Folha de S. Paulo
Antes de solucionar dilema da agenda
identitária, grupo vê remédios econômicos com menos eficácia
Depois da onda da direita de 2018, líderes da
esquerda puseram sobre a mesa um problema e uma solução. Para políticos
veteranos, parte do desgaste daquele ciclo era reflexo da adesão em massa a
valores conservadores e da consequente rejeição ao PT e outros partidos.
Uma das propostas para sair do enrosco envolvia a redução do peso da pauta de
costumes e a reconquista
do eleitor pelo discurso econômico.
Os anos se passaram, e a esquerda ancorou sua volta ao poder no personagem que simbolizava uma plataforma de transferência de renda e redução de desigualdades. Ele trazia no bolso uma carta aos evangélicos para suavizar desconfianças, além de se escorar no pilar laico da preservação da democracia.
O ambiente político atual e os últimos
resultados eleitorais sugerem que a esquerda tem agora dois problemas sobre a
mesa. Acenos tímidos ao público conservador tiveram efeitos igualmente tímidos,
enquanto itens do programa econômico se mostram incapazes de sensibilizar
segmentos importantes.
Na última década, a consolidação do
eleitorado conservador fez com que alguma tensão se acumulasse na esquerda.
Pragmáticos radicais diziam que era preciso baixar o tom da chamada pauta
identitária para não afugentar uma parte considerável do país.
Setores ligados à defesa das minorias, por sua vez, consideravam urgente
enfrentar de peito aberto o que já se transformava numa guerra cultural.
A visão do primeiro grupo prevaleceu em
muitas elites partidárias, formadas por veteranos menos conectados à agenda
identitária e convencidos de que a fórmula econômica era suficiente para obter
vitórias políticas. A ideia de que ganhos de renda e outros benefícios desobstruiriam
pontes com evangélicos e a classe média, porém, era mais frágil
do que esses políticos pensavam.
Até aqui, ninguém encontrou um ponto de
equilíbrio capaz de permitir à esquerda caminhar sobre a corda bamba da agenda
de costumes sem perder sua identidade nem abandonar convicções importantes. A
busca por uma nova mensagem econômica que caia bem nas periferias urbanas e nas
classes trabalhadoras representa um desafio parecido.
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