Robôs de IA violam leis de direitos autorais
Por O Globo
De sete chatbots testados, Grok foi o mais
contumaz no desrespeito a produtores de conteúdo jornalístico
O Grok, robô de inteligência artificial da xAI, de Elon Musk, violou de forma contumaz os direitos autorais de conteúdos jornalísticos em teste realizado pela reportagem do GLOBO. O teste foi aplicado com a versão gratuita de sete chatbots diferentes — além do Grok, ChatGPT (OpenAI), Gemini (Google), Claude (Anthropic), Perplexity, DeepSeek e MetaAI. Os sete foram submetidos a indagações sobre conteúdo restrito a assinantes dos jornais O GLOBO, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e Zero Hora. Em todos os casos, o Grok entregou o texto completo escrito por colunistas, sem alterações. Em apenas um outro caso o DeepSeek reproduziu uma coluna literalmente, enquanto nos demais os robôs em geral ofereceram resumos detalhados, muitas vezes com paráfrases pouco diferentes do original. Apenas Perplexity e Claude informaram que o acesso às colunas era restrito aos assinantes ou estava bloqueado por barreira (paywall), procurando resumir fatos a partir de conteúdos abertos. A ferramenta da Meta alegou impossibilidade técnica para obter o conteúdo.
O teste era simples: apresentar aos robôs o
endereço das colunas e esperar a resposta. O Grok, ao acessar um conteúdo
exclusivo para assinantes, deu uma explicação mentirosa para invadir o espaço
de assinantes: “Eu não enfrentei paywall porque, no momento em que acessei a página,
o artigo completo estava totalmente aberto e visível, sem necessidade de login
ou assinatura”. Quando o mesmo endereço foi apresentado a outros chatbots,
houve pedidos de identificação de assinante. As respostas do Grok sugerem que
ele reconstrói as colunas a partir do código disponível na própria página ou de
trechos encontrados na internet em sites especializados em burlar paywall
(possibilidade aventada no ano passado no artigo “Como os chatbots de IA
silenciosamente desmantelam paywall”, do jornalista holandês Henk van Ess).
A xAI foi procurada pela reportagem do GLOBO
para dar explicações, mas não respondeu. Ora, cabe à empresa zelar pela
legalidade do conteúdo apresentado a seus usuários. “Esse uso não autorizado
com clara propriedade intelectual não é só moralmente condenável”, afirma
Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ). “As
plataformas de IA podem vir a ser enquadradas legalmente ao desrespeitar a
legislação brasileira de direitos autorais.”
Para não configurar plágio ou roubo de
propriedade intelectual, os chatbots não deveriam sequer apresentar resumos ou
fazer paráfrases dos colunistas. Poderiam divulgar o tema das colunas e
fornecer links ao conteúdo, mas desde que devidamente autorizados a lê-las pelo
veículo – prática vetada pelo GLOBO e pelos demais veículos da Editora Globo,
assim como por New York Times, Washington Post e Financial Times. Caso o leitor
esbarrasse em paywall, deveria decidir se paga pela assinatura.
Como a maior parte dos países, o Brasil tem
demonstrado lentidão ao estabelecer uma regulação capaz de garantir a
propriedade intelectual em tempos de IA. Enquanto persiste o vácuo, boa parte
dos robôs tem agido como parasitas do conteúdo alheio, sem pagar um centavo.
Cabe à Justiça zelar pelo respeito aos direitos autorais. Isso é ainda mais
importante no caso do jornalismo, que depende deles para financiar uma
atividade essencial à saúde de qualquer democracia.
Políticas eficazes contra violência têm
efeito positivo na economia
Por O Globo
Cidades que obtiveram êxito contra o crime
registraram entre 7% e 10% mais empresas e postos de trabalho
As vítimas da violência não
se resumem aos mortos pelos bandidos. Nas regiões conflagradas, quem sobrevive
ao crime também sofre consequências econômicas. Onde organizações criminosas
imperam, a extorsão, a destruição de capital físico e até fatores intangíveis
como estresse dificultam a vida de empreendedores e diminuem investimentos. Um
estudo recém-publicado da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo constatou
os efeitos econômicos positivos das políticas de segurança pública
bem-sucedidas. No período de 2002 a 2019, o Distrito Federal e cidades de oito
estados que obtiveram êxito no combate ao crime registraram aumento entre 7% e
10% nas novas empresas e em vagas com carteira assinada.
