quinta-feira, 12 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É temerário pacote de bondades para o funcionalismo

Por O Globo

Em vez da reforma administrativa, governo improvisa com aumentos e contratações em ano eleitoral

Diante de um cenário econômico repleto de incertezas, foi temerária a decisão do Senado de chancelar a criação de 17,8 mil cargos no Executivo federal. O pacote, aprovado de forma simbólica na terça-feira depois de passar pela Câmara, também reestrutura carreiras do funcionalismo e concede reajuste a diversas categorias. O impacto no Orçamento de 2026 é estimado em R$ 5,3 bilhões. Mas é evidente que a busca por paridades, reparações e isonomias se encarregará de aumentar essa conta, estendendo bondades pelas três esferas de governo, ainda mais em ano eleitoral.

Defensores das medidas alegam que o custo não será imediato, pois parte das despesas depende de concursos públicos e novas unidades de ensino — estão previstos 16.363 cargos só para o Ministério da Educação, além de 1.500 para a pasta de Gestão. Mas isso não torna a iniciativa menos temerária. Cedo ou tarde, a conta chegará. De pouco adianta também governistas se vangloriarem de ter barrado emendas que implicariam aumento de despesas sem estimativas de impacto no Orçamento.

Impacto significativo resultará do aumento salarial para quem já está na folha de pagamento, objeto de acordos firmados com o governo federal, caso de carreiras da Receita Federal e a da Auditoria Fiscal do Trabalho. Estão previstos também reajustes para médicos, veterinários e criação de carreiras.

A contaminação do pacote pelo calendário político-eleitoral fica evidente na criação do Instituto Federal do Sertão Paraibano, a partir do desmembramento do Instituto Federal da Paraíba. A reitoria deverá ser instalada em Patos, reduto do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). O município é governado pelo pai de Motta, Nabor Wanderley (Republicanos), pré-candidato ao Senado.

O governo costuma argumentar que há déficit de funcionários na administração pública, decorrente sobretudo de aposentadorias após a reforma da Previdência em 2019. É possível que algumas áreas necessitem de reposições, mas o inchaço na máquina administrativa não justifica tantas contratações. Governos petistas são conhecidos pela deferência com que tratam as demandas mais descabidas do funcionalismo, e não é diferente agora. Ao longo de seu terceiro mandato, Lula terá contratado 22.817 servidores, mais que o dobro dos 10 mil da gestão Jair Bolsonaro, como mostrou reportagem do GLOBO. Ainda que haja lacunas, só se percebeu isso num ano eleitoral, a poucos meses do fim do mandato?

É um equívoco o Congresso e o governo cederem ao lobby do funcionalismo pelo pacote de reajustes e contratações, enquanto mantêm parada a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Reforma Administrativa, relatada pelo deputado federal Pedro Paulo (PSD-RJ). Não faz sentido tomar decisões desse tipo antes de estabelecer regras novas e sensatas para o serviço público. Entre outras medidas positivas, a PEC põe ordem na barafunda de carreiras do funcionalismo, propõe o fim de regalias (como férias de 60 dias), disciplina os famigerados “penduricalhos”, estabelece metas de desempenho para servidores e fixa uma tabela única de remuneração para todos os entes da Federação. A reforma pretende modernizar o arcabouço do serviço público e torná-lo mais eficiente, tanto para a administração quanto para a sociedade. Infelizmente, Executivo e Legislativo preferem agravar o problema a resolvê-lo.

Suspeitas em obras públicas mostram que Brasil esqueceu lições da Lava-Jato

Por O Globo

Empreiteira mineira que registrou crescimento vertiginoso é alvo de investigação de PF, CGU e Cade

Apesar de todos os questionamentos que levaram à anulação da maioria dos processos da Operação Lava-Jato, ela deixou um legado robusto de evidências sobre o relacionamento promíscuo das empreiteiras com o Estado brasileiro. Em consequência, esperava-se que a classe política e empresarial tivesse aprendido as lições e adotasse princípios republicanos em suas relações. Infelizmente, não é aparentemente o que tem ocorrido, como revela o caso da mineira LCM Construção e Comércio, tema de reportagem recente do GLOBO.

