Valor Econômico
Parceiro de golfe de Trump, o presidente da
Finlândia, Alexander Stubb, afirma que levará pelo menos de cinco a dez anos
para que as coisas se estabilizem
A versão trumpista da “Doutrina Monroe”
começa a ser aplicada em meio à reconfiguração bipolar do mundo - Estados
Unidos e China - que vai se refletir nos contornos de uma nova ordem mundial. A
ingerência direta dos Estados Unidos na Venezuela deixa claro que Donald Trump
acredita poder fazer tudo, a qualquer momento, na América Latina.
“O domínio americano no hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”, disse Trump. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, acrescentou: “Este é o hemisfério Ocidental. É aqui que vivemos - e não permitiremos que seja uma base de operações para adversários, concorrentes e rivais dos Estados Unidos”.
Após atacar a Venezuela e agora ameaçar Cuba,
Colômbia e até a Groenlândia, Trump avisou sem ambiguidades que “o futuro será
determinado pela capacidade de proteger o comércio, o território e os recursos
essenciais para a segurança nacional. Essas são as leis de ferro que sempre
determinaram o poder global, e vamos mantê-las assim”.
A ordem internacional, seu equilíbrio e sua
dinâmica, está mudando aceleradamente para perplexidade, ainda, de alguns
líderes em diferentes partes do mundo, que comparam o momento atual ao período
do pós-Segunda Guerra Mundial, quando a ONU foi fundada. Muitos se perguntam
por quanto tempo vai durar a crise da ordem internacional - e para onde estamos
realmente caminhando.
Parceiro de golfe de Donald Trump, o
presidente da Finlândia, Alexander Stubb, tem sua própria leitura do momento.
Em discurso nas Nações Unidas, observou que a ordem do pós-Guerra Fria de fato
acabou, que ainda não sabemos quais serão os contornos da nova ordem e que
“levará pelo menos de cinco a dez anos para que as coisas se estabilizem”.
De seu lado, o secretário-geral das Nações
Unidas, António Guterres, alerta para a desordem global atual: “O caos e a
incerteza nos cercam. Divisão. Violência. Colapso climático. E violações
sistêmicas do direito internacional”.
Para Guterres, um dado fala mais alto do que
palavras: os gastos militares globais dispararam para US$ 2,7 trilhões, um
aumento de quase 10%. Esse valor é 13 vezes maior do que toda a ajuda ao
desenvolvimento e equivale ao Produto Interno Bruto (PIB) de toda a África.
Poderá mais que dobrar - para impressionantes US$ 6,6 trilhões em 2035 - se as
tendências atuais persistirem.
Sem surpresa, para a presidente do Banco
Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, algo não mudou para 2026 - e pode ter
até piorado: a incerteza. Seja a incerteza geopolítica, seja a relacionada ao
comércio internacional, marcado por excesso de capacidade produtiva em alguns
países, ou seja ainda o que ocorre nas fronteiras da Europa. Há muitos fatores
em jogo que evoluirão ao longo do ano, aumentando a perturbação em governos,
mercados e sociedades.
Atacada pela Rússia, pressionada pela China,
menosprezada e vista como adversária ideológica pelos Estados Unidos, a União
Europeia procura meios de reagir, em meio a suas divergências internas. No
Parlamento Europeu, no fim do ano, a presidente da Comissão Europeia, Ursula
von der Leyen, definiu a realidade internacional como “a realidade de um mundo
que se tornou perigoso e transacional. Um mundo de guerras. Um mundo de
predadores”.
Para a executiva europeia, as turbulências
começaram antes mesmo do maior sinal de alarme dos últimos anos: a invasão
ilegal da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022. “A paz do passado
desapareceu. Mas não temos tempo para nostalgia. O que importa é como
enfrentamos a realidade de hoje”, afirmou.
Ela destacou um documento da administração
Trump sobre a estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, que aponta
que a participação da Europa no PIB mundial caiu de 25%, em 1990, para 14%
atualmente. Von der Leyen rebateu: o que Washington não diz é que os próprios
Estados Unidos seguiram trajetória semelhante - sua participação no PIB mundial
também caiu de 22% para 14% no mesmo período.
Para os europeus, não se trata de uma disputa
de desempenho econômico entre os dois lados do Atlântico, mas de uma
transformação estrutural da economia global. A China elevou sua participação no
PIB mundial de 4%, em 1990, para cerca de 20% atualmente. É a segunda maior
economia do mundo, e seu poder e influência aumentam nas mais diversas áreas.
“É por isso que os Estados Unidos sabem há
algum tempo que precisam redefinir seus interesses e prioridades estratégicas à
medida que a China ganha força. Essa estratégia americana não é a causa das
perturbações que a Europa enfrenta hoje; é um sintoma da realidade do mundo
atual”, argumentou Von der Leyen.
“A Europa deve assumir a sua independência”,
repetiu ela, falando de uma nova era ainda por se confirmar: independência
energética em relação aos combustíveis russos, acordos ambiciosos com a América
Latina e o Indo-Pacífico para garantir matérias-primas críticas e investimentos
bilionários na indústria de defesa europeia, por exemplo.
Esse discurso se repete enquanto Donald Trump
avança em sua política de força, que alguns chamam de imperialismo predatório.
Em comentário no jornal Le Monde, Jean-Marie Guéhenno, ex-secretário-geral
adjunto da ONU, avaliou que “se, amanhã, os Estados Unidos decidirem tomar
posse da Groenlândia, nem a Dinamarca nem a UE terão meios para se opor”.
Para ele, a tutela da Venezuela por Trump
deve servir para que os europeus compreendam que os Estados Unidos são um
predador para a Europa - assim como a Rússia e a China.
Nesse cenário global, a política externa
tende a se tornar um tema ainda mais relevante na campanha presidencial no
Brasil nos próximos meses.

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