segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A melhor ferramenta de compliance é a cadeia. Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Enquanto fraudadores do sistema financeiro não passarem longas temporadas na prisão, compliance não deixará de ser conversa para boi dormir

Em 13/07/2001 a gigante de energia Enron divulgou um crescimento de 40% no lucro líquido, com as receitas quase triplicando e chegando a US$ 50 bilhões em 12 meses.

Três meses depois veio a público que a empresa escondera bilhões em prejuízos e dívidas de seus balanços usando operações por uma rede de dezenas de sociedades de propósito específico.

Em poucos dias suas ações viraram pó, o que levou a Enron a entrar com um pedido de falência em 2/12/2001. Pior para os acionistas, que alegaram uma perda de patrimônio de US$ 40 bilhões na época.

O fundador e presidente da empresa, Kenneth Lay, foi condenado pela fraude em maio de 2006, mas morreu de ataque cardíaco dois meses antes da audiência que iria definir sua pena.

Seu antigo CEO, Jeffrey Skilling, pegou 24 anos de prisão, além de uma multa de mais de US$ 70 milhões em valores atuais. Ele teve seu pedido de recorrer em liberdade negado e foi mandado para uma prisão federal no Alabama onde ficou encarcerado de dezembro de 2006 a fevereiro de 2018, quando a Suprema Corte determinou a revisão da sua pena.

O CFO da empresa, Andrew Fastow, colaborou com as autoridades e ficou preso de setembro de 2006 a dezembro de 2011, além de pagar US$ 37 milhões.

No ano seguinte, outro escândalo: agora com a WorldCom, então a segunda maior empresa de telefonia de longa distância dos Estados Unidos. Uma auditoria interna descobriu uma diferença de US$ 3,8 bilhões nos balanços. Investigações posteriores elevaram o rombo para US$ 11 bilhões.

O CEO da companhia, Bernard Ebbers, foi sentenciado com 25 anos de prisão. No dia 26/9/2006 Ebbers deu entrada no presídio Oakdale, em Louisiana, onde permaneceu por 13 anos. Ele só foi liberado em dezembro de 2019, devido à sua saúde precária. Morreu em casa, um mês depois, cego e demente.

Seu CFO, Scott Sullivan, para escapar da pena de 25 anos, decidiu colaborar com as investigações e acabou cumprindo “apenas” quatro anos na prisão e outros três em domiciliar.

À época, o escândalo da WorldCom foi classificado como a maior fraude contábil da história americana. Nada comparável, porém, ao caso de Bernie Madoff. Sua reputação era tão elevada no mercado que ele chegou a ser presidente da Nasdaq, a bolsa de ações de tecnologia. No auge, administrava US$ 65 bilhões.

Ao longo de décadas, porém, sua firma de investimentos iludiu os clientes com relatórios fakes sobre seus ganhos. A pirâmide financeira desmoronou quando Madoff não conseguiu mais fazer frente aos pedidos de saques dos investidores. O caso se tornou público em dezembro de 2008 e o executivo foi detido pelo FBI. Exatamente dois anos depois, seu filho Mark suicidou-se.

Em 29/6/2009 Madoff foi condenado a 150 anos de prisão. Por sofrer de falência crônica dos rins, os advogados de Madoff pediram sua libertação na pandemia. A justiça negou o pleito baseada na gravidade dos seus crimes. Madoff morreu em abril de 2021, num centro médico de detenção na Carolina do Norte. Até hoje a família não buscou suas cinzas.

Seu braço direito e CFO, Frank DiPascali, ficou dez meses preso até concordar em colaborar com a Justiça. Suas revelações levaram à recuperação de bilhões em ativos e à condenação de outras pessoas envolvidas no esquema. Como prêmio, ficou em prisão domiciliar até morrer de câncer do pulmão em 2015.

Todos os assessores mais próximos de Madoff foram condenados: o diretor de operações, a secretária pessoal, uma analista de investimentos e até programadores de sistema passaram de dois a oito anos na prisão, fora as multas de milhões de dólares.

Os Estados Unidos estão longe de ser um modelo perfeito em termos de combate às fraudes financeiras. Prova disso é que o colapso do subprime não teve nenhum grande figurão de Wall Street condenado.

No entanto, os exemplos citados mostram que: i) os processos não se arrastaram por anos; ii) as penas de prisão começaram a ser cumpridas após a primeira ou a segunda instância; iii) os acordos de colaboração premiada não livraram as pessoas da cadeia (só aliviaram as penas); iv) as penas foram cumpridas em penitenciárias até o fim; e v) os peixes grandes (presidentes, CEOs, CFOs) não foram poupados.

Nos últimos anos, Daniel Vorcaro e seus sócios montaram uma complexa rede de fundos e empresas que impuseram perdas bilionárias a clientes, ao sistema financeiro e certamente aos cofres públicos. Eles também conseguiram driblar a fiscalização, cooptaram auditores privados, fundos e plataformas de investimento e montaram uma rede de apoio político nos três Poderes - e na direita, na esquerda e no Centrão - para se blindarem de uma condenação.

Para pessoas com esse grau de astúcia, a esta altura do campeonato os bilhões desviados já estão seguros em paraísos fiscais ou em criptomoedas que nunca serão recuperados para ressarcir os lesados.

Para eles e para todos no sistema financeiro que um dia pensarem em seguir o seu caminho, a liquidação do banco e dos fundos é pouco.

A única ferramenta de compliance que funcionará é uma boa temporada por décadas numa penitenciária federal.

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