terça-feira, 10 de março de 2026

Tempestade perfeita se arma sobre o crime, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Carimbo de narcoterrorismo e aliança militar dos EUA com AL ameaçam atropelar a retranca do combate ao crime organizado no Brasil

O carimbo de narcoterrorismo que o governo americano estaria para colocar sobre o PCC e o CV e a aliança militar dos EUA com 12 países da América Latina contra o narcotráfico armam uma tempestade perfeita sobre o combate ao crime organizado no Brasil.

O promotor Lincoln Gakyia, que tem duas décadas de enfrentamento ao PCC, chegou a receber várias comitivas enviadas pelo secretário de Estado, Marco Rubio. De todas elas, ouviu que a decisão do governo americano estaria blindada de apelos no sentido contrário.

No governo brasileiro, sempre se soube que esta era a intenção dos EUA, que precede Donald Trump, mas, com ele, ganhou tração. Tanto que o Ministério da Justiça se pôs a fazer um centro internacional de treinamento, em Manaus, para os países amazônicos que se dispusessem a tratar o tema na esfera policial e não militar.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez mais de um relato público sobre seu pedido para que Trump enviasse informações sobre o que tem chamado de “magnatas do crime organizado”. O último deles aconteceu durante viagem à Índia, há menos de um mês: “Essa pessoa mora em Miami. Nós mandamos para o presidente Trump a fotografia da casa, o nome dele (...) É para combater o crime organizado? Então, nos entregue os nossos bandidos.”

O sujeito oculto desta frase é o empresário Ricardo Magro, dono da Refit e maior sonegador do Brasil. A dificuldade para que Lula tenha êxito no seu pedido antecede o vazamento da notícia de que as duas maiores grifes do crime organizado no Brasil podem ganhar o carimbo de narcoterroristas.

A aposta de que os EUA vão extraditá-lo ignora que não há sequer uma ordem de prisão no Brasil contra o empresário. Arthur Guimarães e Breno Pires mostraram, na última edição da Piauí, que Magro é dono de uma usina de processamento de gás natural no Texas, tem “green card” e faz triangulação para escamotear a importação de combustível da Rússia, país sancionado pelos EUA.

Não há nem sequer uma denúncia no Ministério Público de São Paulo ou do Paraná contra Magro e contra a dupla Beto Louco/Mohamad Mourad, da Copape. No Paraná, a Justiça Federal declinou da competência para Estadual, de onde não se esperam desdobramentos. Tampouco o Ministério Público Federal, para onde seguiram as apurações de envolvimento de autoridades com foro, se ocupou em denunciá-los.

Depois da queda de braço entre autoridades paulistas e federais pela paternidade das operações policiais de combate ao crime organizado e de lavagem de dinheiro do setor de combustíveis, que chegou a produzir coletivas de imprensa simultâneas em São Paulo e Brasília, a investida estancou pela retranca dos advogados no MP e no Judiciário. O caso, que um investigador com conhecimento de causa informa já estar a cargo de uma força-tarefa da Flórida, pode chegar a uma delação nos EUA antes que o faça no Brasil.

O Master arremata a tempestade perfeita. Seus vínculos com a lavagem de dinheiro do crime organizado mal começaram a ser esquadrinhados. Investigadores registram o descontentamento dos cabeças da Carbono Oculto com administradores da Reag ao serem informados de que valores de sua operação confiados ao fundo teriam ido parar no banco.

A frouxidão desses canais, que passou por baixo das pernas do Banco Central e da Comissão de Valores Imobiliários, serviu a operadores alavancados do mercado e à lavagem de dinheiro. Os meandros desta vinculação permanecem em arquivos que, ao contrário daqueles que expuseram as noitadas de Daniel Vorcaro, permanecem trancados pela Polícia Federal.

O que se sabe é que para um grupo como a Refit, que deve R$ 23 bilhões aos cofres públicos, permanecer em operação é porque trafega pelas instituições judiciais e de controle com a mesma fluidez com a qual o Master esticou a corda até chegar no rombo de R$ 60 bilhões do FGC.

Se o Master contratou o escritório da família do ministro Alexandre de Moraes, a Refit foi buscar o advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques, para defender a empresa no TRF1. No Congresso, Refit, Copape e Master partilham os mesmos operadores no Centrão.

Esta retranca corre o risco de ser atropelada pelo governo americano se o Itamaraty e, no limite, Lula, num encontro ainda sem data com Trump, não forem capazes de reverter o carimbo de narcoterrorismo.

No limite, ações de sequestro, como a de Nicolás Maduro, foram respaldadas pela classificação de narcoterrorista do Tren de Arágua. O cartel parece ter deixado de preocupar os EUA tão logo o petróleo venezuelano começou a abastecer livremente as refinarias americanas. Não há parâmetro de comparação com o Brasil, mas um investigador se indaga sobre o limite dos EUA se, por exemplo, o PCC ou o CV retaliasse contra integrante do corpo diplomático americano.

Ex-procurador-geral de Justiça de São Paulo e ex-secretário de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Mário Sarrubbo não apenas não descarta que os EUA levem a cabo sua intenção como vê uma afronta à soberania de clara motivação política.

Dificilmente a campanha eleitoral passaria incólume. Ao se confrontar com a iniciativa, Lula corre o risco de ser acusado de estar ao lado do PCC enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defenderá o carimbo como sempre o fez. Se química há entre Lula e Trump, terá que se mostrar capaz de evitar a combustão.

 

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