terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Fachin diz que democracia está ameaçada

Por Iago Mac Cord / Correio Braziliense

Presidente do STF volta a advertir sobre agressões ao Estado de Direito, desta vez na Corte Interamericana de Direitos Humanos

Ao discursar, ontem, na abertura do ano judicial na Corte Interamericana de Direitos Humanos, em São José da Costa Rica, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, voltou a alertar sobre as ameaças ao Estado de Direito ao advertir que a democracia atravessa "tempos desafiadores" no continente. Ele tinha manifestado essa mesma preocupação na carta, que divulgou na semana passada, em defesa do STF e do ministro Dias Toffoli — cujas decisões relacionadas ao inquérito da negociação entre Banco Master e BRB vêm sendo contestadas —, quando afirmou que a Corte acompanha atentamente as movimentações da extrema-direita no Brasil.

Segundo Fachin, a "democracia não é neutra diante de quem a pretende destruir". Afirmou, ainda, que, apesar de a democracia não ter cumprido suas promessas — como a de igualdade —, é na sua ausência que "se nutrem os populismos autoritários para miná-la por dentro". Para o ministro, o momento atual exige "a defesa da civilização e dos pactos civilizatórios contra a barbárie que quer se instalar em todo o continente, e também em países da Europa continental".

"Apesar dessas incertezas, creio que há esperança ainda a ser enunciada. A história, esta que não se encerra, é obra humana. Somos agentes do processo social e político. Nada está destinado, tudo está em disputa, e nesse campo de disputabilidade de sentidos, se a democracia não nos oferece certeza, ela nos oferece, ainda e sempre, possibilidades", afirmou.

8 de Janeiro

O magistrado lembrou os três anos da tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023 para ilustrar os riscos institucionais. Fachin disse que a invasão às sedes dos Três Poderes visava a abolição violenta do Estado de Direito e mencionou o plano para assassinar o então presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, seu vice, Geraldo Alckmin, e o também ministro do STF Alexandre de Moraes — então presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

"Sabemos que, em diferentes países de nossa região, e em outras partes do mundo, nem sempre os movimentos autoritários que buscam suplantar a democracia se mostram em sua face mais estridente e explicitamente violenta. Hoje, assistimos a um movimento com nova roupagem, embora igualmente nefasto em seus efeitos: a erosão democrática, que corrói as instituições por dentro", destacou.

Segundo o ministro, tal erosão é identificada quando a estrutura do sistema de freios e contrapesos é testada à exaustão, o que resulta na violação de direitos políticos, ataques à liberdade de imprensa e ameaças à independência judicial — incluindo a perseguição de magistrados. Foi além: mostrou que o enfraquecimento do Estado de Direito é um fator de violação dos direitos humanos, pois ambos constituem "duas faces de uma mesma moeda".

"Foi a emergência do primeiro, a partir do florescimento do constitucionalismo democrático, que, ao longo do tempo, viabilizou a materialização dos direitos humanos. Assim como estes são a matéria de que é feito um Estado de Direito Democrático digno desse nome", observou.

Fachin reforçou que a proteção da democracia é um direito dos povos e uma obrigação dos governos, conforme a Carta Democrática Interamericana. Como antídoto contra o esquecimento das agressões à democracia, o presidente do STF citou o 8 de Janeiro.

"Até lá, impõe-se defender a democracia contra seus detratores e os atalhos que eles propõem. Atalhos que, falsos, não protegem os direitos dos mais vulneráveis, mas, ao contrário, vão solapando a condição mesma de existência daqueles direitos — que, repise-se, é a democracia em si. Nesse esforço, temos de enfrentar o paradoxo da tolerância, de que nos fala Karl Popper: 'Tolerar a intolerância pode golpear de morte a própria tolerância'", lembrou.

No evento, estavam presentes o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), a ministra da Secretaria das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e o ministro das Cidades, Jader Filho

 

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