Folha de S. Paulo
É como se a Groenlândia se despejasse sobre
os EUA, provocando o pior inverno do século
No Brasil, os bolsonaristas levam um balde de
gelo com a nova intimidade entre Trump e Lula
Parece castigo divino. Justamente quando Donald Trump ameaça falir o planeta se a Dinamarca não lhe der a Groenlândia, o caos ambiental —no qual ele não acredita e favorece com suas medidas de fim do mundo— castiga os EUA com o pior inverno dos últimos 40 anos: nevascas brutais, cidades a 30° abaixo de zero, mortes por hipotermia, comércio, indústria e transportes parados e vida impossível fora de casa.
É como se o Ártico, que ele tanto ambiciona, ouvisse seus bramidos e se
despejasse de uma vez sobre sua cabeça e a de seus eleitores —pena que também
sobre a de quem não vota nele.
Com tanta neve que se converte em gelo (a
camada de cima derrete e a água se recongela), é significativo que o braço
armado de Trump, o Immigration and Customs Enforcement (Serviço de Controle de
Imigração e Alfândega), atenda em inglês pela sigla ICE —gelo. Trata-se da
polícia encarregada da identificação, detenção e deportação de pessoas de
cabelo preto escorrido, incluindo meninos de 5 anos. Para compensar o estilo
gelado com que conduz suas operações, o ICE dispara tiros à queima-roupa em
cidadãos americanos inocentes e imobilizados.
Talvez Trump seja pé-frio. Em abril último,
quando da morte do papa Francisco e às vésperas da eleição do sucessor pelo
Vaticano, um repórter perguntou a Trump se tinha um favorito para o cargo —como
se o assunto lhe dissesse respeito. A pergunta era encomendada e Trump já
estava com a resposta pronta: sim, ele mesmo poderia ser um grande papa. O
clero ignorou seu palpite, claro, mas —surpresa!—, como se Trump lhe tivesse
dado a ideia, elegeu o cardeal Robert Francis Prevost, um americano. E não
apenas americano como muito ligado à América Latina e, sagrado Leão 14, atento
à crueldade contra os imigrantes.
No Brasil, o verão pega fogo, mas os bolsonaristas também estão levando um balde de gelo. Como explicar que, de repente, Trump, que nem sabe mais quem era Bolsonaro, passe horas ao telefone discutindo a cena internacional e trocando carinhos com... o Lula?

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