O Estado de S. Paulo
Política e instituições do Brasil entraram numa espiral de descrédito e não se vê remédio imediato
O amargo sabor da nossa irrelevância
internacional diante do que aconteceu na Venezuela vem acompanhado internamente
pelo ácido sabor da podridão política diante do escândalo do Master. Há uma
ligação abrangente entre os dois fenômenos: a noção de que não se vê remédio
imediato para nenhum gosto ruim.
O caso do Master é de maior urgência, pois indica uma crise institucional de graves proporções. Essa crise não resulta do fato de uma instituição (por exemplo o TCU) averiguar o que outra (por exemplo o Banco Central) está fazendo ou não.
É preocupante realmente pois vem do fato de
que já não se acredita que instituições de Estado estejam agindo como tais.
Mas, sim, como ferramentas para exercer pressão política contra decisões que
afetam interesses de grupos privados. É generalizado o descrédito em relação às
explicações dadas por STF e TCU para justificar as respectivas atuações no caso
Master – para citar apenas o mais recente exemplo.
O problema é saber a que distância estamos de
um tipping point, o ponto de inflexão sem volta. Esse momento nunca chega
devido a uma ação isolada (como um só escândalo).
Resulta ou torna-se visível sempre a partir de um conjunto de ocorrências que compõe uma tendência.
No caso brasileiro essa tendência é clara o
suficiente para se afirmar que estamos numa crise institucional de
consequências imprevisíveis, pois ela sugere que não há lideranças abrangentes
com capacidade de “reverter” essa tendência. Predominam variadas organizações
setoriais – algumas são meras quadrilhas sob siglas políticas – agindo por
conta própria e com sem-vergonhice inédita até para um País que achava ter
visto tudo em matéria de corrupção.
Elas demonstram crescente capacidade de
manipular alavancas de poder em descarado benefício próprio. Como um pedaço do
TCU aqui, um pedaço do STF ali, fato em si indicativo de desagregação interna
de instituições. No seu conjunto, isso leva à sensação real de dissolução do
funcionamento delas, com rápida perda de confiança.
Aprofundando por sua vez a descrença na
capacidade da política de trazer respostas, fenômeno que já começa pelo fato de
não existirem partidos políticos dignos desse nome. E acentuando a dúvida, que
se tornou existencial, se o País é capaz de gerar algum tipo de ação coletiva
(em termos sociais, portanto políticos) para organizar saídas para qualquer de
seus grandes dilemas – sociais, econômicos, políticos, geopolíticos.
Nesse sentido irrelevância internacional e podridão política interna se combinam.

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