O Estado de S. Paulo
A prescrição recomenda fugir das armadilhas
da repetição de erros, do desperdício das lições da História e da cegueira em
face da racionalidade
Há exatos 40 anos à disposição dos leitores,
o livro A Marcha da Insensatez: de Troia ao Vietnã, da historiadora
norteamericana Barbara W. Tuchman (1912-1989), porta mensagem atualíssima
àqueles que conduzem os destinos de nações e, também, àqueles com responsabilidades
sobre o fazer político-institucional. Sua análise centra-se no fato de que, ao
longo dos tempos, repetem-se ações governamentais que se voltam contra o
interesse dos próprios governos e de seus governados, numa prevalência da
insensatez sobre a prudência.
No livro, a autora pergunta: “Por que os detentores de altos cargos agem tantas vezes de forma contrária ao que a razão aponta e o interesse próprio esclarecido sugere?”. As repostas variam, conforme cada caso, mas o grande valor dessa abordagem é apontar que impulsos guiam, História afora, uma marcha da insensatez persistente e onipresente – e quiçá nos fazer enxergar nossa própria realidade; descobrir se também estamos na trilha dos insensatos (falta de racionalidade e bom senso), em vez de seguirmos na marcha da prudência (qualidade de quem age cautelosa e racionalmente para evitar más consequências dos seus próprios atos).
A atualidade tem motivos de sobra para
requerer prudência de seus líderes. Num tempo de mergulho radical na
digitalidade, extremismos vários desafiam os ideais e práticas
democrático-republicanos. A globalização acelerada, tal como até recentemente
testemunhamos, quando era fator de desinflação e de dinamismo ao redor do
planeta, virou coisa do passado. Não acredito em desglobalização, mas estamos
vivendo um tempo de rearranjo. Intrinsecamente conectada a tais movimento, está
a rivalidade entre EUA e China, uma disputa pela hegemonia mundial.
A covid-19, além de seus dramáticos impactos
humanos e sanitários, aprofundou desgastes nas engrenagens globalizantes,
desorganizando cadeias de suprimentos que energizavam a economia mundial e
gerando difusa onda inflacionária. Além disso, as guerras passaram a nublar o
cotidiano do planeta, com a invasão da Ucrânia pela Rússia e a escalada do
conflito no Oriente Médio. O crescimento populacional acarreta desafios para
alimentar o mundo, os quais são agravados pela convulsão climática. Em todo o
planeta, temos sofrido severos reveses ambientais, consequência de séculos de
descuidos com a natureza.
Sombreados direta e indiretamente por esses
fatores críticos, nós brasileiros precisamos ter sabedoria para enfrentar
problemas crônicos. É necessário investir na qualificação da educação básica,
avançar nas políticas e legislações relativas à segurança pública com foco no
combate ao crime organizado, além de enfrentar desmatamentos, grilagem e
garimpo ilegal em nossos biomas.
O Plano Real, que já percorreu mais de três
décadas, evidenciou a importância de uma moeda estável e as enormes conquistas
disso decorrentes. Nesse sentido, impõe-se dar a devida atenção à questão
fiscal. Não é possível ressuscitarmos a ideia de que gasto em constante
expansão é pressuposto de vitalidade socioeconômica, quando a realidade é
justamente o contrário, considerando que gastança gera mesmo é inflação e juros
altos – e que as maiores vítimas são os mais pobres.
Dessa agenda de prioridades deve figurar com
destaque a lição de que é inaceitável desperdiçar as oportunidades que se
apresentam. Um sinal reluzente são as que surgem face à urgência de combater a
convulsão climática e de reconfigurar o novo paradigma da economia verde.
A maior floresta tropical do mundo está em
nosso território, assim como a maior biodiversidade, além de concentrarmos 12%
das reservas de água doce do planeta. Nossa matriz energética já é 47%
renovável. Temos sol, vento e uma experiência notável com biomassa. Em síntese,
o Brasil pode ocupar posição singular na economia do clima.
Nessa caminhada, temos um robusto dever de
casa a ser feito. É importantíssimo investir em segurança jurídica e normativa,
abrangendo temas como tributação e agências reguladoras profissionalizadas,
evitando-se o risco de que regras possam mudar no meio do jogo. Até porque, se
por um lado temos potencial exuberante, por outro não dispomos de recursos
econômicos em abundância, como os EUA, a China e a União Europeia. Tal
limitação nos impõe a alternativa de valorizar como ninguém a segurança
jurídica, a boa regulamentação, de forma a atrair investimentos externos que
transformem nossas potencialidades em oportunidades.
Ou seja, neste início de ano, precisamos ter
clareza dos desafios a superar e oportunidades a aproveitar, evitando a marcha
da insensatez, tão bem descrita por Barbara Tuchman. Para tanto, a prescrição
recomenda fugir das armadilhas da repetição de erros antigos, do desperdício
das lições da História e da cegueira em face da racionalidade. Como recomendou
o pensador jesuíta Baltasar Gracián, conselheiro de estadistas e nobres, no seu
A Arte da Sabedoria Mundana, escrito lá no longínquo século 17, é preciso ousar,
mas “ousar com prudência”.
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