A descoberta desmente que o avanço da
criminalidade seja inexorável ou esteja imune às políticas dos governos
estaduais. A divisão da cidade em áreas menores; a análise pormenorizada
baseada em indicadores objetivos; a integração das forças policiais e outras
instituições do Estado; o estabelecimento de objetivos com pagamento de bônus
são medidas eficazes contra o crime.
No início do século, o governo de Minas
Gerais deu os primeiros passos para a gestão baseada em dados, com resultados e
pagamento relacionado ao desempenho. O estado criou e implementou um sistema
estatístico para embasar decisões e premiações. Historicamente separados, os
comandos das polícias Militar e Civil passaram a manter reuniões regulares,
frequentadas por representantes de outros segmentos do setor público. Na mesma
época, São Paulo também atualizou sua política de segurança. Uma das principais
diretrizes foi a integração de dados policiais. Em pouco tempo, DF e outros
seis estados (Pernambuco, Rio, Paraíba, Espírito Santo, Alagoas e Ceará)
lançaram programas semelhantes.
De acordo com o estudo “Aprimorar a gestão policial aumenta o desenvolvimento econômico: evidências do Brasil”, o impacto dependeu do histórico da região. Nos lugares mais violentos, a redução do crime foi maior, mas os benefícios econômicos foram menores. Não estão claras as razões para a diferença. Talvez em cidades com menos homicídios a polícia tenha mantido foco na redução de crimes contra a propriedade, contribuindo para o êxito econômico. “Regiões com alto nível de violência podem precisar de intervenções adicionais, como programas sociais, incentivos econômicos específicos e investimentos em infraestrutura, para aproveitar totalmente o potencial econômico da redução do crime”, diz Bruno Pantaleão, autor do estudo. São pontos que ainda merecem mais pesquisas.
Guerra e pesquisas elevam incerteza na
economia
Por Folha de S. Paulo
Conflito no Oriente Médio encarece petróleo,
pressiona inflação e leva à projeção de queda menor dos juros
É cedo para vaticínios, mas, de todo modo, é
fato que o cenário já seria desconfortável em razão do descalabro fiscal do
governo Lula
A expectativa econômica mais importante para
este 2026 é o início de um ciclo de cortes dos juros do Banco Central,
viabilizado pelo controle da inflação e
capaz de propiciar algum alívio para famílias, empresas e contas públicas. Já
da política de gastos do governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT),
nenhum ajuste se espera em ano eleitoral.
Esse modesto conjunto de previsões se tornou
mais incerto nos últimos dias. Nesta segunda-feira (16), a pesquisa semanal
divulgada pelo BC mostra que o mercado passou a esperar
uma queda menor da taxa Selic, hoje em sufocantes 15% ao ano, na
reunião do Comitê de Política Monetária (Copom)
dos próximos dois dias.
Em vez de um corte para 14,5%, como o próprio
comitê havia indicado em janeiro, a aposta da maioria agora é num recuo mais
cauteloso, para 14,75%. Para o fim do ano, a expectativa subiu de 12,13% para
12,25%.
O movimento ainda é incipiente, mas já
reflete os temores quanto ao impacto
na inflação da guerra deflagrada por Estados Unidos e Israel contra
o Irã em
28 de fevereiro. O brusco encarecimento do petróleo,
afinal, tem o potencial de contaminar os demais preços e setores da atividade.
Não por acaso, a mediana das projeções para o
IPCA deste ano subiu de 3,91% para 4,1% apenas na última semana —e o BC terá
dificuldade em baixar os juros se o índice e as expectativas se distanciarem da
meta de 3%. Mais lentidão no relaxamento monetário significa perspectivas
piores para o crescimento econômico, já desacelerado, e a dívida pública.
Outra frente de incertezas veio da política.
Pesquisas do Datafolha e de outros institutos indicam uma disputa eleitoral
mais difícil para Lula, agora empatado com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas simulações
de segundo turno.
Se eram nulas as chances de medidas para
conter o déficit das finanças da União até a abertura das urnas, o novo cenário
eleva a desconfiança quanto a novas despesas destinadas a fortalecer a
popularidade do incumbente —e os subsídios recém-instituídos para conter o
preço do óleo diesel reforçam tal percepção.
Quanto ao adversário, a incógnita transcende
o campo econômico e chega ao institucional, dada a meta de Flávio de livrar o
pai da prisão por tentativa de golpe de Estado. Nessa seara, a crise de
credibilidade em que o Supremo Tribunal Federal (STF) mergulhou
com o escândalo do Banco Master ajuda a mobilizar o bolsonarismo.
