O Globo
A ciência nos mostra que o bem-estar
psicológico de um país não se conquista apenas achatando o topo da pirâmide
Durante as últimas duas décadas,
consolidou-se no debate público uma espécie de dogma inquestionável: a ideia de
que a desigualdade econômica é uma “toxina social” que adoece a mente das
populações. De editoriais a discursos políticos, a narrativa era que o abismo
entre ricos e pobres seria causa direta da depressão, da ansiedade e da erosão
do bem-estar. No entanto um
estudo recente publicado na revista Nature, por Nicolas Sommet e sua
equipe, acaba de pôr em xeque essa crença.
O trabalho é uma síntese estatística de grandes proporções, que analisou 168 estudos abrangendo mais de 11 milhões de pessoas em 38 mil unidades geográficas. Os pesquisadores concluíram que a desigualdade de renda, isoladamente, não tem efeito significativo sobre o bem-estar ou a saúde mental.
Mas como passamos tanto tempo acreditando no
contrário? A resposta reside no que os cientistas chamam de “viés de
publicação”. O estudo revelou que a literatura acadêmica anterior estava
saturada de pesquisas pequenas e estatisticamente ruidosas, que tendiam a
reportar efeitos negativos exagerados. Esses resultados “politicamente
convenientes” encontravam caminho fácil para as revistas, enquanto os estudos
que não encontravam correlação acabavam esquecidos em gavetas. Ao corrigir os
desvios com rigor metodológico, o efeito da desigualdade na saúde mental
simplesmente evaporou.
A análise foi submetida a um “teste de
estresse” por meio de 768 modelos analíticos diferentes. Em 95% das vezes, a
conclusão foi a mesma: o efeito da desigualdade isolada é nulo sobre o
bem-estar da população. Além disso, uma das ferramentas revelou que 80% dos
estudos anteriores sobre o tema tinham um risco “alto” ou “muito alto” de viés,
falhando em controlar variáveis básicas, como a renda individual.
Isso significa que a desigualdade é
irrelevante? De forma alguma. A grande contribuição do estudo é mudar o prisma:
a desigualdade não é a causa raiz, mas sim um catalisador contextual. Os dados
mostram que ela só se torna um problema psicológico sob condições específicas:
em grupos de baixa renda ou em lugares onde a inflação é alta. Isso porque, do
outro lado, em países economicamente estáveis (com inflação baixa), a população
tende a interpretar a riqueza dos outros como evidência de que a ascensão
social é possível e de que o sistema recompensa o esforço. Nesses casos, a
desigualdade pode até gerar aumento no bem-estar subjetivo, já que alimenta o
otimismo sobre o futuro.
Para o Brasil, o recado é urgente. O fetiche
em torno da desigualdade relativa muitas vezes nos tira o foco do que realmente
importa: a erradicação da pobreza absoluta e a busca pela estabilidade
econômica, e não apenas observar e apontar, com ansiedade, a distância entre o
topo e a base da pirâmide.
No fim das contas, a ciência nos mostra que o
bem-estar psicológico de um país não se conquista apenas achatando o topo da
pirâmide, mas assegurando que ninguém, em nenhuma circunstância, seja deixado
para trás no subsolo da economia.

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