terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Regras para criar novos municípios precisam ser rígidas

Por O Globo

Nada há de errado em distritos se emanciparem, mas eles não podem se tornar sorvedouros de recursos

É compreensível que certas localidades se queixem de ficar esquecidas pelas prefeituras responsáveis por elas, apesar de contribuírem com impostos e recursos. Essa insatisfação tem sido traduzida em centenas de movimentos de emancipação em diferentes regiões do país. Pelo menos 462 distritos em 17 estados reivindicam o direito de se tornar independentes, como mostrou reportagem do GLOBO. É preciso cautela, porém, para que tais aspirações não criem uma nova leva de emancipações, dando origem a cidades que mal conseguem se sustentar. O Brasil já viveu uma onda de criação de municípios, e o resultado deixa sequelas até hoje nas contas públicas.

O movimento emancipacionista tem ganhado força principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Em Rondônia, os distritos de Vista Alegre do Abunã, Extrema de Rondônia, Nova Califórnia, União Bandeirantes, Abunã e Rio Pardo tentam se emancipar da capital, Porto Velho. Lideranças locais enumeram problemas como dificuldades para obter atendimento médico (o deslocamento até a unidade mais próxima pode levar mais de 24 horas de barco) ou para conseguir postes de iluminação pública. São questões importantes, sem dúvida, mas há outros critérios a considerar.

Um levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro divulgado em setembro do ano passado mostra que 25% dos municípios brasileiros não geram riqueza suficiente para se sustentar. Para manter as estruturas da Prefeitura e da Câmara de Vereadores, dependem de repasses do Fundo de Participação dos Municípios. O estudo mostrou também que em mais da metade (52,8%) o índice de autonomia financeira é crítico.

Elaborada depois de mais de duas décadas de ditadura, a Constituição de 1988 facilitou a criação de novos municípios. Havia demanda reprimida, e a Carta abriu caminho a uma profusão de emancipações, nem todas fiscalmente viáveis. Entre 1988 e 1996, foram criados 1,5 mil municípios, em muitos casos para atender apenas a anseios políticos (o país tem hoje 5.570). Em 1996, a Emenda Constitucional 15 pôs um freio à proliferação municipal, ao restringir a autonomia dos estados para legislar sobre o tema. Mesmo assim, grupos de pressão tentaram afrouxar as regras. Em 2014, a então presidente Dilma Rousseff vetou um projeto que criaria 200 novos municípios.

Movimentos emancipacionistas têm pressionado o Congresso a levar a votação um projeto que regulamenta emancipações, fusões e incorporações de cidades. Diferentemente do que aconteceu nos anos 1990, o texto impõe regras mais rígidas. Uma das exigências é haver população mínima para a futura cidade (6 mil no Norte e no Centro-Oeste, 12 mil no Nordeste e 20 mil no Sudeste e no Sul). A cidade-mãe também não poderá ter população inferior. Os novos municípios deverão ter arrecadação própria, além das transferências federal e estadual.

Seria desejável que o Congresso estabelecesse normas mais rígidas para as emancipações, sem ceder às pressões. Nada há de errado em um distrito querer se emancipar para se desenvolver. Há casos bem-sucedidos. Mas os critérios não podem ser políticos, precisam ser estritamente técnicos. A pergunta fundamental é: a nova cidade conseguirá se sustentar ou será mais uma estrutura burocrática, partilhada entre apaniguados, dependente de repasses da União para sustentá-los?

Com duas vacinas, 2026 abre cenário positivo no enfrentamento da dengue

Por O Globo

Efeito não será imediato, e outros métodos de combate ao mosquito são necessários, mas perspectiva é positiva

O ano de 2026 poderá representar uma virada na luta das autoridades de saúde contra o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. O Brasil contará pela primeira vez com duas vacinas para combater a doença. Uma é a Qdenga, da farmacêutica japonesa Takeda, em uso no país desde 2024, embora de forma restrita. A outra é a Butantan-DV, do Instituto Butantan, primeira do mundo em dose única, aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no fim de novembro. Ainda que não esteja prevista produção em larga escala das duas, elas tendem a tornar a perspectiva mais favorável do que tem sido.

