O Globo
Trump mencionou apenas o petróleo, como se
tudo se limitasse à troca de comando nessa importante indústria
A História me deu uma rasteira no sábado.
Três dias gripado, sonhava com um mergulho matinal. Maduro foi capturado pelos
americanos. O dever profissional me chamava. Não foi surpresa total para mim.
Contava com uma ação espetacular. Não imaginava que fosse tão fácil.
O modelo que tinha na cabeça foi a captura de Bin Laden no Paquistão. Ele vivia numa casa, mas não sabia que havia sido descoberto. Maduro esperava algo a qualquer momento. Não dormia no mesmo lugar. Estava cercado de guardas cubanos e controlava a estrutura de segurança do Estado. Tudo foi para o espaço.
A longa preparação, a retórica: “Covardes,
venham me pegar”. Eu deveria calcular que os americanos investiriam pesado.
Fixaram uma recompensa de US$ 50 milhões por sua cabeça. Por US$ 10 milhões,
talvez, pudessem fazer a operação.
Vejo nos primeiros esquemas uma estrutura
semelhante à prisão de Bin Laden. Helicópteros do Regimento Night Stalkers, de
onde os homens da Força Delta descem por uma corda no Forte Tiuna e conseguem
prender Maduro antes que ele feche uma porta de aço de 6 polegadas. Houve
apenas um tiroteio, diferente do silêncio noturno na casa de Bin Laden. Trinta
e dois cubanos morreram no embate. São detalhes que um dia ficarão mais claros
num documentário.
O mais importante no momento é a mensagem de
Ano-Novo: vale a lei do mais forte. Poucos dias depois de lançar um documento
revivendo a Doutrina Monroe, Trump não apenas prende Maduro, como diz que agora
dirigirá a Venezuela. Abre-se um momento de reflexão para toda a América
Latina. Na verdade, para toda parte do mundo vizinha a uma grande
potência. Taiwan e China, Ucrânia e Rússia, esses dramas
serão amplificados pela atitude americana. E a Groenlândia já está na mira de
Trump.
Já vi derrubarem vários ditadores. Ninguém em
sã consciência os defenderá. O problema é o pós-derrubada. Os casos de Líbia e Iraque são
típicos. Trump anunciou que as empresas americanas modernizarão a
infraestrutura do petróleo na Venezuela. Na primeira entrevista coletiva depois
da prisão de Maduro, mencionou apenas o petróleo, como se tudo se limitasse à
troca de comando nessa importante indústria. Não mencionou esforços para
estabelecer a democracia, não defendeu a libertação dos presos políticos.
A Venezuela é um país, não se define apenas
pelo petróleo. Como ficará tudo? Trump deu a impressão de que, uma vez
resolvida a questão da passagem do petróleo para mãos americanas, não se
importa muito com o destino do país.
O Brasil expressou uma posição que tenho
defendido: defender a não intervenção armada, sem nenhuma simpatia por Maduro.
O modelo dessa posição se firmou no caso do Iraque, quando era possível ao
mesmo tempo condenar Saddam Hussein e duvidar do êxito da guerra.
Nossos laços com a Venezuela nos deixam
apreensivos pela ausência de um horizonte pós-Maduro. Trump pareceu
descartar María
Corina Machado, apesar de sua popularidade e liderança na oposição. Não foi
correto dizer que ela não tem respeito para ser a interlocutora na transição.
Parece que Trump não a perdoou por ter ganhado o Prêmio Nobel,
seu grande sonho.
Como ficaremos diante de um vizinho com que
temos tantas questões bilaterais? Quase 400 mil refugiados, o problema dos
ianomâmis, importação de energia, a gestão do Monte Roraima... Não há dúvida de
que o chavismo perderá seu lugar histórico na Venezuela. Mas o pós-Maduro ainda
é uma grande interrogação.

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