O Estado de S. Paulo
O que contamina a política, em ano eleitoral
ou não, é a falta de ética, não a criação de um Código de Ética
O presidente do STF, Edson Fachin, acertou, na entrevista ao Estadão, ao mandar os ministros botarem as barbas de molho: “Ou nos autolimitamos, ou poderá haver limitação de um Poder externo”. Não é só opinião dele, é uma constatação que, dependendo de quem olha, pode ser vista como uma ameaça à Corte, ou como necessidade institucional, depois de tudo que veio à tona.
Não faz sentido a maioria de ministros ser a favor de um código de ética que dê limites ao Supremo e o reaproxime da opinião pública, mas alguns descartarem para agora, “por ser ano eleitoral”. Segundo Fachin, o argumento é “sólido”. Será? Não é a busca de ética, mas a falta de ética que contamina a disputa política – e não só em ano eleitoral.
O STF está no centro da eleição de 2026,
queira ou não. Foi o “algoz” de Bolsonaro, seus generais e soldados no
julgamento do golpe e se torna o grande “cabo eleitoral” do bolsonarismo. A
própria marcha liderada pelo deputado e influencer Nikolas Ferreira tem a ver
com isso.
Cauteloso, o que é compreensível, Fachin não
se referiu a Dias Toffoli a Alexandre de Moraes, acuados no caso Master, mas é
isso que a sociedade discute, o que o bolsonarismo usa eleitoralmente e o que
puxa antigas histórias que foram se normalizando, envolvendo luxo, dinheiro,
viagens.
Fachin limitou-se a dizer que as leis atuais
não impedem um juiz de ser cotista ou acionista de uma empresa. Leia-se: não há
impedimento, portanto, para que Toffoli seja o verdadeiro dono dos resorts,
como se suspeita. A questão, porém, não “só” é essa. É o que está por trás.
Transformar irmãos em “laranjas”?
Há, ainda, a conexão entre negócios e decisões
de Toffoli como ministro. Ele poderia puxar o caso Master para o STF, virar
relator, decretar sigilo total, impor peritos à PF? O ministro não é o único,
mas é próximo de um dos seus advogados do caso, o do voo para o jogo do
Palmeiras.
Aliás, Toffoli poderia suspender multas
bilionárias da J&F pelo acordo de leniência na Lava Jato? O advogado do
grupo, também amigão, recebeu procuração da empresa da família Toffoli para
representá-la no resort Tayayá e, por fim, comprou a “parte dos irmãos” no
empreendimento.
O código de ética não é uma panaceia que vá
resolver tudo, mas vai criar regras, padrões, limites, e pode muito bem ser
discutido já. O que não pode, nem neste, nem em nenhum outro ano, é a avalanche
de revelações comprometedoras para o Supremo. E não adianta o presidente Lula
dizer agora que está bravo pela resistência de Toffoli renunciar ao caso –
senão ao próprio STF. “Quem pariu Matheus que o embale.” •

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