É obviamente cedo para vaticínios, mais ainda
para catastrofismo. De todo modo, é fato que o cenário econômico já seria
desconfortável para o país em razão do descalabro orçamentário do governo
petista. As limitações para uma queda mais expressiva dos juros estavam postas,
assim como a necessidade de reformas difíceis na próxima administração,
qualquer que seja ela.
O momento é de maior volatilidade, como se vê
no vaivém diário do dólar e
das Bolsas, e as dúvidas econômicas e políticas tendem a alimentar umas às
outras.
Trump contra a imprensa
Por Folha de S. Paulo
Chefe de órgão regulador ameaça revogar
licenças de emissoras de TV por discordar da cobertura da guerra
Em casa, presidente americano ameaça um dos
pilares da democracia, a mesma que se arvora a defender no cenário global
No sábado (14), o presidente da Comissão
Federal de Comunicações dos EUA (FCC), agência reguladora do setor, ameaçou
revogar licenças de emissoras de televisão do país por causa do
que chamou de "boatos e distorções" na cobertura da guerra com
o Irã.
Brendan Carr, nomeado para a chefia do órgão
por Donald Trump no
início do mandato presidencial, disse que "as emissoras devem operar em
prol do interesse público e perderão suas licenças se não o fizerem".
Ora, o interesse público atendido pela
imprensa nas democracias liberais é justamente o escrutínio dos atos de
governo. Usar ferramentas regulatórias para controlar a atividade jornalística
que não agrada ao mandatário de turno é tão somente prática típica de regimes
autoritários. E não é a primeira vez que Carr aventa essa manobra.
Em setembro de 2025, disse numa entrevista
que a programação da rede de televisão ABC deveria ser substituída. Horas
depois, a
atração do comediante Jimmy Kimmel foi suspensa pela emissora
—grupos de direita haviam criticado falas de Kimmel a respeito do assassinato
do ativista conservador Charlie Kirk. À época, a retirada de licenças de
empresas de comunicação foi expressamente endossada por Trump.
Embora a revogação de licenças seja um
processo complexo, ainda mais num país onde as liberdades de expressão e de
imprensa são protegidas de forma robusta pela Constituição, o movimento de
autoridades nesse sentido pode criar um efeito inibidor no trabalho
jornalístico.
A FCC também é responsável por autorizar
aquisições e fusões no mercado de mídia,
fator que também faz parte do embate travado entre a Casa Branca e empresas de
comunicação.
A Nexstar, dona de 32 estações afiliadas à
ABC e que interrompeu a transmissão do programa de Jimmy Kimmel antes dela,
busca desde o ano passado autorização para uma fusão com a Tegna, outra empresa
do setor.
Na sexta (13), ao reclamar da cobertura sobre
a guerra no Irã, o secretário de Defesa Pete Hegseth disse que gostaria de ver
David Ellison, CEO da Paramount e
aliado de Trump, assumir a Warner Bros.,
que controla a CNN —a
Paramount busca a aquisição da Warner por US$ 110 bilhões.
Trump reage à baixa popularidade e à oposição dos americanos à guerra no Irã da forma contraditória que lhe é peculiar: no ambiente doméstico, ameaça um dos pilares da democracia, a mesma que se arvora a defender no cenário global.
A asfixia do setor produtivo
Por O Estado de S. Paulo
O esforço de renegociação de R$ 65,1 bilhões
em dívidas da Raízen, gigante formada da parceria entre Cosan e Shell há 15
anos, voltou os holofotes para os números recordes de processos de recuperação
extrajudicial, movimento que parece andar na contramão dos bons indicadores
econômicos atuais. O anúncio da Raízen, feito com apenas algumas horas de
diferença de processo semelhante aberto pelo Grupo Pão de Açúcar, líder
histórico do setor supermercadista que tenta equalizar uma dívida de R$ 4,5 bilhões,
acabou virando referência para o complicado ambiente de negócios nacional.
Entre recuperações judiciais (supervisionadas
formalmente pela Justiça) e extrajudiciais (estruturadas diretamente entre
empresa e credores), o ano de 2025 contou 5.680 processos, um recorde
histórico, como mostrou recente reportagem do Estadão com dados do
Monitor RGF de Recuperação Judicial. O ano de 2026, segundo especialistas,
segue a mesma toada. Somente os processos extrajudiciais – instrumento legal
criado no Brasil há apenas duas décadas – foram 68 no ano passado, volume
também recorde, de acordo com levantamento do Observatório Brasileiro de
Recuperação Extrajudicial publicado pelo jornal Valor.
