Livro Resenhado: SNYDER, Timothy. Nossa moléstia: lições sobre liberdade extraídas de um diário hospitalar. Tradução de Fábio Lopes da Silva, André Cechinel. Florianópolis: Editora da UFSC, 2022.
O adoecimento faz parte da vida; é uma condição dela, na medida em que todos (inclusive outras formas de vida) estamos suscetíveis a situações em que o corpo não funciona como deveria funcionar, causando sofrimento e risco à vida e nos lembrando que, como sabemos, a sua finitude e a única certeza que temos.
Há, todavia, uma enorme complexidade em torno disso, e essa complexidade se faz maior na medida em que estarmos minimamente saudáveis é um fator fundamental para que possamos realizar não apenas as atividades cotidianas, mas aquelas que também nos fazem, como humanidade, melhores do que fomos ontem. Nesse sentido, é impossível a saúde não se fazer um tema essencial para o avanço civilizatório, e entendê-la e tratá-la com esta devida importância é contribuir em muito para caminharmos rumo ao bem-estar de todas e todos.
Não à toa que o mesmo autor de O
processo civilizador (volume 1 de 1990; volume 2 de 1993) e de A
sociedade dos indivíduos (1994), que além de sociólogo também teve
formação médica, teceu o texto pouco lido A solidão dos moribundos (1982)
e nos mostrou a ausência de elementos, no ocidente, que poderiam nos educar
para “viver a morte”; se há dificuldade em compreender que os doentes e os que
morrem estão entre nós e precisam de nós até o fim, como fazer para amenizar o
sofrimento e proporcionar, sobretudo em casos onde não é possível estender muito
mais o tempo de vida, a certeza de que eles não passarão estes momentos tendo
tão somente a eles mesmos e permanecerão por conta própria? Norbert Elias nos
mostrou que a sociedade começa, antes de tudo, no cérebro humano e este
possibilita a capacidade natural de, também, cuidarmos uns dos
outros, mas que, ao não aprendermos desde pequenos a lidar com a morte, o
doente vivo é deixado muitas vezes deixado à solidão.
O pequeno livro do historiador Timothy Snyder
tem, talvez como principal mérito, a capacidade de mergulhar neste assunto da
maneira mais simples e cotidiana possível, e assim mostrar como que, no seu
país, a distância entre aquilo que se tentou fazer no passado e aquilo que
realmente foi feito em tempos mais próximos pode ilustrar, na verdade, o declínio
do que a modernidade nos brindou do século 18 nos brindou, cujas teses
atravessaram o Atlântico e também se fizeram substrato programático para os
pais fundadores da experiência nacional norte-americana, cuja assimilação do
liberalismo não tinha compromisso com individualismos exacerbados. Os valores
de liberdade individual que compunham a cultura intelectual daqueles que
tocaram o nascimento dos EUA não colidiam com os valores da democracia e da
república caros a estes intelectuais.
O autor dispõe a discussão, todavia, de maneira bastante prática e cotidiana, pois advém de um diário hospitalar; imagine-se diversas internações, sendo a última e mais demorada durante a virada do ano 2019 para o fatídico 2020. De uma apendicectomia urgente (devido a um erro de diagnóstico) para uma posterior infecção e sepse, que quase o matou, às dificuldades em lidar com o sistema de assistência para a saúde que, devido às características do seu desenho, o tornam inoperante, o que foi demonstrado na emergência sanitária da COVID-19, que começou logo depois de sua internação, sendo o livro escrito e publicado ainda durante o seu curso (setembro de 2020). Não há liberdade na morbidade; um indivíduo com funções orgânicas comprometidas não consegue perseguir seus fins, inclusive a própria cura; como ninguém se cura sozinho, este mesmo indivíduo precisa, porém, dos outros para que seja curado.
É aqui, porém, que há o problema: na medida
em que a assistência à saúde está sempre relacionada ao ganho individual de outrem,
sobretudo na forma do lucro, ela não admite práticas societais necessárias para
não apenas o tratamento e a cura de doenças, mas também a prevenção, muitas
vezes praticada por hábitos simples e de baixo ou nenhum custo; os
profissionais, muitas das vezes por pressão da lógica comercial imposta, não
praticam a medicina por aquilo que ela tem de mais elementar: a conversa, a boa
orientação, a clareza, a escuta, o uso das mãos para examinar clinicamente e
intervir se necessário for. Grande parte da boa saúde vem de bons hábitos
individuais, e bons hábitos individuais são aprendidos com a sociedade que está
em nós e faz parte de nós tanto quanto fazemos parte dela. Como a governança do
sistema (quando há) não é desenhado para a assistência na sua integralidade,
receber a atenção mais próxima possível daquela que a doença demanda termina
por ficar ao sabor dos humores e da boa vontade de quem atende, o que muitas
das vezes não se faz presente e resulta em agravamento, novas intervenções e,
consequentemente, mais custo.
Assim fica exposto que, no caso
norte-americano, a relação fina e bastante sofisticada entre saúde e liberdade,
seja ela solitária ou solidária, é um exemplo ilustrativo do esgarçamento
social visível nesta experiência. Não é possível uma determinada sociedade ter
saúde, mesmo com recursos materiais de primeira linha, se a liberdade está
aprisionada por uma assimilação liberal onde apenas a acumulação de capital se
faz absoluta, reinando assim a degradação cívica e o ressentimento, rompendo com
a tradição associativa de sua fundação e, consequentemente, atingindo a
democracia e a república. O desafeto do autor, chamado por ele elegantemente de
Mr. Trump, pode ser a encarnação da insustentabilidade do caminho que a
sociedade norte-americana optou por tomar.
*Marcio Junior é doutorando do CPDA/UFRRJ, responsável pelo Treinamento e Desenvolvimento Profissional da Cedae Saúde, professor da Teia de Saberes e editor do Voto Positivo.

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