O Globo
Quando alguém com o sobrenome Bolsonaro se
põe em campanha, já surge com pelo menos 20% das intenções de voto
Celso Rocha de Barros, do podcast Foro de
Teresina e colunista da Folha de S. Paulo, é um dos melhores analistas políticos
brasileiros. Ele vem puxando, nas últimas semanas, um debate muito importante.
Em sua opinião, não apareceu uma alternativa à família Bolsonaro pelo flanco
direito por responsabilidade da própria direita. Para ele, quando seus
principais líderes não condenam com clareza o golpismo do ex-presidente Jair
Bolsonaro, não surge alternativa.
Houve resistência. O ex-governador paulista João Doria se bateu de peito aberto contra o ex-presidente. Alguns deputados federais, também. O MBL ensaiou participar de um pedido de impeachment. Agora está distante e muita gente não lembra, mas o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), foi para a rua defender o distanciamento social no princípio da pandemia. Todos os que enfrentaram Bolsonaro sofreram derrotas eleitorais acachapantes. Ou recuaram. Todos sabem que Bolsonaro não é um bom confrade político. É desleal, trai sem dó, não cumpre acordos. Não bastasse, é um paranoico que vê conspirações por toda parte. Todo mundo compreende que Bolsonaro só confia na própria família. Golpista é só um dos adjetivos que cabem a Bolsonaro.
Há uma miragem nas pesquisas. A base dura do
bolsonarismo circula entre 13% (Quaest) e 12% (Ideia), mas, quando alguém com o
sobrenome Bolsonaro se põe em campanha, já surge com pelo menos 20% das
intenções de voto. É instantâneo. Isso pode ser medido pelas pesquisas
espontâneas, quando não são oferecidas opções para os entrevistados. De
bate-pronto o entrevistado já logo saca, quero votar neste. Um quinto dos
brasileiros já tem o nome Bolsonaro na ponta da língua e responde assim, na
lata. Desde 2006, Lula tem
30% de base.
Os números de Lula são sólidos há 20 anos.
Não mudarão. Não sabemos o que se dá entre os 12%-13% da base sólida pelas
pesquisas e os 20% da espontânea de seu adversário. Essa base, Bolsonaro não
teve por boa parte da campanha de 2018, mas já estava lá em 2022 e permanece
desde então. Foi toda transferida, agora, para seu filho Flávio.
A provocação de Celso é boa, mas depende da
compreensão de como se dá a política. A sociedade dá o tom, e os políticos
reagem? Ou os políticos dão o tom, e a sociedade se adéqua? É um debate antigo
e que não se resolve apenas na dicotomia. As duas coisas acontecem. Grandes
líderes são capazes de convencer a sociedade a ir com eles, mas na maioria das
vezes o caminho é o contrário. Políticos sentem o clima e constroem o discurso
para que reverbere no sentimento popular já presente. O trabalho de
marqueteiros políticos costuma ser justamente este: convencer o eleitor de que
seus anseios existentes serão atendidos pelo candidato A ou B.
Se o problema for uma base sólida de 20% da
sociedade que é bolsonarista, não há o que qualquer político de direita consiga
fazer. Porque dificilmente outro candidato ultrapassará essa marca. E a coisa
complica. Segundo a pesquisa Meio/Ideia, que coordeno com o economista Maurício
Moura, 54% dos brasileiros não acreditam que Bolsonaro tentou um golpe de
Estado em 2022. Acham que ele foi injustiçado. Mais de metade dos brasileiros.
É por isso que os governadores do
Paraná, Ratinho
Junior (PSD), de Minas, Romeu Zema (Novo),
e o próprio Caiado hoje fazem um discurso ambíguo sobre o golpe e defendem
anistia. O único que acusa o golpe com clareza é o gaúcho Eduardo Leite (PSD).
O cálculo do trio pró-anistia é eleitoral, não tem nada a ver com convicções
pessoais. Eles olham as pesquisas, sabem que do eleitorado à esquerda não
tirarão votos e concluem que, para ter chance de vitória, precisam dizer essas
coisas. Que não está claro se houve tentativa de golpe. Houve. Só que mais de
metade do Brasil não entende assim.
Por quê? Nesses 54% tem muita coisa. Por exemplo, antipetismo. Na polarização afetiva, se você está de um lado, já se posiciona com uma coleção de bandeiras contra o outro sem pensar. Há, também, a frustração com o Supremo Tribunal Federal (STF) no caso Master. O autoritarismo e o corporativismo da Corte estão destroçando a imagem do STF para um pedaço do Brasil que se amplia, e isso contamina a percepção a respeito do julgamento do golpe. A defesa do Supremo pela militância de esquerda e o ataque a jornalistas colaboram mais para a sensação de que autoritário é o outro lado. E tem o tempo. Muitos esqueceram o inferno que foi viver aquele governo. Pois é. E se o problema não forem os políticos de direita? E se o problema estiver na sociedade?

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