A dengue é uma doença que há décadas desafia o país, devido ao grande número de casos (especialmente nos períodos quentes e chuvosos) e às formas graves, que muitas vezes sobrecarregam as unidades de saúde. Nos últimos anos, os registros têm se mantido acima de 1 milhão, nível preocupante. Em 2024, bateram o recorde, chegando a 6,6 milhões de notificações e 6,3 mil mortes. É verdade que houve uma redução significativa em 2025, com 1,65 milhão de casos e perto de 1,8 mil mortes, mas a situação está longe de controlada.

A Qdenga, que começou a ser aplicada no Brasil em janeiro de 2024, obteve impacto restrito devido aos gargalos de produção. Com estoques limitados, o Ministério da Saúde decidiu usá-la apenas na faixa de 10 a 14 anos (ampliada ocasionalmente quando as doses estão perto do vencimento), mesmo assim apenas nos municípios com maior incidência da doença. A expectativa da farmacêutica é ampliar a produção nos próximos anos. “Vamos passar de basicamente 9 milhões de doses, no primeiro ano de lançamento, para 100 milhões de doses por ano em 2030”, disse em entrevista ao GLOBO Derek Wallace, executivo da Takeda. “O Brasil é um país muito grande. Definitivamente há espaço para duas vacinas contra a dengue.” O Ministério da Saúde encomendou 9 milhões de doses da Qdenga para este ano e outros 9 milhões para 2027.

A vacina do Butantan também não atenderá de imediato às demandas do país. De acordo com a estratégia definida pelo Ministério da Saúde, o estoque de 1,3 milhão que já estava pronto antes da aprovação pela Anvisa será usado em profissionais de atenção primária. À medida que a produção for aumentando, novos públicos serão contemplados.

Devido aos desafios de produção em larga escala, é improvável que os estoques das duas vacinas consigam suprir, num primeiro momento, a demanda estimada em 140 milhões de doses. Além disso, elas não são indicadas para quem tem 60 anos ou mais. A população não poderá, portanto, relaxar nos velhos métodos de combate aos focos do mosquito. As vacinas não trarão uma solução definitiva, e diversas outras tecnologias serão necessárias, como o desenvolvimento de espécies do Aedes geneticamente modificadas capazes de deter a transmissão. Mas, mesmo com todas essas ressalvas, o país certamente terá um arsenal mais poderoso para enfrentar a batalha.

Volta da Venezuela à democracia é cercada de incerteza

Por Folha de S. Paulo

Novo governo deveria partir de eleições competitivas, mas Trump se arvora a conduzir transição sem prazo

A população se vê livre do ditador, não da ditadura; trata-se de estrutura de poder que corrompe as instituições há mais de duas décadas

Consumado o irremediável ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela e ao direito internacional, o único desdobramento digno de celebração seria o restabelecimento da democracia no país vizinho. Esse caminho ainda está cercado de incertezas, contudo.

Pode-se especular acerca das motivações de Donald Trump para seu intervencionismo armado —o pretexto do combate ao narcoterrorismo, a doutrina geopolítica para a América Latina, os interesses no petróleo, o agrado à plateia conservadora americana. Nada indica, até o momento, maiores preocupações com o Estado democrático de Direito.

No triunfalismo da entrevista de sábado (3), o republicano anunciou que os EUA administrarão a Venezuela, sabe-se lá como, até uma "transição apropriada". "Não queremos que outra pessoa assuma o poder de maneira imprudente", arvorou-se a dizer, como se fosse o condutor dos destinos da nação. Já no dia seguinte falava em estender seu arbítrio à Colômbia e à Groenlândia.

Idealmente, um novo governo deveria ser estabelecido em Caracas a partir de eleições livres e plenamente competitivas, à diferença dos simulacros promovidos pela decrépita ditadura de Nicolás Maduro. Desde já, as liberdades de imprensa e manifestações poderiam ser retomadas, e as prisões políticas, anuladas.

Entretanto nem mesmo se conhece a natureza do regime ora em vigor no país. A vice de Maduro, Delcy Rodríguez, assumiu o poder interinamente com o aparente consentimento —ou sob a tutela— de Trump. Nesta segunda (5), ela deixou de lado a retórica de enfrentamento do fim de semana e falou em "relação respeitosa e equilibrada" com os EUA.

A Constituição chavista prevê que, em caso de "falta absoluta" do presidente, novas eleições devem ser convocadas em 30 dias. Até aqui, não há indicação de que esse procedimento será adotado, e não é difícil imaginar que o regime possa interpretar o dispositivo conforme seus interesses na atual situação excepcional.

