Folha de S. Paulo
Se entregaram ditador é incerto, embora
provável, mas militares foram em frente com o plano do americano
Resta saber se as divisões internas podem
descambar para guerra civil, já que volta da democracia por ora é só propaganda
Com o assentamento da poeira levantada
pelos helicópteros americanos e as explosões que sacudiram
a Venezuela no
sábado (3), um cenário um pouco mais claro se desenha no panorama político do
país após o ataque que capturou Nicolás
Maduro.
As dúvidas, porém, persistem, e dizem respeito à nebulosa divisão de poder ora vigente em Caracas. O fantasma de uma guerra civil sempre estará presente, embora a usual analogia com o caso do Iraque em 2003 não pareça 100% aplicável.
Naquela
ocasião, também animado pelo sucesso militar mais imediato, George
W. Bush jogou fora toda a estrutura de poder que serviu para manter coeso, à
força, o tecido social do país sob Saddam Hussein.
A fantasia da construção de uma democracia
liberal que facilitasse a vida de empresas petrolíferas americanas, instalando
um governo fantoche em Bagdá, levou a uma sangrenta
insurreição decorrente da disputa tribal de poderes.
Até aqui, apesar da atabalhoada entrevista na
qual disse que os EUA iriam governar a Venezuela por um tempo —algo que
claramente nem o secretário de Estado, Marco Rubio, sabe o que é—
Trump evitou tornar o chavismo ilegal.
Ao contrário: sua primeira menção foi a de
dizer que ia
trabalhar com a líder interina, Delcy Rodríguez, descartando
imediatamente a pretensão da líder oposicionista María Corina Machado de voltar
e colocar seu preposto
Edmundo González no poder.
A interina jogou
para a plateia e criticou os EUA, exigindo o impossível retorno
de Maduro. Ato contínuo, Trump ameaçou novas ações militares e tudo voltou ao
eixo previsível, com a líder prometendo nesta segunda-feira (5) colaboração
com o plano
americano de tomada do petróleo da Venezuela.
Com isso, o chavismo teoricamente segue no
poder, apenas com o comando trocado. A ideia de que os militares que comandam o
país entregaram a cabeça de Maduro para ficar no poder, reforçada pela inexistente
reação ao ataque americano, ganha ares de verdade na prática.
Se foi isso mesmo ou se apenas optaram por
uma acomodação em nome da sobrevivência, é quase irrelevante agora. O risco que
persiste é o de não haver coordenação entre os chavistas
remanescentes, notadamente os ministros Vladimir
Padrino (Defesa) e Diosdado
Cabello (Interior).
Desde os anos de Hugo Chávez (1999-2013), a
Venezuela passou por um processo de militarização que armou milícias com armas
leve em todo o país. Apesar de terem sido humilhadas, as Forças Armadas têm
recursos bastante razoáveis em termos regionais.
Com isso, o fantasma de uma guerra civil
segue no ar, embora até aqui não haja sinais disso. Se ocorrer, o temor
regional de uma crise humanitária vai virar realidade —e nem se entrará aqui no
aspecto das próximas ações de Trump, que miram
Colômbia e Cuba.
Em Caracas, por ora, a improvável aliança
trumpista-chavista está se desenhando, com o evidente desprezo à ideia da volta
da democracia ao país. A queda de um tirano corrupto certamente foi bom para a
Venezuela, mas nada indica que os seus cidadãos terão
mais liberdade.
Um executivo russo com experiência em
negócios no país disse à Folha esperar apenas a troca de parceiro
externo, papel que coube a
Moscou e a Pequim desde 1999, com a volta da hegemonia
americana.
Seria a mudança de regime possível nos dias
pragmáticos —ou cínicos, a gosto do crítico— da era
Trump 2. Qualquer menção a valores democráticos não passa de
propaganda.
Como é óbvio, isso é uma fotografia
momentânea. A quantidade de fios desencapados no processo desencadeado pelo
republicano é grande, assim como o de curtos-circuitos.

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