Folha de S. Paulo
O texto do ex-presidente serve como registro
de uma forma de ver o momento
Tem gente indignada por Jair
Bolsonaro ter publicado um artigo na Folha. Não entenderam
nada. Sonham com um mundo no qual a imprensa determina quem tem voz. Na
realidade atual, o papel que melhor cabe a um jornal de relevo é justamente ser
palco para as diferentes vozes, permitindo que todos possamos melhor ouvi-las e
julgá-las.
No caso, o artigo triunfalista de Bolsonaro pouco nos informa sobre seu apreço pela democracia que diz defender. Suas ações quando perdeu em 2022 falam mais alto. Serve, no entanto, como registro de uma forma de encarar este momento: finalmente a política ouve o cidadão comum, que é de direita, contrariando décadas de discurso da mídia e das elites culturais.
A vitória acachapante de Trump mostra
que sua chegada ao poder em 2016 não foi um acidente, um glitch na máquina. Ele
(e seus similares) realmente refletem a vontade de milhões de cidadãos. Vontade
que é às vezes negada, às vezes ridicularizada, às vezes insultada, mas que nem
por isso perde terreno. Os americanos estão prestes a receber o que pediram.
A democracia liberal tal como a conhecemos
desde o pós-guerra está em xeque. Na administração pública, na regulação de
setores econômicos, na diplomacia, na imprensa, até mesmo na saúde
pública: a ideia de que especialistas podem contrariar a
vontade da maioria era, no passado, uma obviedade; hoje é contestada.
A vontade da maioria encontra meios para se
expressar graças às redes sociais. Quando vozes da esquerda brasileira,
como Felipe Neto e
Gleisi Hoffmann, vaticinam que a extrema direita só poderá ser derrotada se as
redes forem regulamentadas, ecoam sem querer o discurso de Bolsonaro.
Quando, no século 16, a Reforma
Protestante criticou a autoridade da Igreja de Roma até suas
fundações, o sistema católico da época tentou se proteger como pôde. Criou o
index de livros proibidos, passou a exigir autorização oficial expressa antes
que qualquer livro fosse publicado. Teologia era assunto importante demais para
ficar na mão de leigos. A perseguição a hereges foi intensa, os riscos de se
ler a Bíblia por conta própria foram sempre lembrados, junto da ameaça do
inferno, mas nem por isso a "heresia" foi embora. As imprensas
tipográficas continuaram publicando e vendendo como nunca antes. Foi o mundo
católico que se lançou numa crescente esterilidade intelectual.
As elites culturais e científicas do Ocidente
democrático vivem um momento similar ao clero católico no início da Reforma.
Têm sua própria legitimidade questionada. E, enquanto acreditarem na repressão
como arma preferencial dessa guerra pelos corações e mentes, continuarão a
perdê-los.
Vivemos o paradoxo da liberdade de Platão: o
povo livremente escolhe líderes demagogos que lhes tirarão a liberdade. Para
Platão, a saída era impedir o povo de escolher. Nós, herdeiros do Iluminismo,
ou apostamos na capacidade do povo de escolher melhor —ele não é, afinal,
inferior às elites culturais que hoje rejeitam— ou abrimos mão desse legado da
racionalidade e democracia. E, para promover essas melhores escolhas, é preciso
colocar as fichas do sucesso político não nas promessas de uma regulação futura
—mais um conjunto de regras bolado por especialistas para tutelar as massas—,
mas na persuasão em pé de igualdade com aqueles que queremos persuadir.

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