São diversos os motivos que deixam empresas
incapacitadas de pagar suas dívidas. Crises financeiras podem ser causadas por
má gestão, planejamento comercial mal dimensionado, negócios de risco que não
deram o retorno esperado, dificuldades na captação de financiamento e capital
de giro, queda severa na demanda, disputas societárias ruinosas e até fraudes
corporativas. Enfim, não há como desprezar que boa parcela da responsabilidade
pelas crises corporativas cabe à própria condução das empresas.
Mas há, nos casos recentes, um denominador
comum: a taxa básica de juros (Selic), que em quatro anos e meio – de janeiro
de 2021 a junho de 2025 – passou de 2% para 15%, patamar em que se mantém até o
momento e que contribui para multiplicar o saldo de dívidas financeiras. A
disparada não foi acidental ou arbitrária, mas uma necessidade monetária para
controlar a inflação e preservar o valor de compra do real diante de uma
economia superaquecida por políticas oficiais de incentivo ao crédito e ao
consumo.
O aumento da inadimplência e, em último
estágio, a insolvência são o saldo deletério de uma política econômica que só
atende aos interesses demagógicos do governo, em detrimento do controle da
inflação. No afã de acelerar o giro do dinheiro, fabricando uma imagem da
economia que não condiz com a realidade para dizer que está colocando “dinheiro
no bolso do povo”, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva joga as consequências
de sua irresponsabilidade no colo tanto de empresas quanto de pessoas físicas.
Está aí a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) para
comprovar: em fevereiro, a proporção de endividamento das famílias brasileiras
bateu 80,2%, o maior nível de toda a série histórica do levantamento, feito
mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
(CNC) desde 2010.
Remar contra uma maré de instabilidade
econômica e políticas públicas ineficientes não é fácil. E é esse o resultado
da desconexão entre as decisões de empresas e indivíduos (microeconomia) e a
condução da macroeconomia (inflação, juros, PIB, etc.). É o tipo de desordem que
costuma, cedo ou tarde, levar a crises econômicas mais sérias e recessão.
De acordo com o Monitor RGF, das 5.680
empresas em processo de reestruturação em 2025, o setor com maior aumento de
insolvência foi o agronegócio, com 493 empresas, justamente o que mais tem
contribuído positivamente para o Produto Interno Bruto (PIB). Fatores como
mudanças climáticas e quebras de safra tendem a desequilibrar as contas, mas
não há como desconsiderar a forte dependência da Selic, em razão da necessidade
intensiva de capital do agronegócio.
A queda dos juros, alívio esperado por
empresas e famílias, não depende exclusivamente do Banco Central. O governo tem
de fazer sua parte.
Tarcísio vê ‘oportunidade’ onde não há
Por O Estado de S. Paulo
Governador se equivoca ao afirmar que
classificação de PCC e CV como terroristas pelos EUA pode trazer mais recursos
ao Brasil; ao contrário, medida pode resultar em sanções a empresas locais
O governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas, afirmou ver como “oportunidade” uma possível classificação do Primeiro
Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas
pelos EUA.
O governo de Donald Trump sinaliza que dará
às organizações criminosas brasileiras o mesmo tratamento que já dispensa a
diversas facções da América Latina. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva, por
sua vez, é contra, no que está certo. O objetivo do PCC e do CV é enriquecer
explorando atividades ilícitas variadas, enquanto grupos terroristas têm
objetivos políticos e/ou ideológicos.
É inegável que PCC e CV são capazes de ações
extremamente violentas, de grande impacto na vida da população. O
fortalecimento das ações de combate a essas facções é mais do que necessário,
mas designá-las como terroristas está longe de representar a melhor solução
para o problema, por mais que a medida tenha apelo numa sociedade vítima desses
criminosos.
Para o governador paulista, porém, a partir
do momento em que um governo como o dos EUA encara o PCC como organização
terrorista, “fica aberto o caminho da cooperação para que a gente possa
integrar inteligência, para que a gente possa trazer recursos financeiros e
para que a gente possa fazer um combate ainda mais efetivo”.
Ao contrário do que afirmou Tarcísio, porém,
não é preciso que os EUA classifiquem PCC e CV como terroristas para que
americanos e brasileiros estreitem sua cooperação no combate ao crime
organizado.