A oposição venezuelana, encabeçada pela Nobel da Paz María Corina Machado, prefere que seja proclamada a vitória de Edmundo González no pleito presidencial de julho de 2024, descaradamente fraudado em favor de Maduro. Mas, embora os EUA já tenham reconhecido González como presidente eleito, Trump descartou colocar Corina à frente da prometida transição.

Dessa forma, a Venezuela se vê livre do ditador, mas não ainda da ditadura. Trata-se de uma estrutura de poder que corrompeu as instituições do país desde o início do primeiro governo de Hugo Chávez, no longínquo 1999, e está alastrada por Legislativo, Judiciário e Forças Armadas.

Os esforços da comunidade internacional devem ter como norte devolver a cidadania a uma população que, sob um regime aplaudido pela esquerda continental, viveu uma tragédia econômica e social comparável à de nações em guerra prolongada.

Mais técnica e menos ideologia para alterar a Lei de Drogas

Por Folha de S. Paulo

Desde que o Supremo descriminalizou o uso pessoal de maconha, Congresso reage com projetos linha-dura

Parlamentares deveriam se basear em evidências, em vez de colocarem a guerra cultural acima da saúde e da segurança dos cidadãos

Os embates entre Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal (STF) na área dos costumes são temerários, dado que problemas que deveriam ser tratados com racionalidade em setores cruciais, como a saúde, viram joguetes na guerra cultural incitada pela polarização política.

Considerando evidências científicas, experiências internacionais e o sistema de freios e contrapesos, esta Folha defende que o uso recreativo de drogas leves como a maconha deveria ser legalizado e que mudanças na legislação vigente sobre o tema cabem idealmente ao Congresso.

Em junho 2024, o Supremo decidiu que parte da Lei de Drogas (2006) é inconstitucional e que o porte de maconha para uso pessoal não constitui crime.

Mas, apesar de o mérito da proteção das liberdades individuais que respaldou a medida estar correto, a corte invadiu a seara do Legislativo ao fixar o montante de até 40 gramas da planta para distinguir usuários de traficantes —ainda que a falta de objetividade do diploma de 2006 nessa diferenciação gere graves distorções.

Mesmo antes da decisão, o julgamento já havia ensejado reação de parlamentares. Em setembro de 2023, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), então presidente do Senado, apresentou uma proposta de emenda à Constituição insensata que coloca no texto da Carta a criminalização de posse e porte de qualquer droga, independentemente da quantidade —como já previa a lei em vigor na época.

A PEC foi aprovada na Casa em abril de 2024 e, em junho, na Comissão de Constituição de Justiça da Câmara. Felizmente, dado o acúmulo de embates entre os três Poderes desde lá, além da pressão de especialistas e de movimentos sociais, o texto está parado. Em ano de eleição, tem mínimas chances de ser apreciado e, provavelmente, será engavetado.

Mas a reação não terminou aí. Levantamento deste jornal mostra que, de setembro de 2023 a 17 de dezembro de 2025, foram apresentadas 60 propostas sobre drogas na Câmara e 17 no Senado.

Muitas delas visam endurecer as normas, elevando penas, dificultando o reconhecimento de tráfico privilegiado (quando o investigado não tem relação com facção e possui bons antecedentes) ou impossibilitando acordos de não persecução penal.

É de lamentar que parlamentares se recusem a tratar o uso de drogas de forma responsável, com abordagem técnica em vez de ideológica. Saúde e segurança pública encabeçam as preocupações da população, como mostra o Datafolha, e merecem debate qualificado em vez de discursos simplistas e enganosos.

A conta da ideologia petista

Por O Estado de S. Paulo

Deposição de Maduro expõe as contradições da política externa de Lula, marcada por anos de complacência com a ditadura chavista e agora premida pela necessidade de preservar a relação com os EUA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva colhe os frutos de uma política externa mais orientada por afinidades ideológicas do que por princípios democráticos e valores universais, como a defesa dos direitos humanos. A queda de Nicolás Maduro, deposto por uma ação militar dos EUA, colocou o chefe de Estado e de governo brasileiro diante de um dilema que ele próprio ajudou a construir: como condenar uma flagrante violação do Direito Internacional sem despertar a ira de Washington e, ao mesmo tempo, sem ter de prestar contas pelo apoio político a uma das mais brutais ditaduras do continente?

