terça-feira, 12 de novembro de 2024

Trump vence, Bolsonaro escreve - Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

O texto do ex-presidente serve como registro de uma forma de ver o momento

Tem gente indignada por Jair Bolsonaro ter publicado um artigo na Folha. Não entenderam nada. Sonham com um mundo no qual a imprensa determina quem tem voz. Na realidade atual, o papel que melhor cabe a um jornal de relevo é justamente ser palco para as diferentes vozes, permitindo que todos possamos melhor ouvi-las e julgá-las.

No caso, o artigo triunfalista de Bolsonaro pouco nos informa sobre seu apreço pela democracia que diz defender. Suas ações quando perdeu em 2022 falam mais alto. Serve, no entanto, como registro de uma forma de encarar este momento: finalmente a política ouve o cidadão comum, que é de direita, contrariando décadas de discurso da mídia e das elites culturais.

A vitória acachapante de Trump mostra que sua chegada ao poder em 2016 não foi um acidente, um glitch na máquina. Ele (e seus similares) realmente refletem a vontade de milhões de cidadãos. Vontade que é às vezes negada, às vezes ridicularizada, às vezes insultada, mas que nem por isso perde terreno. Os americanos estão prestes a receber o que pediram.

A democracia liberal tal como a conhecemos desde o pós-guerra está em xeque. Na administração pública, na regulação de setores econômicos, na diplomacia, na imprensa, até mesmo na saúde pública: a ideia de que especialistas podem contrariar a vontade da maioria era, no passado, uma obviedade; hoje é contestada.

A vontade da maioria encontra meios para se expressar graças às redes sociais. Quando vozes da esquerda brasileira, como Felipe Neto e Gleisi Hoffmann, vaticinam que a extrema direita só poderá ser derrotada se as redes forem regulamentadas, ecoam sem querer o discurso de Bolsonaro.

Quando, no século 16, a Reforma Protestante criticou a autoridade da Igreja de Roma até suas fundações, o sistema católico da época tentou se proteger como pôde. Criou o index de livros proibidos, passou a exigir autorização oficial expressa antes que qualquer livro fosse publicado. Teologia era assunto importante demais para ficar na mão de leigos. A perseguição a hereges foi intensa, os riscos de se ler a Bíblia por conta própria foram sempre lembrados, junto da ameaça do inferno, mas nem por isso a "heresia" foi embora. As imprensas tipográficas continuaram publicando e vendendo como nunca antes. Foi o mundo católico que se lançou numa crescente esterilidade intelectual.

As elites culturais e científicas do Ocidente democrático vivem um momento similar ao clero católico no início da Reforma. Têm sua própria legitimidade questionada. E, enquanto acreditarem na repressão como arma preferencial dessa guerra pelos corações e mentes, continuarão a perdê-los.

Vivemos o paradoxo da liberdade de Platão: o povo livremente escolhe líderes demagogos que lhes tirarão a liberdade. Para Platão, a saída era impedir o povo de escolher. Nós, herdeiros do Iluminismo, ou apostamos na capacidade do povo de escolher melhor —ele não é, afinal, inferior às elites culturais que hoje rejeitam— ou abrimos mão desse legado da racionalidade e democracia. E, para promover essas melhores escolhas, é preciso colocar as fichas do sucesso político não nas promessas de uma regulação futura —mais um conjunto de regras bolado por especialistas para tutelar as massas—, mas na persuasão em pé de igualdade com aqueles que queremos persuadir.

 

9 comentários:

Anônimo disse...

Excelente análise, à altura do Pai (Eduardo Giannetti).

Anônimo disse...

É o fenômeno Trump , o mundo todo Está reagindo a eleição do novo presidente americano só Lula que não entendeu e Alexandre de Moraes menos ainda , mas os dois vão pagar um preço alto pela petulância , o primeiro A represália vai sobrar pra gente , o segundo o ditador Morais vai ser pendurado na praça pública da internet , e veremos sua queda merecida
Realmente Bolsonaro na Folha de São Paulo de domingo falando sobre democracia é sinal de novos tempos e ventos do norte soprando a nosso favor

marcos disse...

Nosso quem, biba de Trump, Bolsonaro e Putin? MAM

Anônimo disse...

Quem escreveu o texto pro Bolsonaro assinar?

ADEMAR AMANCIO disse...

O colunista disse tudo,as pessoas cultas são de esquerda.

Anônimo disse...

O Marcos saiu do armário toda raivosa e aloprada!
É agonia do mundo Woke desmoronando

Anônimo disse...

Ademar é muita presunção sua
Pra você ver que isso não é verdade , os comentaristas de esquerda aqui da coluna são raso como um pires, Sem raciocínio lógico nem opinião formada sobre nada
A cultura marxista é vazia e deformada por si só

Anônimo disse...

Nunca vi ninguém da esquerda comentar quem escreve os discursos do Lula
Analfabeto , Sem noção e passa A maior parte do tempo bêbado
A turma adora jogar pedra no telhado dos outros com o governo da quadrilha que assaltou o Brasil há pouco tempo
A esquerda está sofrendo de amnésia coletiva proposital

Anônimo disse...

Você mostrou que não entendeu nada. É um "culto" de manual.