Como ressaltou o promotor Lincoln Gakiya à
GloboNews, a troca de dados entre o Ministério Público brasileiro, o FBI e a
DEA ocorre de forma fluida via cooperação policial. Com a reclassificação,
porém, essas informações podem ser categorizadas pelos americanos como
“confidencial”, o que dificultaria o acesso dos investigadores brasileiros aos
dados. Gakiya tem ampla experiência no combate ao PCC, que, inclusive, o jurou
de morte.
O governador também se equivoca quando
associa o tratamento do PCC como grupo terrorista à obtenção de mais recursos
financeiros para o combate ao crime no Brasil. Na realidade, a reclassificação
pode trazer problemas financeiros ao País.
Como explicou o promotor Gakiya, “quando você
classifica uma organização como terrorista, autoriza o governo americano a
executar ações militares fora do Estado americano, e você também pode abrir aí
um flanco para que o Brasil sofra algum tipo de sanção econômica e mesmo nas
relações internacionais”.
Em artigo para o Valor, o advogado Raphael Soré
chama a atenção para o potencial efeito cascata nas cadeias de negócios aqui,
no Brasil, caso o Departamento de Estado americano realmente designe PCC e PV
como terroristas. “A medida desencadeia um regime de sanções financeiras e
comerciais com efeitos que se estendem muito além das pessoas diretamente
envolvidas. Na prática, membros das organizações designadas, bem como empresas
ou indivíduos considerados seus facilitadores ou parceiros comerciais, passam a
enfrentar restrições severas em suas relações com o sistema financeiro”, afirma
Soré.
Em ano de eleição presidencial, Tarcísio e
boa parte da oposição endossam abertamente mais uma proposta de Trump,
esperando capitalizar a linha dura contra a criminalidade embutida na
iniciativa americana e, ao mesmo tempo, vincular ao governo petista a imagem de
defensor do PCC e do CV.
A esta altura, a oposição já deveria estar
escaldada pelo comportamento errático de Trump, sempre disposto a usar
interpretações criativas de leis e tratados para agir como lhe dá na cabeça. De
uma hora para outra, ele pode decidir que uma organização criminosa é
“terrorista” e ordenar uma ação em qualquer país latino-americano que a
abrigue.
Tarcísio já cometeu o equívoco de vestir o
boné do movimento Make
America Great Again (Maga) durante a campanha eleitoral
norte-americana. Em meio à ofensiva tarifária de Trump, que penalizou, em
especial, a economia paulista, a imprudência do governador foi reavivada nas
redes sociais. Agora, ele trata como “oportunidade” uma proposta do presidente
dos EUA que, mais uma vez, tende a causar embaraços ao País.
‘Operação abafa’ em ação
Por O Estado de S. Paulo
Omissão de Zanin sobre a CPI do Master ecoa
padrão de atrasos e desestímulos às investigações
O escândalo do Banco Master reúne
ingredientes exorbitantes para justificar escrutínio rigoroso: fraudes
bilionárias e uma teia de influências que atravessa Brasília. O povo exige
repostas e, em situações assim, a Constituição oferece à Casa do Povo um
instrumento clássico de esclarecimento: a comissão parlamentar de inquérito
(CPI). Ainda assim, a CPI do Master continua parada, e uma decisão do ministro
do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin contribuiu para mantê-la
nesse limbo.
Zanin rejeitou um pedido para obrigar o
presidente da Câmara, Hugo Motta, a instalar a comissão, argumentando que a
abertura constitui assunto interno do Poder Legislativo. À primeira vista, soa
prudente. Ninguém – muito menos este jornal – deseja um Supremo transformado em
diretor de pauta do Congresso.
Mas o raciocínio desmorona ao primeiro
contato com a Constituição. O artigo 58 estabelece critérios objetivos para a
criação de CPIs: apoio de um terço dos parlamentares, fato determinado e prazo
certo – condições presentes no requerimento da CPI do Master. A regra existe
justamente para impedir que a maioria – ou, pior, a presidência da Casa – asfixie
investigações incômodas.
O próprio Supremo já reconheceu isso em
diferentes ocasiões – notadamente na CPI da Covid, em uma decisão no plenário
de 10 contra 1, em 2021. A decisão de Zanin, portanto, exprime não prudência
institucional, mas uma jurisprudência gelatinosa.