A reação inicial de Lula à captura de Maduro foi reveladora. Em postagem nas redes sociais, o petista criticou o método empregado pelo presidente Donald Trump, evitando cuidadosamente mencionar o nome do antigo “companheiro”. A cautela é compreensível. Em ano eleitoral no Brasil e nos EUA, Trump não hesitará em transformar eventuais divergências externas em instrumentos de pressão, inclusive por meio de novas rodadas de sanções econômicas ou políticas. O problema é que o cálculo estratégico de Lula não tem o condão de apagar um passado marcado por complacência, quando não por endosso, ao regime chavista.

A despeito de o Brasil não ter sido determinante, sob as perspectivas militar e econômica, para sustentação de Maduro – papel desempenhado pela China e pela Rússia –, os governos lulopetistas foram esteios do regime na esfera política ao oferecer respaldo simbólico à ditadura que arruinou a Venezuela. Como líder da potência regional, Lula sempre relativizou a repressão violenta aos dissidentes, a destruição institucional do país, a debacle econômica e o êxodo de milhões de venezuelanos, compondo um constrangedor coro regional de solidariedade a um regime que há muito já não escondia seu vezo autoritário.

Após a fraude na eleição de 2024, atestada por instituições insuspeitas, como o Centro Carter, o Brasil limitou-se a um distanciamento protocolar. O petista chegou a ser humilhado pelo ditador que apoiou por anos. Maduro, convém lembrar, não só atacou a lisura do sistema eleitoral brasileiro, como ainda recomendou que Lula tomasse um “chá de camomila” depois de o presidente brasileiro ter dito que ficou “assustado” ao ouvir Maduro dizer que, caso ele perdesse a eleição, haveria um “banho de sangue” na Venezuela. Ainda assim, a ambiguidade prevaleceu. Em janeiro de 2025, quando Maduro assumiu um mandato ilegítimo, Lula não compareceu ao simulacro de posse, mas enviou uma representante diplomática, gesto que acabou por legitimar, na prática, um governo nascido da fraude e da força.

Recorde-se ainda que, nos primeiros meses de seu terceiro mandato, Lula estendeu o tapete vermelho para Maduro em Brasília. Em declarações públicas, o petista relativizou o conceito de democracia, chegando a afirmar que a Venezuela, ora vejam, teria “mais eleições do que o Brasil”. Em outra vergonhosa passagem, Lula disse haver “excesso de democracia” no país vizinho. São declarações que não resistem ao contraste com a realidade factual e revelam a visão instrumental que Lula e o PT têm da democracia – tolerável apenas quando serve aos propósitos de aliados ideológicos.

Lula agora tenta se equilibrar entre a crítica ao atropelo das normas internacionais, o que de fato ocorreu, e a necessidade de preservar a aproximação com Trump, que culminou na suspensão do tarifaço imposto ao Brasil e no fim de sanções aplicadas a autoridades brasileiras. A dificuldade, para o presidente brasileiro, é disfarçar altivez depois de anos de alinhamento político com a ditadura chavista.

Lula terá de fazer muito mais do que publicar notas genéricas sobre soberania e autodeterminação dos povos. Precisará reconhecer, explicitamente, os erros de uma política externa que deliberadamente fechou os olhos para a barbárie ao lado em nome da afinidade ideológica com o chavismo. A democracia não é um conceito “relativo” nem jamais foi “excessiva” na Venezuela – muito ao contrário. Enquanto não o fizer, Lula seguirá refém de suas contradições, pagando o preço político e moral da cumplicidade histórica com uma das maiores tragédias humanitárias da América Latina.

A Previdência está envelhecendo mal

Por O Estado de S. Paulo

O envelhecimento pressiona sistemas previdenciários no mundo inteiro. O Brasil enfrenta o choque com baixa produtividade, informalidade alta e escolhas fiscais que agravam o rombo

O mundo envelhece em silêncio, mas os números gritam. O que era mera estatística demográfica tornou-se uma força econômica capaz de reordenar orçamentos, sistemas de saúde e modelos de bem-estar. O Panorama das Pensões, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – um fórum de democracias desenvolvidas –, expõe um nó que se aperta em todas as direções: fertilidade baixa, longevidade alta e dívidas crescentes comprimem o espaço fiscal antes que governos decidam como pagar a conta.

