Folha de S. Paulo
Segundo mandato do americano é muito mais
radical que o primeiro
Inércia das instituições lhe ensinou que ele
poderia fazer o que quisesse
O homem é o mesmo, mas a diferença entre o Donald Trump do primeiro mandato e o do segundo é abissal. Os desatinos da primeira administração, que não foram poucos, ainda podiam ser interpretados como um acidente de percurso, consequência de um resultado eleitoral que surpreendeu não apenas os desavisados eleitores americanos como o próprio Trump, que entrara na disputa com baixas expectativas.
O primeiro ano do segundo mandato, porém, não
dá dúvidas. As tendências
autoritárias do Agente Laranja e seu desapreço pelas
instituições, que já haviam aparecido em germe em sua passagem anterior, se
tornaram a matéria-prima do governo.
Trump 2 fez terra arrasada da ordem global do
pós-Guerra, dinamitou a política de alianças dos EUA e está destruindo o
sistema universitário do país, que lhe assegurava liderança na ciência, entre
outras realizações duvidosas. Criou até uma guarda pretoriana, o ICE, quem vem
usando com objetivos políticos—uma marca inequívoca de regimes totalitários.
Dado que a personalidade é mais ou menos
estável ao longo de toda a vida, a transformação se explica pela curva de
aprendizagem. Na primeira gestão, Trump precisou apoiar-se em quadros do Partido
Republicano para compor seu secretariado. Esse pessoal, que não
era antissistema, operou para limitar os estragos que os impulsos mais
selvagens do mandatário poderiam causar. Foram secundados nessa tarefa pela
burocracia estável do governo.
Trump viu e não gostou. Atribuiu a derrota de
2020 ao "deep state" e, quando reconquistou o cargo, evitou cercar-se
de gente que poderia moderá-lo, convocando auxiliares tão ou mais radicais que
ele. Também procedeu a uma razia nos quadros da burocracia estável.
Outra lição assimilada foi a de que as
instituições não agiriam para contê-lo. Nem a Justiça nem o Congresso o
responsabilizaram pelos muitos desmandos da primeira gestão, que incluíram
a insurreição
de 6 de janeiro de 2021.
O resultado desse duplo movimento é o Trump
sem freios com o qual o mundo agora lida.
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