Folha de S. Paulo
O prédio que serviu a duas ditaduras deve se
tornar um museu dos direitos humanos
Em suas masmorras, praticaram-se horrores que
não podem ser apagados nem se repetir
O prédio da ex-sede do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), na rua da Relação, aqui no Rio, foi tombado pelo Iphan e, depois de passado o rodo e restaurado, pode se tornar um museu dos direitos humano. Por suas masmorras passaram presos de duas ditaduras, a de Getúlio Vargas (1937-1945) e a dos militares, de 1964 a 1985, quando foi desativado. Entre uma e outra, na democracia, muita gente apanhou lá, sem motivo político ou sem motivo.
Sob Getulio,
ele abrigou a Polícia Central, comandada pelo major Filinto Müller, chefe de
polícia do então Distrito Federal. Filinto, de origem vagamente alemã, mas
nazista de carteirinha, era o braço armado da Justiça e tão ou mais poderoso do
que esta —os atos dos juízes podiam ser desfeitos; os de Filinto não, porque o
preso já podia ter morrido na tortura ou sido atirado lá embaixo, no pátio,
como o americano Victor Allen Barron, implicado no levante comunista de 1935.
Em 1936, o prédio recebeu o Dops, criado pelo ministro da Justiça, Vicente Rao,
e com ligação direta com a Gestapo. Se não foram jogados fora, os arquivos
devem contar o que houve de horrores lá dentro.
Desde que desocupado pela polícia, o prédio
passou por várias funções. Uma ideia para aproveitá-lo, felizmente não adotada,
foi a de convertê-lo num shopping, o que seria o supremo acinte aos seus mortos
e torturados. Desde então, deixaram-no para cair. Mas, teimoso, ele continuou de
pé, espero que para resguardar uma parte da história do Brasil que não pode ser
apagada nem se repetir. Conheço instituições parecidas, inestimáveis, em
Berlim, Budapeste e Lisboa.
Aliás, conheci também o interior do Dops, em
março de 1967, ao ser preso como estudante numa passeata e botado numa cela por
acaso vazia. Fui solto algumas horas depois por interferência do senador Mario
Martins (MDB-GB), dedicado a exigir a libertação de estudantes.
Livre, atravessei a rua e fui para o Correio
da Manhã, que ficava em frente, na diagonal, e escrevi sobre a passeata que
fora cobrir como repórter.

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