O Globo
A única arma que um país como o Brasil, ou
outros da América Latina, tem contra a invasão é o Direito Internacional
A captura de um navio com bandeira russa em meio ao Atlântico Norte, que tinha a protegê-lo submarinos, mas servia também ao Irã no transporte de petróleo desde a Venezuela, é a mais nova aventura de pirataria em consequência do sequestro do ex-ditador Nicolás Maduro no sábado passado. Parece filme, mas é a realidade. Até o fato de o navio antes se chamar Bella 1 e passar a se denominar Marinara no meio do caminho em alto-mar, tudo para fugir de sanções americanas. O atual impasse entre Rússia e Estados Unidos reflete bem os anos turbulentos que teremos pela frente até que o mundo tripartite proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a seus parceiros Vladimir Putin e Xi Jiping se acomode.
Não há força no mundo que possa se contrapor
a esses três, e a China é a única superpotência que se interessa em manter
vivos os organismos multilaterais. Estados Unidos e Rússia preferem a lei do
mais forte. No Brasil, temos uma visão distorcida desse tabuleiro de xadrez e,
em vez de uma visão de longo prazo, nos detemos no imediatismo da polarização
ideológica rasa. A esquerda apoia a Rússia na invasão da Ucrânia porque ainda
tem uma imagem de comunismo, ainda que Putin seja um autocrata de direita. A
China tem um capitalismo de Estado — por isso defende o multilateralismo —, e o
da Rússia é um capitalismo de amigos. Os Estados Unidos, sob Trump,
transformaram-se num capitalismo de negócios, um capitalismo selvagem, que não
leva em conta a democracia como ponto fundamental de sua liderança
internacional.
O multilateralismo também não interessa a
Trump, pois organismos internacionais como a ONU são obstáculos a seus desejos
expansionistas. Em termos políticos, a Rússia é apoiada pela esquerda nacional
porque é um opositor mais imediato dos Estados Unidos. Se já tivemos quem
dissesse “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, temos agora
quem ache que “quem é contra os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Uma
definição rasa do ponto de vista ideológico. Ficar a favor da invasão da
Venezuela é ser contra o governo Maduro de esquerda, então. Sendo Trump a nova
liderança internacional da direita, o que ele faz está certo. Não importa nessa
reação instintiva que avalizar a invasão do mais forte é se colocar à
disposição do invasor.
A única arma que um país como o Brasil, ou
outros da América Latina, tem contra a invasão é o Direito Internacional.
Porque, sem essa regulação, Trump ou outros autocratas poderosos invadem o país
que quiserem. O interesse nacional do invasor na Amazônia é mais determinante que
o direito brasileiro sobre o nosso território. Não é possível viver num mundo
desses neste momento da História. Já tivemos a Armada Inglesa mandando nos
mares internacionais, já tivemos piratas que até hoje rendem bons filmes de
aventuras. Quando se falava sobre os piratas modernos, no Golfo da Guiné, na
África Ocidental ou na Somália, havia um misto de estupor e medo nessas
histórias. Estamos regredindo.
O mesmo espírito de regressão constata-se no
imbróglio do Banco Master, a mesma confusão ideológica. Ontem o ministro do TCU
Jhonatan de Jesus esboçou o primeiro recuo quanto à intenção de intervir na
liquidação do Banco Master, abandonou a ideia de fazer uma fiscalização no
Banco Central e garantiu que não pedirá o fim da liquidação do Master. Ainda bem,
seria, como disse o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, uma “pizza do
tamanho do Maracanã”. Bancos muito maiores e mais importantes que o Master já
quebraram — Nacional, Bamerindus, Econômico —, e nunca houve nenhuma
movimentação nesse sentido. Agora o Master, que se aproveitou de brechas no
sistema para fraudar seus clientes e ganhar dinheiro, virou vítima do sistema
capitalista para a esquerda, que transformou o ministro do STF Alexandre de
Moraes em herói que não pode ser tocado, assim como a direita trata o “mito”
Bolsonaro.

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