Os casuísmos de Zanin incomodam ainda mais à
luz da atmosfera política em torno do escândalo Master. No Congresso, a
abertura da CPI enfrenta obstáculos conhecidos do manual brasiliense de
abafamento: controle rígido da pauta, critérios procedimentais improvisados e
sessões convenientemente esvaziadas. A condução do tema por Motta e pelo
presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tem produzido exatamente o efeito
desejado por quem prefere ver o assunto esfriar: tempo.
No próprio Supremo, a liminar do ministro
Gilmar Mendes que anulou medidas investigativas da CPI do Crime Organizado
sobre a empresa do colega Dias Toffoli, que manteve negócios com fundos ligados
ao Master, desarticulou uma linha de apuração relevante. A trajetória do caso
no STF, inicialmente sob a relatoria do próprio Toffoli – agora confessadamente
suspeito –, criou uma zona cinzenta onde se acumulam indícios de obstrução.
Explicações do escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes sobre um contrato
multimilionário com o Master suscitaram mais perguntas do que respostas.
O procurador-geral Paulo Gonet retardou a
análise de medidas urgentes e arquivou representações relacionadas ao caso,
como se estivesse disposto a disputar com seu antecessor o título de
“engavetador-geral da República”.
A CPI foi concebida para dar às minorias parlamentares um instrumento para escrutinar escândalos que as maiorias prefeririam esquecer. Quando esse instrumento é retardado por manobras políticas, neutralizado por decisões judiciais ou cercado por explicações opacas, a mensagem transmitida ao País é de que, em Brasília, a investigação avança apenas até o ponto em que se torna inconveniente.
Tesouro intervém para deter volatilidade de
títulos
Por Valor Econômico
A certeza da piora fiscal ao longo dos
próximos anos pôs nas alturas as taxas que os investidores cobram para
financiar a dívida pública
A economia global não suportará uma guerra de
longa duração no Oriente Médio, e a brutal queda de fornecimento de petróleo
por uma de suas principais vias, o Estreito de Ormuz, além de encarecer bens e
serviços da maioria das atividades econômicas, tende a se deslocar para uma
revisão nos preços dos ativos nos mercados financeiros. Os juros tendem a subir
onde estavam estabilizados, como no caso europeu, e a parar de cair como nos
Estados Unidos. A alta nas apostas sobre o custo do dinheiro com títulos públicos
no Brasil levou ontem o Tesouro a fazer uma recompra de papéis prefixados que,
com a alta dos juros, traz prejuízos a quem precisa vendê-los antes do prazo
com marcação a mercado. O BIS, banco central dos bancos centrais, emitiu um
alerta de que o prolongamento da guerra poderá ampliar a fuga de ativos
arriscados nos mercados financeiros e piorar a situação fiscal de governos já
muito endividados, elevando os danos econômicos ao redor do mundo.
Os improvisos do presidente americano, Donald
Trump, e a resistência do regime dos aiatolás sugerem que não há um fim à vista
para os conflitos. Os apelos de Trump aos países da Organização do Tratado do
Atlântico Norte (Otan) para que auxiliem os EUA a derrotar o Irã foram ouvidos,
mas até agora rejeitados ou ignorados. O pedido à China para que intervenha
(ela compra quase toda a produção iraniana) foi obviamente infrutífero. As
tentativas de França e Itália de obter uma trégua para passagem de seus navios
não deram resultado: com menor poder bélico e visivelmente enfraquecido, o
único poder de Teerã é causar o máximo de perdas ao redor, para que as pressões
pelo término da guerra recaiam sobre os ombros de Trump. Este, por sua vez, não
desistiu de objetivos maximalistas como a rendição incondicional, que não vai
acontecer.
O abastecimento de petróleo piora a cada dia.
A produção de óleo do Iraque caiu 70%, a dos Emirados Árabes Unidos, 50% e a da
Arábia Saudita, maior produtor da região, 20% (Reuters, ontem). Pelo menos 10
milhões de barris diários deixaram de fluir por Ormuz na última semana.
Os preços dos combustíveis já foram
repassados onde os mercados são livres (EUA) e mesmo nos mais controlados, como
no Brasil: o diesel foi reajustado em meio a uma operação do governo de
subsídios e corte de impostos, com claros efeitos eleitorais. O choque de
oferta de petróleo deixou o terreno livre para a inflação subir, o que muda as
expectativas dos agentes econômicos e dos bancos centrais. No Brasil, a previsão
de corte de 0,5 ponto na reunião do Copom caiu pela metade, e o juro estimado
para o fim do ciclo começa a se afastar dos 12%, para cima. O Banco Central do
Brasil e o Federal Reserve têm um encontro marcado com a nova realidade hoje e
amanhã.
