terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O chavismo ianque. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Quase como ato primeiro da administração coercitiva-remota que pretendem para a Venezuela, Donald Trump e Marco Rubio apressaram-se em desqualificar – descartar mesmo – as lideranças representativas da oposição na Venezuela. A memória da eleição presidencial ilegítima de 2024, que dá concretude à fragilidade da soberania venezuelana e compôs os fundamentos para a ação militar americana, torna-se agora – extirpado Nicolás Maduro – complexo deletério para “os interesses nacionais dos EUA”.

A entronização de Maria Corina Machado e turma daria muito trabalho. E a intervenção foi concebida – talvez sob otimismo excessivo – para efeito pontual, prático e imediato. Maduro não negociava. Não era confiável. Não aceitava a presença-influência de Washington. Removido esse empecilho, haveria – sem traumas estruturais – com quem conversar e pactuar entre graduados de seu governo. Essas tratativas serão – terão sido – mais fluentes sob o compromisso de não repatriamento de Edmundo Gonzales, etc.

Não há, nesse balé ousado, a mais mínima preocupação com a democracia venezuelana, donde com um horizonte de eleições livres no país e a reconstituição de sua soberania. Trata-se de constatação óbvia, se, à deposição de Maduro, seguiu-se a ascensão de sua vice – eleita tão fraudulentamente quanto o ditador. A rapidez desse trânsito-trâmite sugere algum acordo.

A vice do ditador, colaboradora histórica daquela autocracia, de repente investida como ponte para uma estabilidade bem específica. A comunicação ianque aos que governarão doravante é explícita. O chavismo terá uma chance de permanecer, uma oportunidade de sustentar seu esquema de poder local, desde que a elite burocratamilitar que assaltou o Estado compreenda a regra de acesso a essa nova etapa de existência.

O arranjo pretendido-projetado por Trump contemplará a manutenção do regime ditatorial-corrupto chavista, se a presidente-interina Delcy Rodrigues fizer “o que é certo”. Isso pressupõe que ela – a encarnar um chavismo “racional”, “sofisticado” – esteja informada sobre o que seja “o certo”. Fazer o certo, sem qualquer mistério, será deixar sob controle dos EUA o movimento do petróleo venezuelano, menos para abastecimento do país e mais para sustar a constituição de uma base operacional chinesa na América do Sul.

O que se costura – discursos teatrais nacionalistas à parte – seria uma espécie de chavismo prático, “chavismo com os americanos”, depois de décadas de antiamericanismo. Não haveria a libertação do povo oprimido e miserável; antes uma gestão temporária e virtual que, via coerção, estabeleceria o domínio dos EUA sobre a circulação do petróleo venezuelano e esvaziaria a China na região – condição essencial, imposta a todos os postulantes, para que a Venezuela possa, no futuro incerto, escolher um novo governo.

 

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