“Impossível assistir a esses filmes sem
pensar num Brasil que parece incapaz de superar um profundo mal-entendido com a
lei. Mal-entendido que transcende os períodos autoritários. Que se encontra
enraizado nas relações cotidianas e no modo como são operadas nossas
instituições, por meio do "familismo", exposto por Oliveira Vianna,
da perversa "cordialidade", descrita por Sérgio Buarque de Hollanda,
do "patrimonialismo", de Raymundo Faoro, do "você sabe com quem
está falando?", de Roberto da Matta, ou da "grande conciliação",
de Michel Debrun. São espectros que não nos abandonam, escancarando uma
indisposição de acatar a lei como regra geral.
É paradoxal que num país em que a imensa
maioria da população acorda cedo para trabalhar e cumprir suas obrigações sobreviva
uma cultura tão forte e arraigada de descumprimento da lei e desrespeito aos
direitos mais elementares.
Que as Eunices e Sebastianas nos deem forças
para continuar lutando por justiça e por um país melhor.”
*Oscar Vilhena Vieira, do artigo “Um país à
margem da lei” Folha de S. Paulo, ontem, 24/01/2026.

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