Fundada em 2014, justamente no ano de deflagração da Lava-Jato, a LCM protagoniza crescimento vertiginoso. Fechou nos últimos anos nada menos que 128 contratos com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), do governo federal. Nos primeiros três anos do governo Jair Bolsonaro, eles somaram R$ 6,6 bilhões, em valores corrigidos. Na gestão Luiz Inácio Lula da Silva, subiram 25%, para R$ 8,3 bilhões.

Por depender de obras públicas, a LCM transita por todo o espectro político-partidário. Seus canteiros de obras estão espalhados por quase todas as 27 unidades federativas. Relaciona-se com governadores de todas as inclinações ideológicas — de Wilson Lima (União), do Amazonas, a Fátima Bezerra (PT), do Rio Grande do Norte, passando pelo gaúcho Eduardo Leite (PSD) e vários outros. Só não tem obras relevantes em São Paulo, porque as grandes rodovias paulistas são estaduais, administradas por concessionárias privadas — e a LCM se especializou em obras públicas da União.

Diante de crescimento tão veloz por todo o país, não espanta que a empreiteira esteja no centro de investigações de Polícia Federal (PF), Controladoria-Geral da União (CGU) e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Em Rondônia, de acordo com apuração da PF, o governo pagou por obra numa rodovia federal, mesmo tendo sido avisado sobre irregularidades. Um trecho recebeu manta asfáltica de 2 centímetros de espessura, e o Dnit pagou por 25 centímetros. Na BR-367, entre Minas e Bahia, auditores da CGU afirmam que a empreiteira apresentou cálculos com “informações inverídicas” e não comprovou que as obras haviam sido feitas, fato corroborado por imagens de satélite.

A principal suspeita diz respeito à formação de cartéis, com participação da LCM, em pelo menos cinco estados. Com o apelido de “Campeã do Asfalto”, ela tem vencido licitações de que participam empresas de fachada ou inoperantes, cujo CNPJ é fornecido apenas para simular uma disputa. Os donos de algumas empresas nem sequer sabiam que eram usadas para forjar licitações.

Os números da LCM sugerem uma empresa eficiente na conquista de um mercado que, como em qualquer país, exige trânsito político. A realidade, contudo, aparentemente demonstra que a anulação dos processos da Lava-Jato, por mais que houvesse argumentos jurídicos a embasá-la, manteve intactas as práticas espúrias desmascaradas pela operação.

Igualar crime organizado a terrorismo é ideia perigosa

Por Folha de S. Paulo

Dar tal classificação a PCC e CV, como estudam os EUA, é erro conceitual e pode encorajar intervencionismo

O bolsonarismo, que já embarcou no tarifaço, vê na questão uma pauta para fustigar Lula, que não prima por política consistente no setor

Na quinta-feira passada (5), o governo de Donald Trump lançou uma proposta de trabalho conjunto com países da América Latina para combater cartéis de narcotráfico.

Até aí, a causa é nobre: cerca de metade dos homicídios na região decorre da atividade dos criminosos, que se imiscuem na estrutura econômica e política dos países —como indicam intersecções de investigações sobre o PCC e o escândalo do Banco Master no Brasil.

Coube ao falastrão secretário Pete Hegseth (Defesa) explicar seus termos. "Os Estados Unidos estão prontos para lidar com essas ameaças e ir à ofensiva sozinhos se for necessário. Mas é nossa preferência que façamos tudo em conjunto com vocês", disse.

Ele se dirigia a representantes de 16 países latino-americanos, com a notável exceção dos 3 mais afetados pelo problema: México, Brasil e Colômbia. Dois dias depois, ele e Trump apresentaram o programa Escudo das Américas.

Ato contínuo, reemergiu em reportagem do UOL a informação de que os EUA pretendem classificar como terroristas as principais organizações criminosas brasileiras, o supracitado Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.

O Departamento de Estado afirma não descartar a hipótese, preferindo chamar os entes de ameaça à segurança regional —o que são, por evidente.

