O Globo
Os setores populares que seguem sem entender
inteiramente as novas regras morais vão acumulando o ressentimento cotidiano
O progressismo está no caminho errado. Convencido de que seus valores são tão evidentes que discuti-los seria rebaixar-se, trocou o convencimento pela interdição — censura nas mídias sociais, Direito Penal para os infratores. Enquanto se ocupa de purificar o mundo por meio de atos de força, as pessoas comuns seguem seu caminho influenciadas por quem ainda se dispõe a conversar com elas.
O progressismo está preso a uma armadilha
moral. Sua desconexão com o mundo advém de ter sido tomado por um ativismo
difuso, que vive em alarme permanente e não consegue mais enxergar gradação nas
condutas, porque proporção e nuance são vistas como complacência ou como
delito. O exagero é premiado, e a ponderação punida.
Essa cultura adotou diagnósticos
grandiloquentes que não admitem contestação. Somos o país que mais mata
travestis no mundo. Vivemos aumentos contínuos de feminicídios. Os meninos
passam por surto sem precedentes de misoginia violenta motivada pelo
masculinismo on-line. Não há base empírica sólida para nenhuma dessas
afirmações. Carecemos de dados confiáveis sobre as mortes de travestis, não
sabemos se o aumento dos feminicídios reflete crescimento real ou
reclassificação melhor de homicídios, e as pesquisas são contraditórias quanto
à eventual intensificação do machismo entre os mais jovens. Nenhuma dessas
afirmações, porém, pode ser debatida. A mera proposição da discussão é vista
como violação moral: “A quem interessa minimizar a transfobia e a misoginia?”.
A linguagem progressista também tem apagado a
gradação dos problemas, fazendo uso de vocabulário que incorpora os menores aos
maiores. Não conseguimos mais nomear o “machismo” — comportamentos que
inferiorizam a mulher —porque a cultura política progressista passou a
tratá-los como “misoginia”, o ódio às mulheres.
Hoje, no Google Trends, misoginia é oito
vezes mais empregada que machismo, mesmo que comportamentos mais graves de
violência contra a mulher sejam muito menos frequentes que os discriminatórios.
Não temos mais vocabulário para distinguir a gravidade de fenômenos tão
diferentes como mulheres assumirem mais tarefas domésticas e homens
assassinarem mulheres — ambos são “misoginia”.
Mas não é só um problema de vocabulário.
Também não conseguimos oferecer respostas graduadas diferentes ao fato de
negros terem menor desempenho escolar e sofrerem ataques racistas nos estádios.
Embora um seja efeito sistêmico e outro seja racismo explícito, um seja
intencional e outro não intencional, não é mais moralmente aceitável tratá-los
como ofensas de graus diferentes.
Exageros de diagnóstico e incapacidade de
enxergar gradação na conduta são fruto de uma cultura militante que celebra a
indignação, percebida como virtude e pureza moral, e pune a moderação, vista na
melhor das hipóteses como complacência e, na pior, como envolvimento na prática
delituosa.
Com diagnósticos inflados e incapacidade de
ver gradação, as respostas são duras, sem nuance ou proporção. A esquerda,
outrora campeã da liberdade de expressão, dedica grandes esforços para retirar
da esfera pública ideias divergentes, seja porque não consegue separar
violações graves de direitos humanos das violações menos graves ou porque não é
capaz de distinguir as violações de direitos humanos de divergências
ideológicas.
Debater a eficácia de cotas raciais na
universidade passa a ser visto como racismo; defender papéis tradicionais de
gênero, como fazem muitas religiões, é misoginia. Há grande pressão para esses
discursos serem censurados e criminalizados. Há pouco empenho em debater e
convencer.
Enquanto o progressismo segue numa espiral
endógena para se tornar cada vez mais puro, o mundo segue seu caminho próprio,
em parte se adaptando aos valores normativos progressistas, em parte os
desprezando e se ressentindo.
Os setores populares que seguem sem entender
inteiramente as novas regras morais vão acumulando o ressentimento cotidiano de
ser acusados pelo progressismo de racistas, transfóbicos e misóginos. A
expressão política desse ressentimento já é construída com os adversários do
progressismo. A resposta não será nem nuance nem proporção. Será retrocesso.

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