Quase todos os países da OCDE operam abaixo do nível de reposição populacional; a expectativa de vida ampliou décadas de pagamento de benefícios; e o contingente em idade ativa se contrai enquanto a população idosa explode. A proporção de pessoas acima de 65 anos crescerá mais rapidamente na próxima década do que em qualquer período da história moderna, desafiando modelos previdenciários concebidos para um mundo mais jovem e mais estável.

Previdência, saúde e cuidados de longa duração competem por um orçamento já sufocado por juros altos. Muitos países tentam respostas automáticas: idades mínimas vinculadas à expectativa de vida, exigências maiores de contribuição, bônus para adiar a aposentadoria. Ainda assim, o ritmo da transição demográfica ameaça ultrapassar esses mecanismos antes que amadureçam.

Mercados de trabalho fragmentados – com mais trabalhadores atípicos, carreiras de mulheres interrompidas e famílias com dependentes – dificultam contribuições estáveis. A desigualdade entre grupos tende a aumentar se subsídios, pisos e créditos de contribuição não forem redesenhados. A combinação de envelhecimento acelerado com orçamentos comprimidos pede sistemas previdenciários mais simples, realistas e neutros.

Se o desafio global já exige coragem, o brasileiro exige ainda mais lucidez. O Brasil vive o mesmo drama em condições piores: produtividade baixa, informalidade persistente, escolaridade frágil e um arranjo previdenciário historicamente generoso, desigual e politicamente difícil de reformar.

É um país que envelhece antes de enriquecer. A população ativa começará a encolher antes de atingirmos padrão elevado de renda. O bônus demográfico foi desperdiçado. Em pouco mais de uma década, o número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu quase 60% e seguirá aumentando. O futuro chegou cedo – e nos encontrou despreparados.

O sistema que deveria amortecer o choque tornou-se parte do problema. A reforma de 2019 retardou o colapso, mas não o evitou. Informalidade alta, privilégios setoriais, contribuições simbólicas de microempreendedores, piso atrelado ao salário mínimo e uso da Previdência para compensar desigualdades históricas criaram um modelo caro e regressivo. Concentramos grande parte do gasto social nos idosos e relativamente pouco na infância – o oposto do recomendável para sociedades sustentáveis.

As escolhas políticas aprofundam o desarranjo. A valorização real permanente do salário mínimo eleva automaticamente o custo dos benefícios. O BPC cresce rápido. Revisões de benefícios são paliativas diante de um déficit na casa dos R$ 400 bilhões. A base de contribuintes encolhe enquanto o número de beneficiários dispara – uma equação impossível de fechar.

A saída é dura, mas conhecida. Aposentadoria atrelada à expectativa de vida; eliminação de privilégios; desvinculação do salário mínimo; incentivos para prolongar a vida laboral; redesenho do MEI; revisão da aposentadoria rural. Paralelamente, combater a informalidade e ampliar a base contributiva são precondições para qualquer ajuste duradouro.

Nada disso funcionará sem um pacto intergeracional. É preciso proteger idosos pobres sem permitir que o orçamento do passado devore o orçamento do futuro. Investir maciçamente em primeira infância e educação é a única forma de elevar produtividade, renda e capacidade fiscal. Envelhecer não deveria significar empobrecer.

A demografia só vira destino quando governos se recusam a governar. Envelhecer não é o problema. O problema é envelhecer mal. O Brasil está ficando velho depressa demais para continuar imaturo na política.

Alerta contra o sarampo

Por O Estado de S. Paulo

Temporada de cruzeiros de verão eleva preocupação com a enfermidade em São Paulo

Em plena temporada 2025/2026 de cruzeiros de verão, a Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo emitiu alerta sobre a importância da vacinação contra o sarampo para viajantes, tripulantes e profissionais que atuam em portos.

A recomendação é relevante porque nos últimos anos o Brasil tem ganhado e perdido a certificação de país livre do sarampo, doença infecciosa transmitida pelo ar que acomete, sobretudo, crianças.

Em 2024, o País reconquistou o status de nação livre da enfermidade concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS), que originalmente havia recebido em 2016. Mas um período de baixa cobertura vacinal fez com que o país perdesse tão importante conquista em 2019.

Para evitar sofrer esse revés novamente, ainda mais em um momento de surtos de sarampo em países como os EUA, iniciativas como a recomendação que visa os cruzeiros são fundamentais.