Com falhas naturais, o regramento internacional busca critérios para chamar um grupo de terrorista. A principal é estabelecer um objetivo político ou ideológico, como a tomada de território ou de governos.

O PCC e o CV provocam terror e controlam áreas onde o Estado é ausente, mas ao menos por ora não pretendem ocupar o Palácio do Planalto. São facções do crime organizado e, para tal, há mecanismos internacionais de combate disponíveis.

Os meios poderiam ser ampliados caso os EUA os declarassem terroristas, com bloqueio expressos de bens e deportações. A concessão de vistos, como já se viu sob Trump, poderia sofrer restrições arbitrárias.

Mais grave, porém, é o risco para a soberania nacional, em especial à luz da aplicação do expediente já demonstrada pela administração do republicano.

De volta ao poder em 2025, Trump designou cartéis como terroristas em países como México e Venezuela. Neste último, a livre interpretação do americano é conhecida: o regime de Nicolás Maduro caiu na classificação, foi montado um portentoso cerco militar e o ditador hoje está preso com sua mulher em Nova York.

Quanto ao Brasil, ainda que qualquer ideia de intervenção militar soe delirante mesmo sob Trump, há um contexto político a considerar neste ano eleitoral.

A direita bolsonarista, que já embarcou no tarifaço contra o país, vê na segurança transnacional uma nova pauta par fustigar Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que não prima por uma política consistente sobre o tema.

Atenção ao metano

Por Folha de S. Paulo

Aceleração do aquecimento global exige medidas estratégicas de impacto no curto prazo, como a contenção desse gás

O ritmo de elevação da temperatura da Terra, que desde 1970 se mantinha em cerca de 0,2ºC por década, saltou a 0,35ºC a partir de 2014

Já é consenso no campo científico que a temperatura atmosférica do planeta está em alta desde o período pré-industrial. Mas pela primeira vez, segundo especialistas, uma pesquisa consegue atestar com alto grau de precisão que o aquecimento global passou a avançar de forma mais acelerada.

Segundo o estudo realizado pelo alemão Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, publicado na última sexta (6), o ritmo de elevação da temperatura da Terra, que desde 1970 se mantinha estável em cerca de 0,2ºC por década, saltou para 0,35º a partir de 2014.

Nessa toada, a meta do Acordo de Paris —manter a alta da temperatura média global abaixo de 2°C até 2100, preferencialmente abaixo de 1,5ºC, em relação ao período pré-industrial— será descumprida até 2030.

Os alemães aumentaram a precisão ao remover fatores de alteração de curto prazo, como o fenômeno El Niño, erupções vulcânicas e variações solares.

Ao excluir essas flutuações, a taxa de aceleração verificada na pesquisa (0,35°C) não se deve a picos nos termômetros em alguns anos, mas a uma tendência disparada na década passada.

Entre as causas, especialistas apontam para regras mais rígidas contra a poluição do ar. As partículas de poluição, prejudiciais à saúde, funcionam como barreiras que refletem a luz solar, o que ajuda a resfriar o planeta.

O outro fator amplamente conhecido são os gases de efeito estufa. Muito se fala sobre o dióxido de carbono, que de fato representa 75% desses gases. Mas é preciso dar maior atenção à contenção das emissões de metano.

Isso porque este gás é 80% mais potente do que o CO2 e se mantém por cerca de 20 anos na atmosfera, enquanto o dióxido de carbono permanece por séculos.

Na COP26, em 2021, 103 países assinaram o Pacto Global de Metano, que prevê a o corte de 30% nas emissões do gás até 2030.

Mas os números só crescem. A Agência Internacional de Energia estima 580 milhões de toneladas (Mt) de metano liberadas em 2020 e 610 Mt em 2024, sendo que 60% vêm de atividade humana. No Brasil, um dos signatários, as emissões de metano entre 2020 e 2023 subiram 6%, chegando a 21,1 Mt, com o agronegócio responsável por 75% do total, segundo a rede nacional de pesquisa Observatório do Clima.

Governos precisam direcionar esforços para ações estratégicas de combate de curto prazo, que mirem a velocidade dos termômetros —sem, por óbvio, esquecer de medidas mais duradouras, como a redução de CO2.

