segunda-feira, 30 de março de 2026

Trump opera como chefe mafioso, por Demétrio Magnoli

O Globo

Os Estados Unidos tornaram-se um Estado perigoso

"Se o Irã não abrir completamente, sem ameaças, o Estreito de Ormuz, em 48 horas a partir deste momento, os Estados Unidos obliterarão suas várias centrais elétricas, começando pela maior delas." O ultimato de Donald Trump de 21 de março, um blefe como logo se constatou, prova que a maior potência mundial converteu-se à barbárie. Bombardear infraestruturas civis viola as leis de guerra. Estados cometem crimes de guerra, às vezes deliberadamente. Mas nunca prometem cometê-los.

Trump copia Putin, a quem inveja. O autocrata russo nomeou sua guerra de conquista na Ucrânia como “operação militar especial”. O presidente americano batiza sua guerra de escolha no Irã como “excursão”. Seu motivo: circundar as leis dos Estados Unidos que exigem autorização do Congresso para fazer guerra. O governo da potência que patrocinou a criação da ONU e impulsionou a Declaração Universal dos Direitos Humanos coloca-se fora da lei, tanto interna quanto internacional.

Trump opera como chefe mafioso. Bombardeia barcos sob a alegação de que serviriam ao narcotráfico. Ameaça anexar a Groenlândia. Sequestra o ditador-presidente da Venezuela. Diz que terá “a honra de tomar Cuba”. Ataca o Irã de surpresa, em meio a negociações entre representantes iranianos e seus próprios enviados, transformando a diplomacia em encenação para ciladas. Ninguém mais confia na palavra da Casa Branca. Os Estados Unidos tornaram-se um Estado perigoso.

O governo Trump delicia-se em exibir destruição. Nos vídeos de propaganda da guerra no Irã postados pela Casa Branca, misturam-se imagens de bombardeios devastadores com trechos de videogames e momentos esportivos. O culto frenético à pura violência descortina um assustador declínio moral.

Ao longo de décadas, os Estados Unidos justificaram suas ações militares, tanto as reprováveis quanto as virtuosas, pela invocação das leis internacionais, dos direitos e das liberdades. A adesão retórica a valores universais tinha a vantagem de proporcionar uma régua para crítica e protesto. Não mais: Trump ameaça incinerar inimigos ou invadir nações aliadas pelo simples motivo de que suas Forças Armadas detêm o poder de fazer isso. Os Estados Unidos cortam relações com o mundo civilizado.

A exposição das torturas a prisioneiros na prisão militar americana de Abu Ghraib, no Iraque, em 2003-2004, constrangeu o governo de George W. Bush e as linhas de comando envolvidas. Hoje, o crime foi alçado à condição de política oficial. A guerra é o inferno, mas Trump e seus subordinados a enxergam como orgia.

Segundo a versão de um Trump gabola, oficiais militares confidenciaram a ele ser “mais divertido afundar navios do que capturá-los”. Explicando seus paradigmas, Pete Hegseth, o secretário da Guerra, falou como um desclassificado chefe de gangue:

— Nada de regras de combate estúpidas, nada de guerras politicamente corretas.

Nas primeiras horas de bombardeios, mísseis americanos destruíram uma escola infantil iraniana, matando 168 civis, entre os quais mais de cem crianças. Provavelmente não foi deliberado, mas reflete a perversão cultural expressa por Hegseth.

Na Guerra de Independência, quando recebeu notícias de massacres cometidos pelas forças britânicas, George Washington escreveu que “sua crueldade sem freios prejudica sua causa, em vez de beneficiá-la”, pois “garante para nós a afeição de todos os homens íntegros”. O sanguinário regime militar-teocrático iraniano não deve ser equiparado aos colonos que combatiam a potência europeia nem conta com a simpatia de qualquer pessoa decente, mas também beneficia-se da delinquência orgulhosa do sucessor distante de Washington.

Ao final de um mês de guerra, o regime de Teerã sobrevive às forças imensamente superiores dos Estados Unidos e de Israel — e vai bem além disso. O Irã assumiu o controle militar do Estreito de Ormuz, tomando como reféns os mercados financeiro e petrolífero. Os substitutos dos dirigentes iranianos eliminados, oriundos da Guarda Revolucionária, fortaleceram o poder interno do regime, afastando o espectro de uma revolução popular. Trump, o fanfarrão destruidor de mundos, perdeu-se no labirinto de seu videogame.

 

Nenhum comentário: