sábado, 31 de janeiro de 2026

De mãos dadas com o trambique. Por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

O nepotismo das emendas família lembra a atuação de parentes de ministros na corte

Inquérito contra Vorcaro revela conexões perigosas com deputados, senadores e magistrados

Os embates entre Executivo, Legislativo e Judiciário não vêm de hoje, basta lembrar a tentativa de golpe. Marcaram o ano de 2025, deixando a impressão de que não haverá trégua no curto prazo. Erros e excessos se avolumam, e outra batalha institucional se desenha no horizonte.

Com a credibilidade mais abalada que a do Congresso pelo escândalo do Banco Master, o STF tem pressa para votar antes das eleições de outubro o chamado inquérito-mãe, primeira de uma série de ações sobre desvios de emendas, recursos públicos utilizados sem transparência e sem comprovação de destino. A farra de bilhões engloba quase todos os partidos, em especial aqueles que se escondem sob o apelido de centrão.

Os parlamentares preparam a reação. Só na Câmara tramitam 39 propostas que buscam restringir o poder da corte, definindo crimes de responsabilidade e regulando o impeachment de ministros. A maioria é uma espécie de PEC da Bandidagem revivida, que impede a investigação e a prisão de deputados. O PL comanda o movimento, com 14 matérias.

Em meados de dezembro, o ministro Flávio Dino proibiu a destinação de emendas para ONGs controladas por familiares, ex-assessores e aliados políticos. Um tipo de repasse que uniu esquerda, direita e centrão. O montante saltou dez vezes desde 2019, chegando ao recorde de R$ 1,7 bilhão no ano passado.

A improbidade e o nepotismo das "emendas família" guardam semelhanças com o aumento na demanda por serviços de escritórios de advocacia cujos titulares e associados são ligados a ministros do Supremo.

O inquérito contra Daniel Vorcaro revela conexões perigosas com deputados, senadores e magistrados. Dias Toffoli e sua parentela concentram as dúvidas, que passam pela mulher de Alexandre de Moraes, contratada pelo Master, e o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, que tem vínculo financeiro com o banco. Na hora de cultivar boas relações com Vorcaro –o trambiqueiro que num único mês torrava R$ 2,4 milhões no cartão de crédito–, Congresso e STF andam de mãos dadas.

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