O Supremo precisa se ajudar

Por O Estado de S. Paulo

Pesquisa mostra que a maioria dos brasileiros acha que o STF perdeu credibilidade graças à conduta imprudente de alguns de seus ministros. Ou bem eles se emendam, ou o Senado terá de fazê-lo

Não há democracia no mundo que possa prescindir de um árbitro confiável reconhecido por todos. No arranjo institucional brasileiro, esse papel cabe ao Supremo Tribunal Federal (STF). A um só tempo, o STF é a instância final de resolução de conflitos entre os Poderes, a última linha de defesa de direitos e garantias fundamentais e a fonte de estabilidade do sistema político. E para dar conta de cada uma dessas atribuições constitucionais, o Supremo depende fundamentalmente da confiança dos cidadãos na sua imparcialidade. Vale dizer, quando a autoridade moral do árbitro é colocada em dúvida, não se está mais diante de um problema circunscrito à instituição nem muito menos a seus membros, mas sim de uma falha do próprio regime democrático.

Esse é o quadro inquietante revelado por um recorte da pesquisa Meio/Ideia divulgado ontem. Entre os entrevistados que afirmam estar informados sobre o caso Master, nada menos que 70% avaliam que o STF perdeu credibilidade. Para 35%, a Corte é a instituição mais associada ao escândalo envolvendo o banco do sr. Daniel Vorcaro, ora preso na Penitenciária Federal de Brasília. O índice supera, com folga, os porcentuais que vinculam o caso ao governo federal (21,3%) ou ao Congresso (17,9%).

A pesquisa expõe de forma incontrastável que as críticas ao Supremo não se restringem mais ao bolsonarismo, que sempre buscou deslegitimar a Corte como o anteparo institucional aos desígnios liberticidas de Jair Bolsonaro. O mal-estar em relação ao STF “furou a bolha”, como se diz, e alcançou parcelas bem mais amplas da sociedade. Não é difícil entender a razão.

Pululam evidências de que os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli se aproximaram de maneira imprópria, para dizer o mínimo, dos negócios do Banco Master e de Vorcaro em pessoa. Como se essa proximidade não fosse por si só perturbadora por envolver juízes da mais alta Corte do País, o problema torna-se ainda mais grave pela recalcitrância de ambos os ministros em oferecer à sociedade explicações convincentes sobre a natureza de suas relações com o banqueiro.

Em qualquer tribunal que se preze, o afastamento voluntário de julgamentos potencialmente contaminados por conflitos de interesses seria uma providência elementar. No STF, contudo, essa conduta republicana passa ao largo das considerações de Moraes e Toffoli. Os dois têm resistido em reconhecer a gravidade do problema, o que só amplia a percepção de que certos membros do Supremo parecem crer piamente estar acima das leis e de qualquer escrutínio público.

Basta dizer que o presidente do STF, ministro Edson Fachin, viu-se compelido a recorrer a um truísmo para tentar sensibilizar seus colegas. Durante um encontro com representantes de todos os tribunais do País, no dia 10 passado, Fachin fez um pedido nada sutil a Moraes e Toffoli, ainda que sem citá-los, ao exortar os magistrados a manter um “saudável distanciamento das partes”. O fato de uma obviedade como essa ter sido verbalizada pela mais alta autoridade judiciária brasileira indica o grau de degradação institucional do Supremo hoje. E a democracia só tem a perder com isso.

Todo tribunal vive da confiança pública, um dos pilares de sua autoridade, ao lado da lei. Sem ela, mesmo julgamentos tecnicamente impecáveis podem ser percebidos como suspeitos, razão pela qual o STF precisa recobrar o prumo, e preferencialmente por iniciativa própria. O primeiro passo para isso é elementar: Moraes e Toffoli devem se afastar de qualquer deliberação relacionada ao Banco Master e a Vorcaro. Caso contrário, o que hoje é um desgaste pode se tornar algo mais grave.

