segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Mundo tem de rever suas dependências. Por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Imprevisibilidade de Trump obriga países a reduzir dependência em relação aos Estados Unidos

A atuação errática de Donald Trump produziu um efeito que vai muito além de disputas comerciais pontuais: governos ao redor do mundo estão sendo forçados a repensar o grau de dependência que mantêm em relação aos Estados Unidos. Governos europeus, latino-americanos e asiáticos, principalmente, discutem como reduzir vulnerabilidades estratégicas diante de um parceiro cada vez mais imprevisível. O caso da Alemanha, um dos países mais dependentes de Washington, é especialmente instrutivo – inclusive para o Brasil.

Em Berlim, onde sucessivos governos erraram ao tratar ameaças americanas, durante o primeiro mandato Trump, como um desvio temporário, ignorando os sinais de alerta daquele período, a postura intimidatória de Trump em relação à Groenlândia teve um efeito catalisador, reforçando uma percepção que já vinha se consolidando: a Alemanha se tornou excessivamente dependente dos EUA em áreas críticas para sua soberania.

Isso é visível na defesa, com a recente encomenda de caças F-35 sem alternativa europeia equivalente; no espaço e nas comunicações, com a crescente dependência da rede Starlink; e, sobretudo, no setor digital. A economia alemã opera majoritariamente sobre infraestrutura controlada por empresas americanas, como Amazon, Microsoft e Google.

DESCONFIANÇA. Como relata Julia Lohr, do Frankfurter Allgemeine Zeitung, pesquisas recentes indicam que 51% das empresas alemãs se consideram fortemente dependentes dos EUA em tecnologias digitais, enquanto 60% afirmam confiar pouco ou nada em Washington – um nível de desconfiança que já se aproxima daquele associado à China. A dependência se estende ainda a finanças e energia: cartões de crédito, sistemas de pagamento e, após o corte do gás russo, a maioria do gás natural liquefeito importado pela Alemanha passou a vir dos EUA. Trata-se de uma nova vulnerabilidade estratégica, criada para substituir outra.

A resposta que ganha força no debate alemão é o chamado de-risking: incorporar soberania como critério explícito em compras públicas e decisões estratégicas. Isso significa priorizar alternativas europeias em áreas como nuvem, inteligência artificial, software e meios de pagamento, mesmo que isso implique em custos e dificuldades no curto prazo. A migração do governo estadual de Schleswig-Holstein para softwares de código aberto mostra que o processo é complexo, mas viável.

Para o Brasil, a lição central é clara. Autonomia estratégica não significa romper com os Estados Unidos – uma ruptura seria economicamente inviável e geopoliticamente contraproducente.

O desafio é reduzir dependências críticas e ampliar margens de manobra em setores sensíveis em um mundo no qual interdependência pode rapidamente se transformar em instrumento de coerção.

O Brasil apresenta vulnerabilidades próprias, muitas vezes subestimadas. Na infraestrutura digital, por exemplo, a dependência de serviços americanos é profunda. A Starlink tornou-se a principal fornecedora de internet via satélite no País, com centenas de milhares de usuários e uso crescente em comunicações estratégicas. Uma eventual suspensão desses serviços – por decisão política em Washington – poderia gerar apagões em áreas remotas e comprometer comunicações cruciais. Além disso, uma parte relevante dos dados brasileiros, inclusive de bancos, do Pix e de serviços públicos, está hospedada em data centers nos EUA. Reduzir a dependência brasileira nessa área será caro, mas se tornou imprescindível.

No campo militar, a situação não é muito diferente. Sistemas de comando, controle e inteligência das forças armadas dependem de softwares, licenças e atualizações americanas. A aviação de combate opera com sensores e componentes sob controle estrangeiro, e a cooperação em treinamento e inteligência permanece concentrada nos EUA. Qualquer interrupção abrupta nesse fluxo teria impactos imediatos.

DIVERSIFICAÇÃO. A resposta brasileira, no entanto, não deve ser a substituição de uma dependência por outra, nem a adoção de um discurso de confronto. O caminho mais promissor é a diversificação combinada com fortalecimento de capacidades domésticas. Isso envolve ampliar parcerias com países europeus e com Índia, Coreia do Sul, Canadá, Turquia e outros atores em áreas como defesa, conectividade e tecnologia, ao mesmo tempo em que se investe em pesquisa, desenvolvimento e indústria nacional.

É nesse ponto que a cooperação seletiva com os EUA continua sendo não apenas possível, mas desejável.

O debate em torno dos minerais críticos – especialmente as terras raras – ilustra bem essa lógica. O Brasil detém uma das maiores reservas do mundo, ainda largamente inexploradas, e pode se tornar um parceiro relevante para Washington em sua tentativa de reduzir a dependência da China nesse setor estratégico. Para o Brasil, acordos desse tipo fazem sentido, mas precisam ser acompanhados de transferência de tecnologia, investimentos em processamento local e fortalecimento da cadeia produtiva nacional – e não apenas de exportação de matéria-prima.

Preservar laços com os EUA simultaneamente construindo alternativas é uma estratégia de seguro geopolítico. A experiência da Alemanha mostra que ignorar dependências até que elas se tornem um problema geopolítico é um erro grave. •

 

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