terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Conhecimento para quê? Por Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Parece haver uma relação simbiótica entre baixa eficiência da indústria e má qualidade do ensino em diferentes níveis

A expansão da indústria no mundo tem sido surpreendente. Num ambiente marcado por tensões econômicas e políticas provocadas em grande parte por um presidente norte-americano nefasto para a harmonia entre as nações, a indústria manufatureira mundial cresceu 3,9% no terceiro trimestre de 2025, na comparação com igual período de 2024. Os dados são da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido). No Brasil, porém, o desempenho da indústria de transformação foi muito diferente. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) constatou desaceleração do setor manufatureiro brasileiro, com redução de 0,6% no período considerado.

Há razões conjunturais para esse desalinhamento, de que resulta perda de espaço do Brasil na indústria mundial. Mas não é um fenômeno apenas ocasional. Embora com variações ao longo do tempo, a perda é persistente e mostra problemas estruturais que governo, empresas privadas, institutos de pesquisa, associações de trabalhadores e outras organizações não têm conseguido amenizar.

Um elemento apontado pelo diretor-executivo do Iedi, Rafael Cagnin, para explicar os diferentes desempenhos da indústria no Brasil e no mundo é o fato de a indústria manufatureira global estar baseada em ramos de alta e média-alta tecnologia, que respondem por 45% da produção total. São segmentos marcados por automação, digitalização, inteligência artificial e processos ambientalmente limpos. No Brasil, esse ramo responde por uma fatia que não chega a 30% da indústria.

Além de não conseguir aumentar a participação dos segmentos de tecnologia avançada, a indústria de transformação brasileira vem perdendo peso na economia nacional. O que diferentes estudos mostram é que a fatia da indústria manufatureira no Produto Interno Bruto (PIB) reduziu-se pela metade nas últimas três décadas. E a produtividade vem igualmente decaindo.

Parece haver uma relação simbiótica entre baixa eficiência da indústria e má qualidade do ensino em diferentes níveis. Pode-se atribuir parte da perda de eficiência da indústria às falhas na preparação escolar da população. Em recente documento, o Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) voltou a alertar para o fato de que, no segundo ano do ensino fundamental, um em cada dois alunos de escolas públicas no Brasil não está devidamente alfabetizado. Sobre esse fato, o presidente do IMDS, Paulo Tafner, escreveu: “Aprender a ler significa aprender a decodificar. Quando uma criança não domina essa habilidade, sua trajetória escolar fica comprometida. O País perde talentos e a economia paga a conta com produtividade baixa”.

Políticas públicas vêm sendo propostas para romper essa relação simbiótica, sem grande êxito. Mas o problema é mais amplo. Mesmo quando o sistema de ensino forma pessoas com boa ou ótima qualificação, ou gera conhecimentos que poderiam transformar métodos de produção ou linhas de produtos e serviços, são raros os casos de entendimento entre os centros geradores desses conhecimentos e o sistema produtivo.

Talvez o caso de engenheiros – lembrado pelo professor da Escola Politécnica da USP e presidente da Fundação Vanzolini, João Amato Neto, em artigo para o portal do Estadão – seja uma exceção. Houve uma época, durante a decadência da indústria, em que se falava em “apagão de engenheiros”, pois anualmente se formavam apenas cerca de 30 mil engenheiros. Nos últimos 20 anos, o número cresceu, até a formação de mais de 120 mil engenheiros por ano. É um caso típico de demanda do setor produtivo por profissionais preparados pelas universidades, e de resposta adequada que estas souberam dar.

Embora tenha gerado emprego para tantos formandos, essa talvez seja uma demanda localizada. Com a experiência de cientista, professor e gestor público, o físico José Goldemberg vê uma distância muito grande entre a produção de conhecimentos nas instituições de pesquisa e ensino e a utilização desses conhecimentos para a produção de bens e para o bem-estar da sociedade. Goldemberg dirigiu o Instituto de Física da USP, foi reitor da USP, presidiu a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) e ocupou cargos de secretário de Estado e de ministro. Ele vê com ceticismo a evolução da indústria. “Faz pouquíssima pesquisa, usa equipamentos importados para produzir bens de baixa qualidade e não consegue competir”, avaliou em conversa com o autor. “A universidade pode ajudar a indústria, mas não há interesse correspondente na indústria”, diz. Os cientistas, completou Goldemberg, vivem se queixando de que fazem pesquisas que a sociedade não utiliza. Isso ocorre, diz ele, porque o sistema produtivo não se interessa pelo que fazem os institutos de pesquisa.

De nenhum dos lados tem havido ações com resultados notáveis para a redução desse distanciamento, que resulta em baixo crescimento e perda de relevância da indústria.

 

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