quinta-feira, 19 de março de 2015

Goethe - O poeta

Deixa-me, por quem és; busca outro escravo!
Para ajudar-te na perversa empresa
de derrancar no mundo o siso, o gosto,
querias que o poeta assim brincando
seus foros naturais renunciasse?
Como é que ele os afectos senhoreia?
Com que poder subjuga os elementos?
Não será co’a harmonia entre ele e o mundo?
Ele a absorver do mundo as maravilhas,
e a expandi-las depois com brilhos novos?
Enquanto indiferente a natureza
vai torcendo no fuso o eterno fio,
e a tão discorde multidão dos entes
se entrebate estrondosa e dissonante;
quem vos tira a expressão pela fieira,
e a vivifica e inunda de harmonias?
Tantos entes diversos, desconjuntos,
quem os une em convívio harmonioso?
quem transforma paixões em tempestades?
quem acende arrebóis na mente escura?
No caminho da amada quem semeia
as flores mais louçãs da primavera?
Quem de ténues folhinhas entretece
c’roa, que a todo o mérito premeie?
Quem funda Olimpos? quem despacha deuses?
A força do homem, convertida em estro.

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Trecho do poema Fausto de Goethe,traduzido ao português por António Feliciano de Castilho. Edição em eBook. A reprodução integral da 2a. Edição de 1919 da Livraria Clássica Editora, de A. M. Teixeira. Lisboa.

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