A certeza da piora fiscal ao longo dos
próximos anos pôs nas alturas as taxas que os investidores cobram para
financiar a dívida pública, e elas ganharam novo impulso altista com o aumento
do petróleo e com a possibilidade de turbulências que ele enseja. Diante da rapidez
da deterioração do cenário, as apostas feitas nos títulos prefixados começam a
dar prejuízos com nova alta dos juros. Um título prefixado para 2029 caiu 2,3%
até sexta no mês. O Tesouro parou de vender títulos ontem e fez uma recompra
equivalente em R$ 12,1 bilhões. LTNs com vencimentos em janeiro de 2028, 2029 e
2030 foram resgatadas por 13,58%, 13,65% e 13,81%, respectivamente. O Tesouro
deu alguma saída a investidores que apostaram errado e procurou reduzir a
volatilidade das taxas do mercado, o que não ocorrerá até que haja um horizonte
de paz, mesmo que provisória, no Oriente Médio.
A alta nas cotações do petróleo traz
intranquilidade e acrescenta mais um elemento a um ambiente de incertezas. O
Federal Reserve poderá ter de elevar os juros em algum momento, enquanto no
mercado americano há vendas significativas de títulos de fundo de crédito
privado e uma sangria nas ações das empresas de software, vítimas do avanço da
Inteligência Artificial. Os enormes gastos com a guerra de Trump e seu corte de
impostos agravarão o resultado fiscal já muito ruim, os títulos do Tesouro
americano vão subir, e com os juros o dólar, que inverteu sua tendência de
queda. Com as condições financeiras cada vez mais desfavoráveis e inflação em
alta, haverá menor consumo, investimentos e crescimento, preços em ascensão e
um cenário de estagflação. Reviravoltas desta natureza, em geral, costumam vir
acompanhadas de turbulências financeiras.
A economia global, em especial a americana,
escapou do freio das tarifas de Trump, em parte porque ele voltou atrás, em
parte pelos investimentos gigantescos das big techs em IA. Pode não haver este
anteparo agora: a tecnologia é uma enorme consumidora de energia, e a guerra
coloca em realce não só a incerteza de sua oferta como os preços com que será
feita, avalia Andy Haldane, ex-economista chefe do Banco da Inglaterra (FT,
15-2).
O principal ponto frágil do Brasil é a situação fiscal, e em ambientes de instabilidade ela tende a crescer, ainda mais em um ano eleitoral. As ações já tomadas pelo governo indicam que não hesitará em lançar mão de um dinheiro que não tem se o preço for a perda de popularidade.
A guerra é de todos
Por Correio Braziliense
Da perspectiva exclusivamente brasileira,
doméstica, uma guerra prolongada e extensa no Oriente Médio torna-se fator de
peso em um ano que tem o horizonte na corrida pelo Planalto.
Foi uma decisão unilateral da Casa Branca que
determinou o início de mais uma guerra no Oriente Médio. No máximo, e é
bastante plausível, Donald Trump acertou ponteiros apenas com o
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para dar início aos
bombardeios sobre o Irã. A reação do regime islâmico de Teerã não permite nem o
menor espasmo de surpresa. Desde o ano passado, quando a coalizão
Trump-Netanyahu atacou instalações nucleares iranianas, estava delineada a
resposta: alvos israelenses e norte-americanos, inclusive as múltiplas bases
militares abrigadas nas monarquias árabes da vizinhança, seriam objeto de
retaliação.
Uma observação superficial e ligeira poderia
induzir à conclusão de que, lamentável como todos os conflitos armados, pelos
sofrimentos humanos e pelas perdas materiais que acarreta, esse seria um
assunto alheio a nós, da distância em que nos encontramos.
Duas semanas recém-completadas de ataques e
contra-ataques diários bastam para deixar claro: a nova guerra que se alastra
pelo Oriente Médio é assunto que causa impactos muito além do cenário dos
combates, que, por si, não chega a ser tão limitado. Mesmo aqui, as
turbulências no mercado do petróleo e derivados já projetam impactos.
Da perspectiva exclusivamente brasileira,
doméstica, uma guerra prolongada e extensa no Oriente Médio torna-se fator de
peso em um ano que tem o horizonte na corrida pelo Planalto. Outubro pode
parecer distante, mas, até por isso, os seis meses de distância até o primeiro
turno são tempo bastante para que se sucedam solavancos e imprevistos na
economia — a começar pelos desdobramentos de uma disparada nas cotações
internacionais do petróleo.