Como se sabe, ambientes fechados e com grande circulação de pessoas, como navios de turismo, favorecem o espalhamento de doenças infecciosas como o sarampo. De acordo com a Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (Clia Brasil), mais de 670 mil viajantes devem embarcar em cruzeiros pelo Brasil na atual temporada.

Como muitos turistas e tripulantes de cruzeiros são de países estrangeiros, e como todos os casos de sarampo registrados em São Paulo em 2025 são importados, o alerta emitido pelo governo estadual ganha ainda mais relevância.

Embora não haja tratamento específico para o sarampo, que pode levar a complicações graves como cegueira, encefalite e, nos piores casos, à morte, a vacinação é extremamente eficaz na prevenção da doença.

De acordo com a Opas/OMS, entre 2000 e 2023 a vacina contra o sarampo evitou 6,2 milhões de mortes nas Américas. No mundo, desde 1974, as mortes evitadas pela vacina somaram 93,7 milhões.

Infelizmente, porém, seja por não acreditarem nos riscos de doenças como sarampo, caxumba e rubéola, cuja prevenção se dá por meio da vacina tríplice viral, ou porque foram seduzidas por informações falsas promovidas por movimentos antivacina, pessoas no mundo todo vêm descuidando da imunização. Por essa razão, doenças erradicáveis como o próprio sarampo, e até mesmo a pólio, voltam a surgir em diferentes lugares do mundo.

A desinformação, por vezes, é promovida até mesmo por quem deveria combatê-la, caso do secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., que vem cancelando investimentos para o desenvolvimento de imunizantes em seu país, além de remover algumas vacinas do calendário vacinal norte-americano.

No Brasil, de longa tradição de adesão da população às vacinas, campanhas permanentes de informação, busca ativa e ações direcionadas, como essa promovida pela Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo, são um imperativo.

Vacinas, como se sabe, salvam vidas. Imunizar-se é um ato de cidadania, que impede que doenças com potencial letal se desenvolvam entre todos nós. Oxalá o Brasil não volte ao mapa do sarampo mais uma vez.

Brasil precisa abraçar a destruição criativa

Por Valor Econômico

O Brasil possui um grande número de empresas-zumbi, improdutivas e endividadas, que não investem e afetam a economia como um todo

Em um momento em que o Brasil volta a atrair a atenção do mundo por suas reservas de minerais críticos — uma janela de oportunidade para o país se inserir nas cadeias globais de valor —, é imperativo que o país crie um entorno propício para melhorar o ambiente de negócios e atrair investimentos. Mas, para isso, precisa permitir a destruição criativa, um processo disruptivo, com empresas entrando e saindo do mercado e competindo entre si, gerando crescimento econômico no processo, como mostram os trabalhos dos vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2025.

O Brasil é o país com a maior parcela das chamadas empresas-zumbi em uma comparação entre 25 economias emergentes, um fenômeno que reflete problemas de gestão das empresas brasileiras e fraca proteção aos credores, e que contribui para a baixa produtividade do trabalhador local. As empresas-zumbi são empresa improdutivas, que não só se endividam como têm dificuldade para gerar lucro e continuam operando a despeito de serem improdutivas. Por investirem menos, isso afeta a economia como um todo.

O recente estudo “Brasil: o coração da economia-zumbi nos mercados emergentes”, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mostra que 16,75% das empresas no país são “zumbis”, mais de duas vezes a média de 7,58% dos 25 países emergentes pesquisados e bem à frente da Turquia, que ocupa o segundo lugar no ranking, com 13,75%. Os dados do estudo destacam a persistência de empresas financeiramente frágeis no mercado brasileiro e a maior prevalência de empresas-zumbi durante os períodos pós-crise. É verdade que o Brasil não está sozinho: as empresas-zumbi seguem uma tendência global crescente, um fenômeno generalizado em praticamente todos os países analisados. Em 2005, a fração de zumbis, em relação ao número total de empresas listadas, era de 4,55%, essa fração atingiu 8,65% em 2016. O crescimento das empresas-zumbi foi mais rápido em países desenvolvidos do que em países de baixa e média renda — refletindo o maior apoio dado pelos países mais ricos após períodos de crise, como o estouro da bolha da internet, a crise financeira internacional 2007-2008 e a pandemia da covid-19.