O debate sobre o eventual impeachment de ministros do STF, outrora um tabu, já ganhou as ruas. Em entrevista recente a este jornal, o economista Eduardo Giannetti, cujas convicções democráticas são indiscutíveis, classificou como “da maior gravidade” as suspeitas envolvendo Moraes e Toffoli e considerou “pertinente” discutir a hipótese de seus afastamentos do Supremo.

Malgrado estar previsto na Constituição e, portanto, ser plenamente legítimo, o impeachment de um ministro do STF seria inevitavelmente traumático para o País. Por isso é desejável que a própria Corte se emende. Ou o Senado terá de fazê-lo em seu lugar.

A esquerda que teme o PT

Por O Estado de S. Paulo

Ao discutir uma federação com o partido de Lula, PSOL revela um dilema mais amplo da esquerda: alianças que terminam ou sob hegemonia petista, ou com partidos esquálidos absorvidos pelo PT

Após semanas de embates públicos entre alas favoráveis a se abraçar ao PT e correntes que, temerosas de serem engolidas pelos petistas, rejeitavam a ideia, o PSOL decidiu não aderir a uma federação com o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O grupo liderado pelo hoje ministro Guilherme Boulos (PSOL-SP) defendia a união sob o argumento de fortalecer o campo progressista e ampliar a bancada de esquerda no Congresso. Do outro lado, dirigentes e militantes advertiam para o risco de perda de autonomia e de diluição do partido na estrutura petista. Ao final, prevaleceu com folga a posição contrária à federação. O episódio encerra formalmente a disputa, mas deixa o PSOL visivelmente fissurado – e expõe algo maior que suas próprias divisões. Há fraturas que hoje atravessam a esquerda brasileira.

A controvérsia revelou um debate que há muito percorre, ainda que em voz baixa, os partidos do chamado campo progressista: o receio de ser absorvido pelo peso político do PT. Está longe de ser uma suspeita repentina. Trata-se do reconhecimento – tardio, sublinhe-se – de uma dinâmica conhecida da política brasileira. Afinal, o PT nunca escondeu sua vocação hegemônica. Desde sua origem, organizou-se como força destinada não apenas a participar da esquerda, mas a liderá-la. Essa característica foi central para seu crescimento e permanência como principal partido do campo progressista, mas também produziu um efeito colateral evidente: a dificuldade de convivência equilibrada com aliados, entre os quais se inclui o próprio PSOL, que, convém lembrar, nasceu de uma costela do PT para encarnar a extrema esquerda que o partido de Lula se recusava a ser.

O PT não sabe dividir o poder. Esse apetite hegemônico não é propriamente novidade. Partidos organizados sob estruturas fortemente centralizadas tendem a operar com lógica de predominância. A cooperação com aliados existe, mas quase sempre subordinada a um projeto mais amplo de liderança política. Em tais circunstâncias, a convivência raramente se dá em pé de igualdade. Com o tempo, legendas menores passam a gravitar em torno da força dominante, muitas vezes perdendo visibilidade, quadros e identidade própria.

A experiência recente da esquerda oferece exemplos eloquentes. Na federação formada por PT, PV e PCdoB, os parceiros menores acabaram progressivamente ofuscados. O PV praticamente desapareceu do debate nacional. O PCdoB mantém presença institucional, mas perdeu o pouco que tinha de sua esquálida densidade política e viu parte de suas lideranças se dispersar. Mesmo partidos maiores convivem com tensões recorrentes na relação com o petismo. O PSB, por exemplo, oscila entre a cooperação governista e o esforço para preservar algum espaço político próprio, tensão visível tanto nas disputas regionais quanto nas negociações em torno do papel de suas lideranças no governo.

Foi à luz desse histórico que boa parte do PSOL recebeu a proposta de federação com compreensível desconfiança. Enquanto o PT enfrenta sinais de desgaste em sua base tradicional, o PSOL reúne quadros jovens e ativistas mobilizados. Entrar numa federação significaria compartilhar recursos, estratégia eleitoral e atuação parlamentar por quatro anos. Em termos práticos, seria uma convivência política permanente sob a sombra do maior partido da esquerda.

