segunda-feira, 16 de março de 2026

Pastelão no gramado, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Craques do passado, ou aprendiam a se defender dos zagueiros durões ou fossem jogar pingue-pongue

Hoje, um contato entre um mindinho e o plexo solar faz com que os canastrões caiam com a mão ao rosto

Não é para me gabar, mas acompanho futebol desde o Terciário, quando as bolas eram de couro, o goleiro era o quíper e o juiz levava o apito pendurado ao pescoço. Às vezes, havia sombras no gramado —eram pterodáctilos sobrevoando o Maracanã. Assim, naquele tempo, vi jogar, ao vivo, Pelé, Garrincha, Didi, Dida (do Flamengo), Doval, Jairzinho, Paulo César, Zico, Dinamite. Todos com a camisa para dentro do calção e este, às vezes, acima do umbigo. A bola não saía do fundo das redes.

Considere agora os zagueiros que eles enfrentavam. Alguns, finos e classudos, mas, a maioria, dedicada a entrar rachando, dividir para valer ou carimbar-lhes as canelas com as travas —entre eles, Pavão, Jadir e Onça, do Flamengo; Bellini, Fontana e Moisés, do Vasco; Bigode, Pinheiro e Altair, do Fluminense; Tomé, Ronald Marreta e Chicão, do Botafogo. Os centroavantes, principais vítimas da carnificina, ou aprendessem a se defender ou fossem jogar pingue-pongue. Não era incomum que, de vez em quando, levassem um braço no rosto. Limitavam-se a assoar o nariz e bola pra frente.

O clássico do gênero é a cotovelada de Pelé no uruguaio Fontes, no Brasil x Uruguai da Copa de 1970. Fontes o jogara ao chão e pisara sua perna de propósito. Pelé marcou-lhe o número e, na primeira disputa de bola, com Fontes correndo atrás dele, mandou-lhe o cotovelo na cara. Fontes cambaleou, mas fez questão de não cair. Seguiu na jogada e disse depois que, apesar da dor, não podia fraquejar. O juiz não viu o lance e ele não foi se queixar.

Hoje, cada jogo é um pastelão. Um contato entre um dedo mindinho e o plexo do adversário faz com que este leve a mão ao rosto como se lhe tivessem quebrado os dentes ou furado o olho. Ato contínuo, desaba, quase moribundo, dando murros no gramado, enquanto o juiz aplica o cartão no suposto agressor. Isto feito, o agredido se levanta e sai assobiando no azul. O campeão mundial da categoria é Neymar.

Eu, juiz, daria cartão vermelho ao farsante. Não pela simulação, mas pela canastronice.

 

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