma
fratura profunda no nosso canto do mundo. Por décadas, o continente caminhou
unido, acima de divergências ideológicas, no repúdio contra intervenções
estrangeiras e em defesa da soberania. Declarações recentes do argentino Javier
Milei e do equatoriano Daniel Noboa em apoio à derrubada de Maduro deixam claro
que há, na região, quem defenda e apoie o trumpismo hemisférico. Esse é um
alerta crucial para as chancelarias sul-americanas, tendo em vista o risco da
capitulação aos interesses dos Estados Unidos.
Tudo isso serve de aviso sobretudo ao Brasil.
Diante das eleições deste ano, o governo Lula terá não só de reiterar os
princípios fundamentais da nossa política externa, mas também de se opor
àqueles que querem ver o Brasil se tornar satélite de uma potência estrangeira,
por qualquer razão que seja.
Num mundo sem regras, governado ao sabor das
grandes potências, Brasil e América Latina serão eterno quintal. Se a região
não se posicionar de maneira contundente contra o precedente aberto pela ação
na Venezuela, nosso futuro será de fraturas cada vez mais expostas — e difíceis
de curar.
*Guilherme Casarões é professor da Florida
International University

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