O Estado de S. Paulo
Como Delcy Rodríguez, Brasil condena ataque à Venezuela, mas não explode pontes com Trump
Apesar da situação totalmente diferente, Brasil e Venezuela têm uma prioridade ao reagir ao ataque de Donald Trump e à deposição e à prisão do presidente Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores: manter a altivez e defender firmemente a soberania da região e de seus países, mas não explodir pontes com os EUA, maior potência política, econômica e bélica e, com Trump, escancaradamente imperialista e ameaçadora.
Ambos, o Brasil, líder natural na América
Latina, particularmente na do Sul, e a Venezuela, destruída por Maduro e o chavismo
e sob o risco de se tornar colônia no “quintal” dos EUA, estão pisando em ovos,
com todo o cuidado para calibrar as manifestações, votos na ONU e articulações
com a comunidade internacional e regional.
A situação da própria Venezuela, por óbvio, é
extremamente mais sensível e há um consenso, inclusive no Brasil, de que a
vice-presidente Delcy Rodríguez é a pessoa certa, na hora certa e no lugar
certo para se equilibrar entre duas pressões poderosas: a interna e a
americana.
De um lado, o chavismo entranhado na sociedade e ainda muito ativo, apesar de tudo. De outro, Trump admitindo para o mundo inteiro, sem nenhum pudor, a intenção de “administrar” o país até que os EUA assumam o controle, a exploração e o lucro do maior tesouro da Venezuela, o petróleo.
Delcy vem a calhar. Maria Corina, líder
oposicionista que ganhou um duvidoso prêmio Nobel da Paz, é odiada pelos
chavistas e incendiaria o país. Seu preposto, Edmundo González, apesar de
diplomata, não tem carisma, força política ou diálogo com os EUA e aprofundaria
ainda mais o caos. Já um interventor de Trump é a pior hipótese.
Filha de um líder marxista morto sob tortura
em 1976, ela é irmã do presidente da Assembleia Nacional, que tem o mesmo nome
do pai, Jorge Rodríguez, e combina ligação forte com o chavismo e pragmatismo
na economia, com sólido conhecimento da indústria petroleira do país. O
problema é como conviver com Trump.
Quando Trump diz que Delcy vai ter que fazer
tudo o que ele mandar, ele não lhe deixa alternativa a não ser afirmar sua
independência, a soberania do país e a lealdade a Maduro, para manter a
posição. A sensação é de um acordo tácito: Trump diz o que quer, Delcy diz o
que tem de dizer e os dois negociaram. Vai funcionar? Impossível saber.
O Brasil também pisa em ovos e condena
firmemente a invasão em falas de Lula, notas e ONU, mas sem atacar diretamente
Trump, que já ameaça Colômbia, Cuba, México, Canadá, Panamá e até a distante
Groenlândia. Condenar a ação dos EUA, sim; explodir as pontes com Trump, não.

Nenhum comentário:
Postar um comentário