quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Fraturas exposta na Venezuela. Por Guilherme Casarões

O Globo

Lula terá de se opor àqueles que querem ver o Brasil se tornar satélite de uma potência estrangeira, por qualquer razão que seja

Estamos diante de uma nova era na América Latina. Renasce a Doutrina Monroe, principal fundamento da hegemonia norte-americana sobre o Hemisfério, agora somada ao Corolário Trump, que manifesta o desejo do atual governo de controlar os fluxos de pessoas, drogas e ativos estratégicos.

Esse movimento é sintoma de uma transformação global mais profunda. Voltamos à geopolítica do século XIX. O mundo, hoje, é partilhado entre três grandes potências: Estados UnidosChina e Rússia, cada qual buscando assegurar controle sobre vastas esferas de influência, muitas vezes com a conivência cínica dos demais.

As Américas regridem a um momento da História em que eram jocosamente chamadas de “quintal” norte-americano. Da Venezuela à Groenlândia, os Estados Unidos vêm deixando claro que pretendem exercer controle absoluto sobre os recursos, a infraestrutura e até mesmo os povos da região, num misto de duras políticas migratórias, chantagens econômicas e ameaças militares.

Horas depois da captura de Maduro, o presidente Donald Trump declarou que os Estados Unidos assumirão o controle da Venezuela, sem perspectiva clara de eleições, transição de poder ou reconstrução institucional. Só se sabe que as gigantes petrolíferas americanas já se preparam para explorar a vasta reserva sul-americana em poucos meses. A democracia venezuelana, por sua vez, segue muito distante.

Em vez de produzir estabilidade e prosperidade, a estratégia dos Estados Unidos para a região será fonte permanente de incertezas e tensões. O unilateralismo do governo Trump produz diversas fraturas políticas no Hemisfério, algumas inéditas.

Comecemos pela própria política norte-americana. A oposição democrata encontra-se bestializada diante do atropelamento do já fragilizado equilíbrio entre Poderes. Mas a contestação mais relevante vem de dentro do próprio trumpismo. Se Trump ganha popularidade junto a algumas comunidades latinas, sobretudo venezuelanas e cubanas, fragiliza o flanco mais ideológico de sua base, que não quer um governo envolvido em tentativas de mudança de regime ou em guerras além-mar. Vencendo a visão imperialista de setores da Casa Branca, o futuro das relações entre Estados Unidos e América Latina ficará ainda mais perigoso e incerto, atrelado a interesses econômicos e eleitorais de curto prazo.

Outra fratura começa a ser observada na própria Venezuela. Ao escantear a aliada María Corina Machado e estabelecer um tênue diálogo com a presidente interina, Delcy Rodríguez, a Casa Branca deixa claro que o pragmatismo geopolítico supera qualquer expectativa de transição imediata de poder. Ainda há o risco de, dentro e fora do regime, haver disputa de facções pelo poder. Isso poderá agravar ainda mais a crise humanitária do país e contaminar, por tabela, a já polarizada política regional.

Não podemos deixar de observar, por fim, uma fratura profunda no nosso canto do mundo. Por décadas, o continente caminhou unido, acima de divergências ideológicas, no repúdio contra intervenções estrangeiras e em defesa da soberania. Declarações recentes do argentino Javier Milei e do equatoriano Daniel Noboa em apoio à derrubada de Maduro deixam claro que há, na região, quem defenda e apoie o trumpismo hemisférico. Esse é um alerta crucial para as chancelarias sul-americanas, tendo em vista o risco da capitulação aos interesses dos Estados Unidos.

Tudo isso serve de aviso sobretudo ao Brasil. Diante das eleições deste ano, o governo Lula terá não só de reiterar os princípios fundamentais da nossa política externa, mas também de se opor àqueles que querem ver o Brasil se tornar satélite de uma potência estrangeira, por qualquer razão que seja.

Num mundo sem regras, governado ao sabor das grandes potências, Brasil e América Latina serão eterno quintal. Se a região não se posicionar de maneira contundente contra o precedente aberto pela ação na Venezuela, nosso futuro será de fraturas cada vez mais expostas — e difíceis de curar.

*Guilherme Casarões é professor da Florida International University

 

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