Folha de S. Paulo
É por isso que Trump não tem interesse em
empoderar os líderes da oposição e prefere a vice de Maduro no poder
Já Obama gostava de fingir que ações eram
para levar liberdade aos povos, mas basta olhar Líbia e Síria para ver que não
Nos últimos 50 anos, os Estados
Unidos travaram mais guerras do que qualquer outro país, de longe.
Para vender tantas guerras à sua própria população e ao mundo, é preciso
mobilizar uma potente propaganda de guerra — e os EUA, sem dúvida, a possuem.
Grande parte da mídia americana e ocidental está agora convencida de que os recentes bombardeios e a operação de mudança de regime visam "libertar" o povo venezuelano de um ditador repressivo. Que a libertação é o motivo americano —seja na Venezuela ou em qualquer outro lugar— é risível.
Os EUA não bombardearam e invadiram a
Venezuela para "libertar" o país. Fizeram-no para dominá-lo e
explorar seus recursos. Se há algo que se pode creditar ao presidente Donald Trump em
relação à Venezuela, é sua franqueza sobre o objetivo americano.
Quando questionado sobre os interesses dos
EUA na Venezuela, Trump não se deu ao trabalho de fingir preocupação com
liberdade ou democracia. "Teremos que ter grandes investimentos das
empresas de petróleo", disse Trump. "E as empresas petrolíferas estão
prontas para começar."
É por isso que Trump não tem interesse em empoderar
os líderes da oposição venezuelana —seja a vencedora do Prêmio Nobel da
Paz, María
Corina Machado (a quem Trump descartou como uma "mulher
legal", mas incapaz de governar), ou o vencedor declarado da última
eleição, Edmundo González, por quem Trump não demonstra qualquer interesse. Em
vez disso, Trump afirmou preferir que a vice-presidente escolhida a dedo por
Maduro, a socialista de linha-dura Delcy
Rodríguez, permaneça no poder.
Note-se que Trump não está exigindo que
Rodríguez dê aos venezuelanos mais liberdade e democracia. A única coisa que
ele exige dela é "acesso total... Precisamos de acesso
ao petróleo e a outras coisas".
O governo dos EUA, em geral, não se opõe a
ditaduras, nem busca levar liberdade e democracia aos povos oprimidos do mundo.
O oposto é verdadeiro.
Instalar e apoiar ditaduras ao redor do globo
tem sido um pilar da política externa dos EUA desde o fim da Segunda Guerra
Mundial. Os EUA
ajudaram a derrubar muito mais governos democraticamente eleitos do
que trabalharam para remover ditaduras.
De fato, os formuladores da política externa
americana frequentemente preferem ditaduras pró-EUA. Especialmente em regiões
onde prevalecem sentimentos antiamericanos —e há cada vez mais regiões onde
esse é o caso—, os EUA preferem de longe autocratas que reprimam e esmaguem os
desejos da população, em vez de governos democráticos que precisam aplacar e
aderir ao sentimento público.
O único requisito que os EUA impõem a líderes
estrangeiros é a deferência aos ditames americanos. O pecado de Maduro não foi
a autocracia; foi a desobediência.
É por isso que muitos dos aliados mais próximos
da América —e os regimes que Trump mais ama e apoia— são os mais selvagens e
repressivos do mundo. Trump mal consegue conter sua admiração e afeto pelos
déspotas sauditas, pela junta militar egípcia, pelos autocratas oligárquicos
reais dos Emirados Árabes Unidos e do Catar ou pelos ditadores implacáveis de
Uganda e Ruanda.
Os EUA não apenas trabalham com tais
ditaduras onde as encontram. Os EUA ajudam a instalá-las. Ou, no mínimo, os EUA
cobrem regimes repressivos com apoio multifacetado para manter seu domínio
sobre o poder em troca de subserviência.
Diferente de Trump, o presidente Barack Obama gostava
de fingir que suas invasões e campanhas de bombardeio eram movidas pelo desejo
de levar liberdade aos povos. No entanto, basta olhar para o banho de sangue e
a repressão que tomaram conta da Líbia após
Obama bombardear Muammar Gaddafi para fora do cargo, ou a destruição na Síria vinda
da guerra de "mudança de regime" da CIA, para ver o quão fraudulentas
são tais alegações.
Apesar de décadas de provas sobre as
intenções dos EUA, muitos estão sempre ansiosos para acreditar que a última
campanha de bombardeio americana é a boa e nobre, aquela com a qual podemos
realmente nos sentir bem.
Tal reação é compreensível: queremos heróis e
ansiamos por narrativas inspiradoras sobre derrotar tiranos e libertar pessoas
da repressão. Os filmes de Hollywood miram nesses desejos tribalistas e
instintivos, e a propaganda de guerra ocidental faz o mesmo.
Acreditar que é isso o que está acontecendo
proporciona uma sensação de força e propósito vicários. É bom acreditar nesses
finais felizes. Mas não é para isso que as guerras, campanhas de bombardeio e
operações de mudança de regime americanas são projetadas, e é por isso que elas
não produzem tais resultados.

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