domingo, 25 de janeiro de 2026

Cara de pau metaforiza agora cinismo como política de Estado. Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Neoextrativismo americano desconhece fronteiras soberanas; prospera em intimidações e ataques pontuais

Sem diplomacia, 'meu limite é a minha moralidade', a guerra cínica faz história

Embora o início da conhecida marchinha carnavalesca seja "Eu sou o pirata da perna de pau...", é oportuno substituir perna por cara no contexto político onde reinam Donald Trump e uma direita sem escrúpulos e recato. No cinema americano, cara de pau era Fred McMurray, uma expressão invariável ao longo de qualquer drama: contrapartida a Victor Mature e suas contorções faciais intensas, paródia de esforço fisiológico a cada cena. Cara de pau metaforiza agora cinismo como política de Estado: "Quero a Groenlândia porque não me deram o Prêmio Nobel".

Trump sintetiza todos os casos. Na cara, inova com boca chupa-ovo, algo natural, não estudado como as caretas oratórias de Hitler, coreografadas por Goebbels. O Führer comparece, porque seu avatar o reprisa em aspirações geopolíticas, apenas trocando ocupação territorial por anexação comercial: protetorados "oleogárquicos". Além disso, tenta evitar a desdolarização do mercado comercial e financeiro, barrando outras moedas fortes. Sem diplomacia, "meu limite é a minha moralidade", a guerra cínica faz história.

Nessa nova modalidade de geopolítica ou de "geonegócio", cara de pau é justa designação para o imperialismo travestido de pirataria, com precedente histórico: um pirata americano, William Walker, foi presidente imperial da Nicarágua (1856-57). As invasões nazistas ainda tinham um pano de fundo, a doutrina do "Lebensraum", espaço vital almejado pelo Terceiro Reich. Agora, na apoteose de um poder ilimitado, ideias não suscitam adesões. Pirata não tem ideologia, tem bandeira. A violência auto justifica-se.

Tanto que o sequestro de Maduro, garantido pela mais poderosa frota de flibusteiros que já navegou no Caribe, não tem consistência jurídica nem moral: narcotraficantes e ditadores sanguinários convivem bem com os americanos. Vai-se Maduro, ficam o chavismo e a miséria popular. Os que foram deixados, sátrapas, são iguais ou piores: corruptos, torturadores, assassinos. Já caindo de podre, o bode expiatório foi sacrificado pelos seus. Primeiro golpe de Estado cara de pau.

Mas não o primeiro a expor a impotência do Direito Internacional. Trump diz "o Direito sou eu", a ONU já era. Clinton, Obama, Biden sempre o comprovaram, apenas longe da América do Sul. Juntos, poderiam fazer um cover dos "Secos & Molhados", cantando "rompi tratados / traí os ritos..." Mas o trumpista "vamos dirigir a Venezuela e ganhar mais dinheiro" é obscenidade que deixaria vexado o próprio Hitler, mais afeito a sangue vermelho (cimento ideológico do nazifascismo) do que negro, extraído da terra. O neoextrativismo americano desconhece fronteiras soberanas. E no estilo da pirataria, prospera em intimidações e ataques pontuais.

Daí o estúpido balido jubiloso das ovelhas que, legitimadas pela cara de pau, se desembaraçam das simulações de nacionalismo, patriotismo, dignidade e o quê mais. Acredite quem quiser: na euforia bolsonarista, marmanjos crescidos, governadores de estados, deliram com invasão pirata. Viria aquela Força Delta com vistosos uniformes do Império e enorme artilharia fálica nas mãos, suspiram, a mesma que Trump acompanhou pela televisão, capturando Maduro. Mas esses pelo menos pintam a cara antes do crime.

 

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