Durante a década perdida da economia japonesa nos anos 90, o termo zumbi descrevia as empresas que sobreviviam graças a crédito barato, que restringia correções do mercado e afetava a produtividade. No Brasil, é o juro alto que torna o terreno fértil para as empresas-zumbi, pois encarece o financiamento e a entrada de novos players no mercado. Em 2025, por exemplo, estima-se que os investimentos em startups brasileiras alcançaram US$ 4,3 bilhões (R$ 24 bilhões), uma queda de 17% em relação ao aporte de US$ 5,2 bilhões (R$ 29 bilhões) registrado em 2024 (Valor, 2 de janeiro). Essa queda foi atribuída ao juro real de quase 10% — o segundo mais elevado do mundo, atrás apenas da Turquia —, que torna os investimentos em renda fixa mais atrativos e seguros.

Outro problema do Brasil é o baixo índice de execução de dívidas, o que ajuda a dar sobrevida às empresas-zumbi. Muitas instituições financeiras renovam dívidas de empresas inviáveis para evitar o reconhecimento de perdas e, com isso, acabam prolongando artificialmente a vida das empresas-zumbi. Essa dinâmica perniciosa compromete os investimentos, pois eleva os custos financeiros ao distorcer a alocação de capital, ao mesmo tempo em que fragiliza a competitividade — reduzindo a eficiência setorial e a resiliência da economia brasileira.

A solução para o problema passa pela redução da taxa de juros e pela reavaliação da Lei de Falências brasileira. É preciso colocar incentivos para que as partes interessadas possam executar as sua dívidas, em vez de prolongá-las. Em outras palavras, é preciso permitir a falência (destruição) de empresas insolventes, ineficientes e sem competitividade para liberar recursos (crédito) e espaço para novas empresas, inovadoras, criativas e eficientes, em um processo que gera dinamismo e crescimento econômico.

O conceito de destruição criadora ou criativa foi cunhado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter nos anos 1940, mas foi retomado e comprovado pelos economistas Philippe Aghion e Peter Howitt, laureados com o Nobel de Economia em 2025, “pela teoria de crescimento econômico sustentado pela destruição criativa”. Em artigo de 1992, os dois produziram um modelo matemático para explicar como se dá o processo de destruição criadora, no qual novas tecnologias para produtos e processos surgem e substituem — ou destroem — as antigas, e seus efeitos na economia.

Empresas que inovam estimulam o desenvolvimento econômico na sociedade. Porém, a sociedade precisa criar mecanismos para minimizar os efeitos negativos da destruição, como investir na capacitação dos trabalhadores para as novas habilidades exigidas pela inovação, como forma de reduzir a resistência. Para isso, é necessária uma “sintonia fina” entre a necessidade de concorrência no setor privado e a intervenção do Estado, para garantir que quem inova não está bloqueando outras empresas e que esse desenvolvimento econômico seja o maior e o mais inclusivo possível. É preciso ter equilíbrio entre competição e intervenção. Mas para se chegar a esse ponto, o Brasil, primeiro, precisa desligar os aparelhos que sustentam as empresas-zumbi.

Ofensiva contra a Venezuela chega às eleições brasileiras

Por Correio Braziliense

É imprescindível que o debate interno sobre a ofensiva na Venezuela — que precisa ser feito — não se limite à lógica rasa do "nós contra eles"

A prisão do presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, na madrugada de sábado último, é mais um elemento que divide opiniões na sociedade brasileira, provoca  polêmica no cenário político e estará presente nos embates da disputa eleitoral deste ano. Presidenciáveis trataram de marcar posição assim que saiu a notícia de que o venezuelano tinha sido tirado de casa pelas forças americanas. Antes mesmo do posicionamento oficial do Brasil, a guerra de interpretações ganhava as redes sociais.

Para os que se identificam como de direita, a decisão de Donald Trump foi acertada e livrou os venezuelanos da ditadura bolivariana, do narcoterrorismo, da corrupção e das restrições da liberdade dos cidadãos do país vizinho.  No campo da esquerda, a ofensiva foi entendida como uma afronta à soberania do país vizinho, independentemente das suspeitas que pairam sobre Maduro. Trata-se de desrespeito à legislação internacional. Hoje, os EUA decidiram atacar a Venezuela; amanhã, a mesma atitude poderá se repetir contra outro país da região cuja política desagrade ao presidente Donald Trump.

