quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Amigos do Master atuam como facção que protege poderosos. Por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Tentativa de emparedar Banco Central para questionar liquidação da instituição reúne TCU, contas digitais e abafa no STF

Felizmente surgem reações, apesar do silêncio do governo Lula, contra mais essa investida criminosa na política e instituições

As reiteradas investidas do TCU (Tribunal de Contas da União) contra o Banco Central são uma tentativa facciosa de instrumentalizar a fiscalização com o objetivo de conter a emergência de escândalos que podem atingir os quatro cantos da República, como disse recentemente —reforçando o que muitos já haviam apontado— o economista Arminio Fraga, ex-presidente do BC, em entrevista.

Se não é possível apontar o dedo para a totalidade do tribunal, não há dúvida de que seu presidente, Vital do Rêgo, e sobretudo o ministro Jhonatan de Jesus vêm atuando de modo mais do que suspeito para intimidar a autoridade monetária e tentar reverter a liquidação do banco, baseada em evidências clamorosas de fraudes.

Não é difícil notar por detrás dessas escaramuças a mão visível do centrão e vislumbrar —estarei precisando de oftamologista?— aquela, já não tão invisível assim, do crime organizado.

Quem é Jhonatan de Jesus? Trata-se de um político que exerceu quatro mandatos de deputado federal por Roraima. É unha e carne com o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, que o indicou e, afinal, o levou ao TCU. Os dois se apoiaram mutuamente, Lira em busca de seu segundo mandato e Jhonatan sonhando com o cargo vitalício (até os 75 anos) no tribunal, que é um órgão auxiliar do Congresso para fiscalizar as despesas e a execução do Orçamento.

Se a inadequação institucional e legal da intervenção do TCU é gritante, a iniciativa de Dias Toffoli de chamar a investigação para o STF tampouco tem solidez. É baseada em uma alegação acidental, dada a presença de um parlamentar numa das facetas das investigações.

Como já comentei aqui, Toffoli comporta-se como o abafador-geral do caso ao decretar sigilo e tentar sentar sobre um iceberg com potencial para afundar um Titanic com passageiros graúdos da política e redondezas.

Revelam-se agora bastidores sobre a suposta insatisfação de ministros do STF com a tentativa de imitação da arrogância da corte suprema pelo TCU. Não é demais lembrar, entretanto, as ligações perigosas que a jornalista Malu Gaspar revelou em torno de um contrato milionário entre o banco de Daniel Vorcaro e o escritório de advocacia da família do ministro Alexandre de Moraes.

As movimentações para acuar o BC também mobilizam uma milícia digital. E não começaram agora. Já vimos o centrão tentar aprovar na Câmara legislação que permitiria ao Congresso demitir diretores do BC. Causa estranheza também a acomodação do Executivo diante das pressões. Quanto ao mercado, ao menos instituições mais respeitadas manifestaram-se.

Curiosamente, a ideia de que o BC teria se apressado na liquidação do Master choca-se com o que alguns diziam tempos atrás, quando se lançavam dúvidas sobre a presteza da gestão anterior em detectar os problemas.

O fato é que cresce no cenário a presença dos Amigos do Master –como se poderia designar a aliança suspeitíssima que gostaria de anular a liquidação, o que seria tecnicamente inviável. Temos presenciado o avanço do banditismo na política e nas instituições. As conexões do caso Master com essa cultura delinquencial são claras. Não é, infelizmente, novidade num país que já el3egeu um golpista ligado a milícias e votou num Congresso que prima pelo descaramento.

 

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