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Estamos diante da ascensão de uma nova
extrema-direita dotada de elevadíssimo potencial autoritário, assim como a
clássica extrema-direita nazifascista, mas com novas vestes e novo instrumental
As formas de autoritarismo do século XXI
possuem determinadas especificidades quando comparadas àquelas do século
anterior. Ainda que identifiquemos elementos de continuidade, as manifestações
dos últimos anos, por estarem diluídas na rotina democrática, tornam o tema
ainda mais desafiador.
O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um estado de exceção em sua acepção clássica para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Ou seja, deparamo-nos com um estado de exceção que se manifesta por medidas de exceção, não por governos de exceção. Em outras palavras, utilizamos a denominação autoritarismo líquido para falar dessa nova natureza das medidas de exceção no interior das rotinas democráticas, por se tratar de medidas fragmentadas, cirúrgicas, acionadas sob uma aparência de legalidade, o que torna sua identificação mais difícil.
Essa nova forma de autoritarismo é
identificada no governo de Donald Trump, no âmbito do qual foram adotadas
medidas que restringem o direito à livre expressão por parte de cientistas e
pesquisadores e os direitos de imigrantes, que colocam em xeque o
multilateralismo e a soberania das nações, e que visam, em escala ampla,
fragilizar as instituições domésticas de controle do poder e de tutela dos
direitos sociais.
Nas fronteiras norte-americanas identificamos
o esvaziamento de
direitos dos imigrantes, em face dos quais tem sido adotada a força bruta.
Deportações cruéis e degradantes, amparadas em violência e desrespeito à
integridade física e moral, objetivam transmitir o contundente recado de que o
outro ali não será aceito. Trata-se de um recado categórico de uma nova
forma de tratar o inimigo, desumanizando-o ao subtrair a proteção jurídica e
política mínima que qualquer corpo humano deveria ter direito em face de todo e
qualquer poder político.
Mais recentemente, o trumpismo passou a
insurgir-se contra o multilateralismo, bem como sobre a arquitetura
institucional de Direito internacional público construída após as duas grandes
guerras mundiais, e sobre a soberania das nações.
A desumanização levada a efeito pela exceção
ocorre escolhendo o inimigo e nomeando-o. É a linguagem que desumaniza o
inimigo por meio do enquadramento em determinada categoria supressora de
qualquer individualidade, seja enquanto ser humano, seja enquanto Estado dotado
de soberania.
Tais exemplos nos levam a afirmar,
enfaticamente, que os Estados Unidos vivem um momento especialmente
autoritário, colocando por terra a imagem de que já assumiram incondicional –
ou ao menos relevante – posição na tutela dos direitos em escala global.
Isso é grave e vai ter repercussões profundas
não apenas na vida norte-americana, mas no mundo todo. Estamos diante da
ascensão de uma nova extrema-direita dotada de elevadíssimo potencial
autoritário, assim como a clássica extrema-direita nazifascista, mas com novas
vestes e novo instrumental. Medo, ódio e insegurança estão sendo capturados
pelo soberano por meio de discursos pretensamente racionais e legitimadores da
imposição de mecanismos de segregação e violência, em prejuízo da pluralidade e
da tolerância.
Os exemplos aqui citados, aos quais se somam
muitos outros, tais como o enfraquecimento de órgãos multilaterais de defesa
de direitos, guerra comercial e utilização do caos e da força bruta como
instrumentos cotidianos de formação de capital político, nos levam a alertar
que a história humana não ocorre por fases estanques, como às vezes a descrição
didática em períodos transparece ao inadvertido. Ao contrário, ela se revela
por meio de processos complexos, nos quais elementos de conformação política e
social do período anterior podem ser – e comumente são – identificados nos subsequentes.
Inexistem, inclusive, garantias contra retrocessos e involuções civilizatórias.
A análise do autoritarismo líquido,
assim intitulado por não se assumir como tal, não ser uniforme e minar, em
intensidades variadas, os âmbitos da vida democrática, impõe aprofundado estudo
dos fatores de desestabilização e de subversão dos direitos fundamentais e da
democracia. O enfrentamento à gradual fragilização dos espaços e dos sentidos
da democracia e da relação de pertencimento à sociedade requer que desnudemos
os artifícios das novas formas de autoritarismo enfraquecedoras do nosso pacto
civilizatório e do arranjo de soberania das nações tal como conquistado
duramente. •
Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital,
em 04 de fevereiro de 2026.

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