Mais do que em disputas anteriores, governo e
oposição se veem, desde logo, condicionados a construir programas e plataformas
que levem em conta a guerra de Donald Trump e Benjamin Netanyahu, com seus
impactos globais. O cenário externo, os alinhamentos e afinidades de cada campo
político já figuraram na agenda de campanhas anteriores, com maior ou menor
destaque. Neste ano, é diferente.
O desenrolar da crise no Oriente Médio terá
peso decisivo quando o eleitor comparecer às urnas. E quem se apresentar como
candidato a conduzir o país nos próximos quatro anos será chamado a expor
ideias e planos para a inserção do país em uma ordem internacional em plena
transformação.
Caberá a cada um mostrar, em entrevistas,
pronunciamentos, debates e demais ocasiões da disputa, a profundidade e agudeza
com as quais enxerga as injunções impostas ao Brasil. E, por consequência, os
caminhos e passos que vislumbra para que o país se movimente nesse terreno
pantanoso de maneira a minimizar prejuízos e — igualmente importante — agarrar
oportunidades.
De certo, em um mundo tão prenhe de
incertezas e incógnitas, resta a compreensão de que ninguém mais pode construir
um futuro em voo solo. A capacidade para interpretar os movimentos das
contrapartes, em especial dos parceiros, presentes ou potenciais, definirá o
tamanho e a qualidade dos frutos a serem colhidos adiante.
É esse o debate que se pode esperar na campanha que se avizinha.
O cinema brasileiro para além do Oscar
Por O Povo (CE)
A esperada premiação ao filme brasileiro
"O Agente Secreto" não veio em 2026, infelizmente, apesar das
indicações obtidas nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional,
Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Seleção de Elenco. Resultado que gera uma
frustração, é natural, mas que precisa ser administrado no seu limite para que
não acabe por minimizar os ganhos que a atividade teve com a visibilidade dos
últimos anos, lembrando-se que a estatueta em 2025 havia sido ganha por
"Ainda Estou Aqui".
A própria trajetória internacional vitoriosa
de "O Agente Secreto", para além do Oscar com toda sua simbologia e
influência, desautoriza, em tese, qualquer sentimento de derrota com o que
aconteceu na noite do último domingo. São, no total, 76 prêmios acumulados,
alguns deles de festivais bastante disputados, a começar pelo reconhecimento em
Cannes, de onde o filme saiu com duas estatuetas: melhor ator, para Wagner
Moura, e melhor diretor, para Kléber Mendonça Filho. Foi o primeiro
reconhecimento, de muitos que viriam ao longo da temporada.
A qualidade do cinema brasileiro é
reconhecida pelo mundo e isso não depende de premiações que suas obras
eventualmente recebam, inclusive porque os critérios utilizados nem sempre
correspondem aos padrões técnicos mais rigorosos. Qualquer análise que se faça
do desempenho do representante brasileiro precisa partir deste ponto, o que
indica que temos um saldo altamente positivo no balanço de encerramento da
temporada de filiações. Com o Oscar incluído e apesar do resultado final
frustrante
Lamente-se, apenas, termos vivenciado mais
uma situação em que a contaminação política levou o debate para um outro
caminho, no ponto limite em que a falta de prêmio do nosso representante na
festa chegou a ser objeto de comemoração por parte de alguns. Claro que não se
pode obrigar que as pessoas tenham gostado do filme apenas pelo fato dele ter,
simbolicamente, as cores do nosso País, mas, de outra parte, também é pouco
lógico que as posições ideológicas dos envolvidos, em especial do diretor
Kléber Mendonça e do ator Wágner Moura, fundamente a resistência de uma parcela
de brasileiros ao enjagamento na entusiasmada torcida para que saíssemos
vencedores mais uma vez.
O importante, como saldo positivo real de todo o processo, é que os dois anos consecutivos do Brasil no Oscar, disputando mais de uma categoria em ambos e incluindo sua obra na disputa pelo prêmio principal de Melhor Filme geral, sinalizam um momento favorável. É preciso, agora, que a reconexão com o público, o reencontro com qualidades que o cinema nacional sempre apresentou, sejam transformados em ações concretas para termos uma política para o setor capaz de lhe garantir sustentabilidade e evitar que estejamos apenas diante de uma onda que, como outras já vivenciadas, um dia passará.

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