O Globo
Governo que nem tomou posse teve que
enfrentar tremores fortes do mercado e notas inoportunas das Forças Armadas na
mesma semana
O velho governo já morreu, o novo não
começou ainda, mas já tem que enfrentar o desgaste dos seus primeiros erros e a
cobrança por heranças velhas. Na semana houve tremores no mercado financeiro,
um sinal de sectarismo dado pelo PT na disputa do BID e notas inoportunas das
Forças Armadas. O presidente Lula acertou muito nesse início. Talvez o maior
acerto tenha sido mostrar o quanto lhe dói a dor alheia. O Brasil precisava
disso. Quatro anos de um governante sem empatia feria nossos valores humanos. O
choro de Lula pela fome redime um país no qual o presidente não chorou por 700
mil mortos.
Toda realidade tem vários ângulos. No mesmo discurso em que chorou, Lula produziu ruídos no mercado financeiro. Isso lembra que a economia não comporta improvisos. Cotações caem e sobem. São menos importantes do que o sinal que veio de outra frente. O país está de novo às voltas com a incapacidade de as Forças Armadas entenderem qual é o seu papel constitucional. Houve três notas militares em três dias e todas elas fora do tom.
Lula falou na “tal da estabilidade fiscal”,
como um impedimento ao combate à fome. É o oposto. Economia estável é a base de
qualquer projeto social duradouro. O veto a Ilan Goldfajn no BID mostrou a
velha faceta do sectarismo do PT. Ilan, um grande economista brasileiro, sem
vinculação partidária, hoje estará diante dos governadores do Banco
Interamericano de Desenvolvimento na sabatina para o cargo. E eles perguntarão:
o novo governo brasileiro o apoia? A verdade é que ele tem muito apoio sim no
grupo que chega ao poder, mas o ex-ministro Guido Mantega enviou email à
secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, dizendo que ele não era
o candidato. Um erro.
Mantega ligou para os ministros da economia
dos países vizinhos e desautorizou a candidatura de um brasileiro sério e com
serviços prestados ao país. Por que fez isso? Sectarismo. Ele disse que apenas
pediu o adiamento da eleição, mas sabe que não dá. Teria que haver concordância
de todos os países, e a escolha é no domingo que vem. Com todas as letras, o PT
raiz minou a candidatura do primeiro brasileiro com chances de ocupar a
presidência do BID.
A bolsa caiu num dia e subiu no outro,
fechando a semana no negativo. Isso não é um grande problema, mas o episódio
avisa que o novo governo precisa dar sinais de como pretende resolver a grave
herança fiscal que receberá de Bolsonaro. Há muitas ideias sendo discutidas.
Uma proposta que surgiu é de, em vez de haver uma PEC da transição, fazer uma
PEC que tire o teto de gastos da Constituição, e ao mesmo tempo redesenhe a
nova âncora em legislação ordinária.
– Fazer uma PEC da transição para depois
ter outra para mudar o teto queima muito capital político. Por isso a ideia é
derrubar e refazer no mesmo ato. E por que tirar da Constituição? Porque nunca
fez sentido constitucionalizar uma política macroeconômica — explica uma fonte
que acompanha de perto as discussões.
O novo teto não seria mais fraco por estar
fora da Constituição. Tem a chance de ser um instrumento fiscal melhor, mais
transparente, e compatível com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Seria
plurianual, o que permitiria gastar mais num ano de dificuldades e reduzir num
ano de crescimento, o que os economistas chamam de contracíclico.
É bom ter um presidente que define como sua
“missão de vida” acabar com a fome. Ocorre que isso passa por um instrumento
fiscal com previsibilidade e transparência. Do contrário, as turbulências
econômicas elevarão a inflação que atinge os pobres. O teto de gastos foi
rompido quatro vezes pelo atual governo, que fez várias outras barbaridades
econômicas. Numa das vezes em que Bolsonaro atropelou a governança da
Petrobras, as ações caíram 20%, e ele disse que a reação do mercado era
“exagero” e “rebuliço”. Adiantou pouco.
No front da economia é melhor ter realismo
e evitar os velhos erros. Mas há outra frente de batalha. A dos militares. A
ambiguidade é a marca comum às duas notas do Ministério da Defesa e a das três
Forças. Na nota da sexta, Exército, Marinha e Aeronáutica cometem a audácia de
tratar com equivalência um grupo de manifestantes destrambelhados e o TSE, uma
instituição da República. Nada de novo também nesse front. As Forças Armadas
continuam achando que devem tutelar a Nação e esse não é um problema apenas do
governo eleito. É da democracia brasileira.
Um comentário:
A sábia Míriam leitão.
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