O comportamento pouco protocolar do republicano de certa forma alimenta as leituras conflitantes e a troca de acusações que surge a partir delas, mas é imprescindível que o debate interno sobre a ofensiva na Venezuela — que precisa ser feito — não se limite à lógica rasa do "nós contra eles" e, ainda, acabe por comprometer o tratamento esperado para outros temas considerados essenciais para a população.

Um deles é  conter o aumento da violência, praticada tanto pelos grupos organizados, com tentáculos que cada vez mais extrapolam as fronteiras, quanto por agressores domésticos, que têm como alvo, principalmente, as mulheres e os negros. A crise ambiental, a redução das desigualdades, os deficits públicos crescentes e os desafios do envelhecimento populacional também deveriam estar entre as prioridades. 

Na avaliação de Manuel Furriela,  professor de relações internacionais e reitor da Universidade Católica de Brasília (UCB), a crise venezuelana não deve afetar diretamente as eleições brasileiras, mas é esperado que Donald Trump apoie o candidato mais favorável aos ideais norte-americanos. "Um envolvimento direto é impossibilidade jurídica e técnica, mas apoio a correntes de interesse norte-americano, acredito que é natural. Não vejo problema nisso. O próprio Brasil faz isso", disse ao Correio. 

O que faz mais sentido para Washington, segundo o especialista, não é deflagrar uma ofensiva de intervenções territoriais pela região, mas buscar governos aliados locais. Em caso de um chefe de Estado com posição  ideológica diferente, espera-se "uma relação produtiva entre os dois". Candidatos a ocupar o Palácio do Planalto a partir de 2027, portanto, devem ter em mente que, para além de disputas ideológicas, há em curso uma agenda de pautas que interessam tanto ao Brasil quanto aos Estados Unidos e que desrespeitá-la não é um bom negócio para ambas as partes.

O tempo ruim pede ação e responsabilidade

Por O Povo (CE)

É recomendável que a população do Ceará leve a sério o alerta que tem sido feito acerca das temperaturas intensas previstas para os próximos dias. Diversos dos nossos municípios devem enfrentar um quadro de 38° ou mais, conforme as advertências feitas pelos órgãos competentes, merecendo atenção especial as regiões do Cariri, Sertão Central e o Litoral Norte.

Há quem resista em aceitar a ideia de que vivemos tempos excepcionais no âmbito climático muito em função do descaso de governos e sociedades, a cada dia mais evidente, com políticas que contenham o avanço de agressões contra o meio ambiente. A natureza tem respondido a isso, como o caso denuncia, através de consequências que tornam a vida em geral mais difícil através de fenômenos os mais diversos. Um deles, sem dúvida, é a elevação de temperaturas para níveis que hoje já beiram o insuportável e que apresentam tendência, infelizmente, de piora.

Claro que os mais céticos teimarão em manter seus entendimentos próprios sobre o que acontece e insistirão em dissociar o quadro dramático da ação preocupante do homem, como resultado de uma postura que coloca o interesse econômico acima de qualquer outro. Um erro que já nos custa caro e, sem dúvida, que levará ao comprometimento do futuro caso sigamos sem a consciência coletiva necessária acerca da gravidade do problema e, especialmente, de suas causas objetivas.

No cenário cearense, ainda valendo-se do que a ciência nos oferece como resultado do estudo dos fenômenos naturais, o ambiente se torna ainda mais desafiador com a questão da baixa umidade do ar. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) previa para o período entre 10 horas e 21h de ontem, segunda-feira, alguma coisa entre 20% e 30%, o que caracteriza um estado de alerta ou atenção devido ao ar muito seco.

É uma realidade que se vai encontrar em áreas de deserto, não habitadas, expondo, para além dos desconfortos que ocasiona, um problema grave de saúde pública a ser observado pelas autoridades. A umidade relativa do ar está no seu ponto aceitável, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), quando localiza-se acima dos 50%, para ter uma ideia do tamanho da complicação que temos diante de nós.

O poder público, nas várias instâncias deveria estar mais preocupado em esclarecer a população sobre os riscos impostos a ela por um quadro que combina alta temperatura com baixa umidade do ar, que é o que temos enfrentado nos últimos dias. Assim poderia reduzir os efeitos da incompetência que há demonstrado em agir contra a origem do problema, combatendo melhor as ações humanas que lhe dão origem, boa parte delas motivadas por interesses econômicos, como já dito, e que trazem à desordem natural destes tempos de tragédias, descompromissos e descontroles. 

 


 

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