A decisão de rejeitar a federação pode ser interpretada, portanto, como uma tentativa de preservar autonomia. Mas isso não significa que o problema tenha desaparecido. O processo deixou cicatrizes evidentes dentro do PSOL. É plausível imaginar que parte de suas lideranças busque outro caminho político. Guilherme Boulos, cuja proximidade com Lula e com o próprio PT é cada vez mais explícita, poderá acabar formalizando uma migração que hoje já parece, em muitos aspectos, apenas uma questão de tempo.

No fundo, a questão ultrapassa o destino do PSOL. Diz respeito ao próprio funcionamento da esquerda brasileira nas últimas décadas. Enquanto o PT permanecer como força dominante, com vocação para dirigir todo esse campo político, alianças à esquerda tendem a oscilar entre dois riscos conhecidos: a fragmentação ou a absorção. O PSOL decidiu evitar a segunda hipótese. Resta saber se conseguirá escapar da primeira. E se a esquerda brasileira aprenderá, algum dia, a viver sem a inevitável batuta do PT.

Danos colaterais da guerra

Por O Estado de S. Paulo

Conflito no Irã encarece insumos, como fertilizantes e gás, e eleva risco de inflação para o Brasil

As incertezas que cercam o futuro próximo dos preços de gasolina e diesel estão longe de ser a única ameaça a pairar sobre a inflação brasileira desde que os EUA e Israel entraram em guerra contra o Irã. O conflito, que se espalha rapidamente por todo o Oriente Médio, faz disparar o preço de insumos importantes, como gás e fertilizantes, com reflexos no mundo todo, impacto que tende a ser particularmente pesado para o Brasil.

Ao contrário do petróleo, cuja escalada de preços internacionais tem um lado positivo para a economia brasileira, já que o País, grande exportador do produto, ganha com a venda, no caso dos fertilizantes não há qualquer vantagem. Pelo contrário: altamente dependente da produção externa, o Brasil importa em torno de 87% do fertilizante utilizado em suas lavouras, e uma parte considerável das encomendas passa pelo agora conflagrado Estreito de Ormuz, vinda de países como Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, todos já envolvidos indiretamente no conflito.

Em relação ao gás natural, a necessidade de importação não é tão relevante, resumindo-se a algo entre 20% e 30% do volume consumido. O Brasil também produz gás, mas reinjeta nos poços produtores uma grande parcela, seja por deficiências na infraestrutura de transporte, seja como técnica para ampliar a produção de petróleo. De qualquer modo, gás e fertilizantes são insumos que afetam diretamente os custos de produção tanto na agricultura quanto na indústria. Alta de custo de produção, como se sabe, sempre deságua nos preços do consumidor final, e isso significa alimentos e bens mais caros.

Por tudo isso, causa assombro quando o presidente do PT, Edinho Silva, diz, em entrevista ao jornal Valor, que considera a ameaça inflacionária mundial da guerra como “um risco menor” para o Brasil. Edinho declarou que “não há nada indicando na economia que não haverá queda de juros”. Felizmente, essa avaliação, típica do negacionismo lulopetista, provavelmente não será compartilhada pelos integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom), a quem cabe a decisão.

O início do ciclo de queda de juros em março foi anunciado pelo Banco Central no final de janeiro, um mês antes do inesperado e intenso bombardeio do Irã por EUA e Israel. O presidente americano, Donald Trump, que ordenou o ataque em meio a uma negociação diplomática com o Irã, despeja diariamente estimativas variadas para a duração do conflito e deixa o mundo inteiro em suspenso. Não há como ter qualquer certeza sobre os impactos econômicos da guerra.

O Copom se reúne nos dias 17 e 18 sob muita expectativa do mercado, que tem recalibrado apostas para baixo, ainda que de forma suave. Os juros de 15% ao ano podem, de fato, ser reduzidos na reunião, com a intensidade do corte revelando o nível de cautela da autoridade monetária. O Brasil anseia pela queda dos juros, hoje em um patamar que estrangula a economia, mas não se pode ignorar que os efeitos danosos da guerra mal se fizeram sentir, razão pela qual se recomenda prudência.

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