sábado, 28 de março de 2026

Perguntas aos candidatos, por Marco Aurélio Nogueira

O Estado de S. Paulo

A indignação é um combustível enigmático e volúvel. Pode levar à construção ou à destruição

O que esperar da temporada eleitoral de 2026? Teremos barulho, emoção e atrito. Mas e em termos de ideias e diretrizes de governo?

A polarização Lula-Bolsonaro permanece. Seus candidatos têm altos índices de rejeição. No atual formato, a polarização é mau negócio para quem deseja um projeto democrático e inclusivo para o País. Ganhe um polo ou ganhe o outro, o Brasil seguirá engessado. O ritmo do avanço não será dado pela política, mas pelos “fatos”, como costumava dizer o saudoso Luiz Werneck Viana.

Por isso mesmo, mantém-se a expectativa de uma “terceira via” competitiva. O espaço para ela é estreito, mas existe. Nos últimos anos, tem sido mais uma fantasia do que uma realidade efetiva. Há uma torcida, em alguns segmentos, para que surja um ator que desperte esperanças de mudança e interrompa o jogo que paralisa o País desde 2018.

Se o espaço para uma “terceira via” é estreito, ele só se viabilizará se houver um candidato que fale com firmeza sobre os desafios a serem enfrentados na atual etapa da história. Alguém que diga como governar uma sociedade repleta de desigualdades, carências e tensões. Alguém que atualize a agenda e retire a sociedade do sofrimento de ter de escolher um candidato para impedir a vitória do outro.

Hoje, o PSD é o único partido interessado em dar curso a uma “terceira via”. Tem dois nomes na mesa: o governador gaúcho, Eduardo Leite, e o de Goiás, Ronaldo Caiado. Convergem em alguns pontos, mas são muito distintos entre si. Eduardo é jovem, tem a cabeça aberta, é de centro-esquerda, fala bem, apresenta boas ideias e se propõe a representar um centro democrático distante dos polos dominantes, ainda que respeitoso com cada um deles. Nos últimos dias, em sucessivas entrevistas, tem insistido em dizer que “o PSD precisa ser, nesta eleição, o centro que está faltando”.

Caiado, ao contrário, é a velha guarda conservadora, uma direita democrática, que não apresenta novidade e corre na mesma pista de Flávio Bolsonaro.

Gilberto Kassab e os dirigentes do PSD estão diante da oportunidade de pôr as cartas na mesa e mostrar o que pretendem para o País. Se optarem pela renovação, sairão vitoriosos, mesmo que percam a eleição. Se a opção for pelo conservadorismo, serão arrastados para a direita e cairão nos braços do bolsonarismo.

A dificuldade do PSD de viabilizar uma “terceira via” passa pelo fato de não ser um partido programático e unido. Agora, ele pode superar essa condição, rompendo com a polarização e apresentando uma ideia renovada, plural e democrática de governo. Se seguir esse caminho, o PSD pode ajudar a que se recupere o conceito de “terceira via”, dando-lhe maior consistência a partir de uma dialética entre indivíduo, sociedade e partidos.

Tanto Flávio Bolsonaro quanto Lula olham gulosos para os “independentes”, mas até agora nenhum deles atualizou a narrativa ou ofereceu novidades.

O que pensam sobre os grandes temas da atualidade? Têm uma agenda nacional de crescimento e melhoria social? E sobre a inteligência artificial? Imaginam algo sobre a regulação das plataformas digitais, a crise ambiental e a Amazônia? Sobre a corrupção e a responsabilidade fiscal? Como veem a disputa entre Estados Unidos e China, o papel da Rússia, a guerra no Oriente Médio e na Ucrânia? E sobre nossas metrópoles e nossas escolas? Segurança pública não deveria ser privilegiada?

Eduardo Leite está falando disso tudo, com desenvoltura e propriedade. Em termos de imagem e discurso, nenhum outro candidato se equipara a ele.

Há uma crise institucional latejando no País. A população está cansada e indignada. O mundo, conflagrado, põe mais pressão. Não se sabe até onde irá o caso Master. O estrago está feito, mas pode piorar. A indignação é um combustível enigmático e volúvel. Pode levar à construção ou à destruição. Corrói a sensatez e a tolerância. Fomenta desejos de “soluções imediatas”, que são traduzidas simbolicamente em falas cheias de raiva e hostis a instituições, governos e políticos. Para não ser isso, precisa virar combatividade democrática.

Os brasileiros veem a política como mal necessário, “coisa dos homens”, em que não há como interferir. Desprezam a “pequena política”, exibida à exaustão. Elegem representantes que despertam afetos escondidos e interesses paroquiais. Não percebem que também há uma “grande política”, uma concepção de Estado democrático e de sociedade. Os candidatos não dizem até onde pretendem ir, além de derrotar seus “inimigos”, porque a armadilha da polarização os dispensa de fazer isso.

A mistura de polarização com indignação é puro veneno. É uma modalidade de polarização afetiva. Com ela, o País fica em compasso de espera, flertando com o abismo. É muito pouco dizer que a missão do candidato “A” é impedir a volta da extrema direita, ao passo que a do candidato “B” é “salvar o povo” dos governos de esquerda. Ambos se atacam com base em acusações recíprocas, não em proposições concretas. Um lado alimenta o outro. Até quando o País suportará?

 

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