Valor Econômico
Carimbo de narcoterrorismo e aliança militar
dos EUA com AL ameaçam atropelar a retranca do combate ao crime organizado no
Brasil
O carimbo de narcoterrorismo que o governo
americano estaria para colocar sobre o PCC e o CV e a aliança militar dos EUA
com 12 países da América Latina contra o narcotráfico armam uma tempestade
perfeita sobre o combate ao crime organizado no Brasil.
O promotor Lincoln Gakyia, que tem duas
décadas de enfrentamento ao PCC, chegou a receber várias comitivas enviadas
pelo secretário de Estado, Marco Rubio. De todas elas, ouviu que a decisão do
governo americano estaria blindada de apelos no sentido contrário.
No governo brasileiro, sempre se soube que esta era a intenção dos EUA, que precede Donald Trump, mas, com ele, ganhou tração. Tanto que o Ministério da Justiça se pôs a fazer um centro internacional de treinamento, em Manaus, para os países amazônicos que se dispusessem a tratar o tema na esfera policial e não militar.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez
mais de um relato público sobre seu pedido para que Trump enviasse informações
sobre o que tem chamado de “magnatas do crime organizado”. O último deles
aconteceu durante viagem à Índia, há menos de um mês: “Essa pessoa mora em
Miami. Nós mandamos para o presidente Trump a fotografia da casa, o nome dele
(...) É para combater o crime organizado? Então, nos entregue os nossos
bandidos.”
O sujeito oculto desta frase é o empresário
Ricardo Magro, dono da Refit e maior sonegador do Brasil. A dificuldade para
que Lula tenha êxito no seu pedido antecede o vazamento da notícia de que as
duas maiores grifes do crime organizado no Brasil podem ganhar o carimbo de
narcoterroristas.
A aposta de que os EUA vão extraditá-lo
ignora que não há sequer uma ordem de prisão no Brasil contra o empresário.
Arthur Guimarães e Breno Pires mostraram, na última edição da Piauí, que Magro
é dono de uma usina de processamento de gás natural no Texas, tem “green card”
e faz triangulação para escamotear a importação de combustível da Rússia, país
sancionado pelos EUA.
Não há nem sequer uma denúncia no Ministério
Público de São Paulo ou do Paraná contra Magro e contra a dupla Beto
Louco/Mohamad Mourad, da Copape. No Paraná, a Justiça Federal declinou da
competência para Estadual, de onde não se esperam desdobramentos. Tampouco o
Ministério Público Federal, para onde seguiram as apurações de envolvimento de
autoridades com foro, se ocupou em denunciá-los.
Depois da queda de braço entre autoridades
paulistas e federais pela paternidade das operações policiais de combate ao
crime organizado e de lavagem de dinheiro do setor de combustíveis, que chegou
a produzir coletivas de imprensa simultâneas em São Paulo e Brasília, a
investida estancou pela retranca dos advogados no MP e no Judiciário. O caso,
que um investigador com conhecimento de causa informa já estar a cargo de uma
força-tarefa da Flórida, pode chegar a uma delação nos EUA antes que o faça no
Brasil.
O Master arremata a tempestade perfeita. Seus
vínculos com a lavagem de dinheiro do crime organizado mal começaram a ser
esquadrinhados. Investigadores registram o descontentamento dos cabeças da
Carbono Oculto com administradores da Reag ao serem informados de que valores
de sua operação confiados ao fundo teriam ido parar no banco.
A frouxidão desses canais, que passou por
baixo das pernas do Banco Central e da Comissão de Valores Imobiliários, serviu
a operadores alavancados do mercado e à lavagem de dinheiro. Os meandros desta
vinculação permanecem em arquivos que, ao contrário daqueles que expuseram as
noitadas de Daniel Vorcaro, permanecem trancados pela Polícia Federal.
O que se sabe é que para um grupo como a Refit,
que deve R$ 23 bilhões aos cofres públicos, permanecer em operação é porque
trafega pelas instituições judiciais e de controle com a mesma fluidez com a
qual o Master esticou a corda até chegar no rombo de R$ 60 bilhões do FGC.
Se o Master contratou o escritório da família
do ministro Alexandre de Moraes, a Refit foi buscar o advogado Kevin de
Carvalho Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques, para defender a
empresa no TRF1. No Congresso, Refit, Copape e Master partilham os mesmos
operadores no Centrão.
Esta retranca corre o risco de ser atropelada
pelo governo americano se o Itamaraty e, no limite, Lula, num encontro ainda
sem data com Trump, não forem capazes de reverter o carimbo de narcoterrorismo.
No limite, ações de sequestro, como a de Nicolás
Maduro, foram respaldadas pela classificação de narcoterrorista do Tren de
Arágua. O cartel parece ter deixado de preocupar os EUA tão logo o petróleo
venezuelano começou a abastecer livremente as refinarias americanas. Não há
parâmetro de comparação com o Brasil, mas um investigador se indaga sobre o
limite dos EUA se, por exemplo, o PCC ou o CV retaliasse contra integrante do
corpo diplomático americano.
Ex-procurador-geral de Justiça de São Paulo e
ex-secretário de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Mário Sarrubbo não
apenas não descarta que os EUA levem a cabo sua intenção como vê uma afronta à
soberania de clara motivação política.
Dificilmente a campanha eleitoral passaria
incólume. Ao se confrontar com a iniciativa, Lula corre o risco de ser acusado
de estar ao lado do PCC enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defenderá o
carimbo como sempre o fez. Se química há entre Lula e Trump, terá que se
mostrar capaz de evitar a combustão.

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