Valor Econômico
Com longa experiência docente, levo em conta
que não se lê livros assim, a torto e a direito. É necessário ter um programa
de leitura
Foi uma surpresa a notícia de que o
ex-presidente Jair Bolsonaro teria manifestado interesse no programa de
estímulo à leitura na prisão. Com isso, ele teria a possibilidade de diminuir a
pena que lhe tocou na condenação do STF. Pessoalmente, vejo mais do que o que
poderia ser tomado como egoísmo do preso. Ninguém sai ileso da leitura de um
livro. Senti-me, por isso, tentado a fazer-lhe algumas sugestões de leitura.
Com longa experiência docente, levo em conta que não se lê livros assim, a torto e direito. É necessário ter um programa de leitura, ter alguma ideia e alguma curiosidade sobre temas, autores e livros. Ouso, portanto, fazer-lhe algumas sugestões às quais outros cidadãos poderão agregar as suas.
Em primeiro lugar, eu começaria com a leitura
das duas versões da Constituição de 1988, a Constituição Cidadã, como a definiu
o saudoso Ulysses Guimarães. A versão original e a versão atual, cheia de
remendos de emendas constitucionais que foram amansando o texto e despojando-o
da amplitude das intenções democráticas e reformistas iniciais.
Um segundo livro, para quem se apresenta como
evangélico e tem sua opção religiosa demonstrada na repetição de só dois
versículos da Bíblia, daqueles que os evangélicos gostam de retirar da chamada
Caixinha de Promessas. Como se o acaso do versículo retirado desse ao devoto a
bênção de uma mensagem enviada diretamente por Deus.
A Bíblia diz mais aos cristãos se lida
integralmente. O segredo está em escolher uma boa tradução, feita por gente
capaz, com formação profissional apropriada em línguas. Minha recomendação é a
edição brasileira da chamada Bíblia de Jerusalém. A tradução foi conferida com
os textos das línguas originais de referência. A tradução brasileira foi feita
ou verificada por gente como professores da Universidade de São Paulo.
A tradução do Novo Testamento foi
supervisionada pelo professor Antonio Candido, eminente e conhecido professor
de teoria literária. Ele é o autor do monumental e fundamental “Formação da
literatura brasileira: Momentos decisivos”, robustas 800 páginas de erudição e
competência. Esmerado nos cuidados com o que escreve ou com o que comenta, o
fato dele ter sido um dos fundadores do PT de nenhum modo compromete essa
tradução do livro sagrado. Ao contrário.
Por isso mesmo, minha sugestão é a de que não
comece a leitura pelo Gênesis, em que a vida humana foi definida como castigo,
na condenação de Eva e Adão, nessa ordem. Nem pelo fim, pelo Apocalipse de São
João, porque aquilo é antes de tudo o desvendamento da obra do Anticristo e da
Besta Fera, o que lhe trará à lembrança muita gente que ele conhece dos tempos
do poder, que ainda o assediam e exploram, até parentes. Mesmo parente leitor
de Bíblia.
É sempre bom lembrar que Satanás está nos
fingimentos, mesmo dos que têm a Bíblia nas mãos, mas não a têm na mente e na
alma.
Melhor é seguir a recomendação do grande e
fascinante João Guimarães Rosa, em “Grande sertão: Veredas”: “Digo: o real não
está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da
travessia”. Isso é sábio e bem brasileiro. Nada de extremismos: ponderação e
equilíbrio. Até porque extremismo na cadeia, mesmo que seja de parentes e
bajuladores, não serve para nada. Só aumenta o sofrimento do preso.
Um livro indispensável é “O alienista”, do
melhor escritor brasileiro e melhor conhecedor de nossa língua e de nossa
mentalidade: Machado de Assis. Sobre o médico maluco que numa cidade do
interior do Rio de Janeiro começou a diagnosticar cada morador como alienado
mental. No fim, só ele sobrou fora do manicômio.
O autoritarismo militar brasileiro tem longa
tradição nesse sentido, desde antes do golpe de 15 de novembro de 1889, imensas
parcelas do povo brasileiro tratadas como inimigas do Brasil. Foi o que
aconteceu em Canudos, na Bahia, e no Contestado, em Santa Catarina. É o que tem
acontecido na estigmatização e repressão às esquerdas, inventadas, aliás, na
Revolução Francesa, necessárias à sustentação e legitimação do regime
democrático.
“Macunaíma”, de Mário de Andrade, pode vir a
calhar como exercício de autodescoberta. O herói sem nenhum caráter é a
personagem que não se encontra, perdido dentro de si mesmo. É o brasileiro. Nem
branco nem negro porque é os dois.
Bolsonaro viveu a experiência das ocultações,
especialmente próprias da vida política brasileira. O poder não é a verdade da
vida. No geral é a mentira.
Ao fim e ao cabo, no Brasil, o político acaba descobrindo que não era quem pensava ser. Na democracia o político é descartável. Para quem gosta de ler, a prisão é uma mordomia. Ali, a leitura é um verdadeiro pós-doc sobre o lado invisível do poder.

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