O Globo
A velocidade dos acontecimentos mundiais, com
Trump e suas ameaças diárias, reforça a sensação de que 2026 começou há meses
Estamos na última semana de janeiro e a sensação é de que se passaram meses desde o início do ano. A velocidade dos acontecimentos e a intensidade dos riscos nos levam a pensar que alguém apertou a tecla que acelerou o ritmo da Terra. Parece que foi há muito tempo que tropas americanas entraram na Venezuela e que o presidente Donald Trump começou a ameaçar a Groenlândia. O estresse em Davos foi tão alto, o discurso de Trump tão pavoroso, que os líderes decidiram guardar uma única frase, aquela na qual ele promete não usar a força para se apropriar da Groenlândia.
Na semana, o mundo foi exposto em doses
excessivas à insanidade do presidente americano. Ele utilizou um longo tempo
para o balanço falso de um ano de governo e depois estourou o prazo que tinha
para seu pronunciamento no Fórum Econômico Mundial, em Davos. Teria que falar
por 45 minutos e falou 72.
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney,
fizera na véspera um discurso histórico no qual afirmou que o mundo está diante
de uma ruptura da ordem internacional. Na sexta-feira, a presidente do Banco Central
Europeu, Christine Lagarde, deu a entender que achava a avaliação do canadense
um exagero. “Não estou exatamente na mesma página que Mark”. Reduzir a
temperatura da tensão internacional é providencial, mas negar a realidade é
arriscado, como já mostrou a história. Líderes delirantes que controlam grandes
máquinas de guerra produzem catástrofes. É melhor não virar esta página antes
de se encontrar o antídoto para o mal dos nossos dias.
O que Davos quis ressaltar de toda a
verborragia de Trump foi a declaração de que ele recuou da ameaça de ocupar
militarmente a Groenlândia. Mas, ao falar em não usar a força, o fez em
contexto muito específico.
— Se quisermos usar nossa força, nós somos
imparáveis. Mas eu não quero usar a força, não vou usar a força. Só queremos a
Groenlândia de volta.
Mais adiante, Trump disse que pedia apenas a
propriedade da Groenlândia, alegando que os Estados Unidos no passado abriram
mão da região, fato histórico desconhecido. Acrescentou que se a Europa
dissesse não à sua reivindicação territorial, ele se lembraria.
— Estarei ajudando a Europa e a Otan e a
única coisa que eu quero é um grande pedaço de gelo.
Depois de todo esse teatro, reuniu-se com o
secretário-geral da Otan e saiu cancelando ameaças militares e tarifárias.
Disse que havia chegado a um acordo que lhe daria acesso total à ilha. Os
líderes da Dinamarca e Groenlândia negaram.
Nesse acelerado tempo atual, é preciso fixar
os olhos para ver o que está acontecendo. Os Estados Unidos com uma política
externa arrogante, agressiva, que despreza a cooperação, desrespeita países,
rasga tratados, representam um perigo de proporções incalculáveis. O mundo hoje
é instável e perigoso.
O Brasil e o Mercosul entraram na parte das
boas notícias do mês quando houve a assinatura do acordo União
Europeia-Mercosul. A alegria durou pouco. Na quarta, o Parlamento Europeu
dividido, mas com dez votos de diferença, mandou para a Corte Europeia a
análise dos termos do tratado. A judicialização vai atrasar meses, talvez mais
de ano a entrada em vigor da zona de livre comércio. E este mesmo Parlamento
terá que aprovar o texto para passar a valer. O que essa decisão mostra é a
profunda divisão da Europa, e a incerteza sobre o futuro do que foi negociado.
E alguém ainda se lembra daquele presidente da
Venezuela de nome Nicolás Maduro? Ninguém, nem mesmo a vice-presidente Delcy
Rodriguez que, de linha dura do regime ditatorial de Caracas, está se
transformando em seguidora das ordens de Washington. Não se chora por Maduro,
que não merece lágrima alguma, mas o que choca é o desrespeito à soberania dos
países e a superficialidade da mudança. A solução não resolve o verdadeiro
problema na Venezuela que não se resumia a Maduro. Continuam em seus postos
todos os integrantes da cúpula que impôs aos venezuelanos uma tragédia
econômica e um pesadelo político.
O ano começou em velocidade máxima no mundo.
No Brasil também, onde o caso Master produz turbulências diárias. Na
diplomacia, o Planalto procura a melhor maneira de escapulir, sem danos, do
convite de Trump de integrar o Conselho da Paz formado até agora por bélicos,
tiranos e bajuladores. Difícil saber em que página estamos, mas nada do que
está escrito é tranquilizador.

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